Crítica | Apanhador de Almas

Nota
3.5

Apanhador de Almas é um filme que respira tensão contida: não grita, mas pressiona, como alguém que aproxima um objeto pontiagudo até quase tocar. Dirigido por Nelson Botter Jr. e Fernando Alonso, o longa parte de um princípio simples e o transforma em sensação contínua — o retorno a uma casa que guarda lembranças e segredos que ninguém quer enfrentar. A proposta não é o choque fácil, é o desconforto prolongado, e os diretores dominam esse território com inteligência visual e emocional.

Klara Castanho conduz a narrativa com maturidade. Sua interpretação de Sofia é feita de olhares, pequenas reações e uma presença interior que segura o filme. Não há histrionismos; há sutileza. Sofia não é uma vítima típica do terror, é alguém cujas feridas se manifestam em hesitações, em passagens pela casa, no modo como seus dedos tocam objetos que parecem carregar ecos. Klara transforma essa interioridade em tensão palpável, e o filme se sustenta muito por sua capacidade de tornar o silêncio expressivo.

A fotografia de Giovanna Pezzo é peça-chave para a atmosfera. Ela usa luz com economia, privilegiando sombras que sugerem mais do que mostram. Os enquadramentos frequentemente isolam a protagonista em planos largos ou a comprimem em detalhes claustrofóbicos, insistindo na sensação de que o espaço doméstico já não é seguro. A textura das imagens funciona quase como pele: uma superfície por onde algo antigo ainda se move.

A trilha sonora de Daniel Galli e Filipe Trielli merece destaque. Em vez de buscar melodias invasivas, a música atua por camadas, usando timbres mínimos, ruídos sutis e respiros sonoros que se infiltram nas cenas. Há momentos em que o som parece vir de dentro da própria casa, e não de fora — essa escolha reforça a ideia de que o perigo não é externo, mas enraizado em memórias e segredos que não foram resolvidos.

O roteiro assinado por Nelson Botter Jr., Fernando Alonso e Tarsila Araújo prefere sugerir a entregar. As lacunas são propositalmente deixadas abertas para que o espectador preencha, e isso gera ambivalência: por um lado, há frustração para quem busca respostas prontas; por outro, há espaço para que o filme funcione como experiência sensorial. A forma como o passado ressurgia — através de objetos, gestos e respirações — transforma o sobrenatural em metáfora do luto e da culpa.

O elenco de apoio atua com discrição necessária, permitindo que a narrativa gire em torno do trauma de Sofia sem distrações. As interações secundárias são pontuais e sempre atravessadas por subtexto, o que reforça a ideia de que a casa é um palco onde cada personagem traz seu próprio peso. Não se trata de muitos sustos, mas de começos de susto; o filme prefere deixar a impressão do que a explicação completa.

O ritmo é deliberadamente contido. Botter Jr. e Alonso estendem cenas pelo tempo exato para que o público sinta a passagem do ar, o peso do silêncio e a insistência do que não foi dito. Essa escolha exige paciência, mas recompensa com imagens que permanecem depois dos créditos. Apanhador de Almas não se contenta em ser apenas uma história de assombração; ele quer que a dúvida e o luto acompanhem o espectador para fora da sala.

No conjunto, Apanhador de Almas confirma a promessa de um cinema de gênero brasileiro mais sutil e sensorial. É um filme que aposta na atmosfera, na interpretação contida de Klara Castanho, na sensorialidade da fotografia e na economia da trilha sonora. Para quem gosta de terror que inquieta por meio do silêncio, dos objetos e das memórias, este é um título que merece ser visto e sentido.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.

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