Crítica | Abá e sua Banda

Nota
4

No reino de Pomar, todas as frutas eram felizes sendo governadas pela família real Abacaxi. Em Pomar, a cultura é algo super importante, onde a música é levada muito a sério, tendo até um grande festival onde a própria Rainha de Pomar cantava para seus súditos todos os anos. Mas justamente no primeiro festival da primavera onde seu filho, Abá, iria assistir sua mãe cantar pela primeira vez, um grande acidente aconteceu, deixando Abá órfão de sua mãe e Pomar órfã de sua rainha. Após a morte de sua esposa, o Rei Caxi, não quis mais saber do seu povo, ficando recluso e isolado de todos, inclusive de seu filho. Agora com seus 13 anos, Abá está cada vez mais interessado em música e menos interessado nas suas responsabilidades enquanto príncipe. E junto de seu amigo Juca, os dois músicos de rua irão conhecer Ana, uma revolucionária anti-coroa que irá ajudá-los a formar uma banda para concorrer no tão sonhado festival da primavera, que agora não acontece mais nas dependências do castelo. Vai ser uma jornada cheia de música e de segredos a serem revelados entre esses novos amigos. Abá e sua Banda é a nova produção Globoplay, em parceria com o canal Gloob, que tem sua estreia marcada para dia 17 de abril para todos os cinemas nacionais.

Dirigido por Humberto Avelar, Abá e sua Banda é o primeiro longa do diretor, que já teve alguns projetos com curtas animações desde 2003. Sempre focado em trazer brasilidades para suas animações, Humberto acerta em cheio na criação de personagens puramente brasileiros baseados em frutas do país e do mundo. O grande acerto do filme é, sem dúvida, o design de personagens, que se utilizam das características das frutas abordadas para trazer traços antropomórficos, como as folhas e cascas como cabelos, o uso extenso de texturas para representar cascas e outros atributos, assim como cada tipo de fruta ter sua personalidade que conversa bem com os signos que cada fruta representa. Tudo isso atrelado ao inventivo trabalho com o 3D do filme que é extremamente louvável, por criar uma ilusão de 2D muitas vezes, sendo uma animação muito bem estilizada e atual, seguindo as tendências mundiais de animação que fogem do realismo exacerbado, voltando finalmente ao estilo cartoon para as animações, além de também seguir uma estética conhecida aos espectadores do canal Gloob. A animação se destaca por fazer muito com pouco orçamento, que fica nítido em alguns detalhes com uma renderização de qualidade reduzida, mas que passam muito despercebidas ao olho leigo, ainda mais pelas composições de cena que são muito bem estruturadas.

Abá e sua Banda também fala sobre diversos assuntos de uma forma lúdica, para que crianças de todas as idades possam entender. O filme fala sobre golpe de estado, facismo, assim como sobre a importância de movimentos revolucionários para não aceitar as atrocidades de um governo facista em silêncio, tudo isso de uma forma leve e divertida, que apresenta a seriedade das situações sem pesar tanto o clima para um filme infantil, mas que ainda assim consegue passar bem a sua mensagem. Apesar de abordar tantos temas políticos, o filme continua centrado no modelo monárquico, levando a ideia de reis e rainhas até o seu fim, o que foi uma oportunidade perdida por exemplo de ensinar as crianças de forma lúdica sobre democracia por exemplo, visto que as frutas do filme vivem em um país moderno com carros, guitarras e outros aparelhos eletrônicos, e a monarquia não se reflete mais em um modelo moderno como é passado no filme, ainda mais para nós brasileiros que temos uma das mais modernas democracias do mundo. 

Super animado, Abá e sua Banda vai nos transportar para o mundo musical das frutas do reino de Pomar. Unindo brasilidade e criatividade com uma pitada de crítica social, a animação do diretor Humberto Avelar apresenta diversos temas complexos mas com uma leveza e inteligência que fará com que qualquer criança entenda o que está sendo apresentado. Trazendo técnicas de animação inspiradas nas novas tendências dos estúdios estadunidenses, Abá e sua Banda traz uma qualidade artística e técnica sem igual, especialmente pelo visível pouco orçamento do filme, conseguindo com a maior esperteza driblar os problemas para não repassar isso para o público final, entregando um resultado lindo de um filme que leva uma mensagem sobre resistência e união. Mesmo perdendo algumas oportunidades de enriquecer ainda mais o seu enredo, o filme celebra a importância da música e da cultura para um país, enquanto leva o espectador a refletir sobre questões políticas importantes. A história cheia de ritmo, promete agradar crianças de todas as idades, e porque não a toda a família?

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.

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