Crítica | Bugonia

Nota
4.5

Teddy (Jesse Plemons) mora sozinho com seu primo, Don (Aidan Delbis), em uma casinha isolada no interior. De dia ele trabalha como empacotador de uma grande empresa e nas horas vagas ele cuida de suas abelhas de forma amadora. Revoltado com a situação das abelhas, que estão morrendo devido às ações do ser humano, Teddy se inflamou com diversas teorias da conspiração sobre alienígenas, e está convencido que a CEO da empresa que ele trabalha, a poderosa Michelle Fuller (Emma Stone), é uma alienígena que tem um plano maligno contra a humanidade. Por conta disso, ele irá manipular o seu primo inocente a se unir a ele num plano mais que engenhoso: sequestrar a Michelle Fuller para que ela possa os levar a conhecer o seu imperador do planeta Andrômeda. Do mesmo diretor que nos trouxe Pobres Criaturas (2023), Bugonia é o novo filme de Yorgos Lanthimos, que nos traz mais uma vez uma premissa mirabolante com uma narrativa surpreendente.

Por incrível que pareça, essa não é uma história original de Yorgos. Bugonia na verdade é um remake de um filme coreano de 2003, o inventivo Save the Green Planet!, que foi um das primeiras produções da produtora coreana CJ Entertainment, que já trabalhou com grandes diretores como Bong Joon-ho e Park Chan-wook. Yorgos Lanthimos acabou trazendo muito do material original para sua nova obra, trazendo a mesma estrutura e adicionando principalmente o que faltava na obra de 2003 para a sua de 2025. A primeira grande mudança, foi de gênero dos personagens, onde originalmente o Teddy e o Don eram um casal, e essa mudança foi inteligentíssima para a dinâmica dos personagens, trazendo mais dimensão e complexidade para o personagem do Don, dando um destaque emocional muito maior que na versão original. Outro personagem que mudou de gênero foi Michelle Fuller, que originalmente era um homem, mas que essa mudança também trouxe uma dinâmica interessante para o Teddy, expondo um pouco das camadas de misoginia que pessoas conspiracionistas mantêm.

O enredo de Bugonia também é uma surpresa por reformular uma premissa tão inventiva e lapidá-la de uma forma mais objetiva. Save The Green Planet! acaba não tendo um foco de onde a história quer seguir com relação a sua mensagem, o que leva o diretor Yorgos Lanthimos a trazer uma mensagem para obra que antes não tinha. Ao escolher dar ao Teddy e ao Don as características de teoristas da conspiração, o diretor acaba criticando muito essa cultura conspiracionista que cresce cada vez mais nos EUA, principalmente a usar elementos, como a terra plana, para ilustrar a passagem de tempo do filme, coisa que não era discutida em 2003 na época da referência original. Fica-se apenas o questionamento se a crítica de Lanthimos foi a fundo o suficiente para cutucar os conspiracionistas, ao invés de romantizá-los por os colocar como protagonistas de uma forma tão vulnerável e emocional.

Nos filmes do Yorgos podemos esperar grandes atuações, e em Bugonia não seria diferente. Emma Stone, que já é um rosto carimbado nas obras do diretor, segue impecável no seu papel como Michelle, trazendo um papel como nunca havia feito antes, o que mostra o quanto a atriz confia no diretor para embarcar em suas ideias mirabolantes. Emma entrega os diversos estágios que sua personagem passa durante o sequestro com maestria, fazendo com o que o espectador distinga muito bem os estágios que ela está passando: do pânico, ao medo, a tristeza, a aceitação, até enfim a manipulação, e além de tudo mantendo a personalidade fria, ácida e arrogante de sua personagem, assim como nos é apresentado no início do filme. Já seu companheiro de cena, Jesse Plemons, está sem dúvidas no seu melhor papel até então. O dinamismo e complexidade de seu personagem é extremamente bem feito, ainda mais porque, ao contrário da referência original, onde o personagem principal estava insano desde o início, a insanidade de Teddy é construída diante dos nossos olhos, aos poucos. E tudo isso é corroborado com a parceria incrível com o doce Aidan Delbis, que é um complemento perfeito para a atuação de Jesse, já que a sinergia entre os dois é perfeita, tornando um laço familiar completamente acreditável e dando ainda mais complexidade, profundidade e desenvolvimento para ambos os personagens.

O imaginativo Bugonia é mais uma obra de Yorgos Lanthimos que vai nos fazer pensar e sobretudo viajar. O mergulho que o diretor faz nesse universo tão absurdo das teorias da conspiração é um ótimo ponto de partida para discussões complexas da sociedade atual, como nossa relação com o capitalismo, a natureza e até nossas relações interpessoais enquanto seres humanos. E tudo isso se fez possível com a ideia maluca de Lanthimos de transformar uma fábula cômica de 13 anos atrás e transcender com seu olhar e humor ácido para uma história mais complexa, carregada de emoção e incrivelmente mais humana. Tudo isso recheado de atuações brilhantes do seu elenco recorrente composto por Emma Stone e Jesse Plemons, após a decisão inteligente de cortar diversos personagens da referência original, até mesmo para aprofundar-se nos personagens que realmente importam. Bugonia é na verdade como uma colmeia: ao olhar de fora você não se dá conta da sua estrutura complexa e cheia de propósito.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.

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