Nota
Mabel é uma menininha amante dos animais que sempre tentou de tudo para salvá-los a qualquer custo, mesmo que isso lhe causasse problemas com todos ao seu redor na escola. Para tentar ajudá-la, sua mãe a leva para passar as férias com a sua avó, que mora numa casinha ao redor de uma floresta pacata e cheia de bichinhos. Lá, sua avó vai ensinar uma lição importante para a mocinha: é importante escutar o mundo ao seu redor para conseguir lidar melhor com seus acessos de raiva. E com isso, no seu cantinho especial às margens de um laguinho, Mabel fortalece ainda mais o seu amor pela avó. Mas quando ela perde sua avó, a solidão que toma conta dela faz voltar os sentimentos da sua infância. Então, determinada a salvar os animais da sua cidade do prefeito Jerry, que planeja acabar com o seu laguinho especial para construir uma rodovia, ela vai fazer de tudo para impedir, inclusive invadir um projeto super secreto de sua professora da faculdade para conseguir se comunicar com os animais da floresta. Nessa mistura louca entre Avatar (2009) e Irmão Urso (2003), Cara De Um, Focinho De Outro é o novo filme da Pixar que aborda a conscientização ambiental de um jeito bem Pixar de ser.

Em seu segundo trabalho como diretor de um longa em animação, Daniel Chong une forças com Jesse Andrews, veterano da Pixar que escreveu o sucesso Luca (2021), para a mais nova produção, que traz também essa vivência de imigrante do diretor para o filme. Mesmo assim, é uma pena que mais uma personagem não branca protagonista da Disney/Pixar acabe caindo no estereótipo de jornada “mágica”, onde seu protagonista passe a maior parte do tempo como um animal, ao invés de ser humano, o que também não ajuda muito quando, no fim, o desenvolvimento da Mabel acaba sendo extremamente raso. Ainda assim, o filme consegue fugir bem de alguns clichês do gênero, tentando acentuar ainda mais uma trégua entre humanos e animais, visto que esse é o ponto central do filme. Falando inclusive de ambientalismo, Cara De Um, Focinho De Outro faz um trabalho bem mediano com relação a conscientização ambiental, ainda mais após diversos filmes infantis que trabalharam melhor o tema, como em Robô Selvagem (2024), que trouxe a relação de como a natureza pode coexistir com a tecnologia, e também o brasileiro Tainá e os Guardiões da Amazônia: Em Busca da Flecha Azul (2025) que trouxe uma resolução de problemas idêntica ao novo da Pixar, mas que funciona para o longa de Tainá por conta de seu público alvo mais infantil, um filme da Pixar, que tem clássicos como Wall-E (2008) no currículo, poderia explorar a temática de uma forma mais madura e inteligente.
Ainda assim, mesmo cheio de clichês, Cara De Um, Focinho De Outro não deixa de ser um filme super divertido no estilo Pixar. Com uma comparação cômica à Avatar, o filme de fato não deixa de ser uma espécie de Avatar com animais, e essas estranhezas entre animais e humanos é que traz todo o cômico do filme. Claro que o personagem mais engraçado acaba sendo o rei dos mamíferos, o hilário George, que nos conquista com sua ingenuidade. Com piadas que vão surpreender até os adultos, o filme também se diferencia de outros filmes da Pixar por trazer algumas cenas mais “assustadoras”, nada que chegue aos pés de clássicos do terror infantil como A Casa Monstro (2006) ou Coraline (2009), e nem de filmes mais recentes que tentam reviver essa ideia de terror infantil como foi no caso de Zoopocalipse – Uma Aventura Animal (2025), mas que traz em alguns takes essa estética que quase foi perdida nas últimas produções, mas que mesmo não sendo do gênero, o filme se aproxima a tais produções em momentos mais tensos, fazendo referência até a alguns clássicos do diretor britânico Hitchcock.

Tecnicamente, Cara De Um, Focinho De Outro também não se distancia muito de produções mais recentes do estúdio, visto que a Disney/Pixar tem feito esforços para mudar a estética de suas animações após o sucesso de outras produtoras como a Sony e até a Dreamworks com animações que experimentam mais outros estilos. Ainda assim é o filme menos inventivo com relação a inovações de animação, já que um dos últimos lançamentos da produtora, Elementos (2023) conseguiu trazer além de personagens feitos literalmente de fogo e água, que se mostrou ser tecnicamente muito difícil desde o cavalo feito de água em Frozen 2 (2019), o diretor Daniel Chong parece ter seguido um caminho mais seguro com relação a seu filme, sem grandes inovações, mas também sem um direcionamento estético que se destaque de outras obras recentes.
Com animais fofos e muita confusão, Cara De Um, Focinho De Outro é a mais nova aventura divertidíssima da Pixar. Apesar do roteiro seguir um pouco mais do mesmo de sempre, sem grandes inovações, o filme é de fato é consistente com a fórmula Pixar: Divertido, com personagens muito carismáticos e fofos, uma história sobre amizade e família que chega a emocionar. A proposta de misturar consciência ambiental com uma fantasia tecnológica e animal funciona em partes, pois carece de profundidade para se destacar em meio a outras produções que já abordaram temas semelhantes com mais maturidade. Tecnicamente seguro por ser pouco inventivo, o longa se apoia no carisma de seus personagens como sempre para conquistar o público, já que a história por mais consistente que seja não trás nada de novo. É uma obra divertida e cômica, mas dificilmente será lembrada como uma das mais marcantes da Pixar, o que é uma oportunidade perdida para o diretor de descendência asiática que poderia ter trabalhado suas raízes de uma forma mais marcante, até como fez Domee Shi, em seu marcante Turning Red (2022) que abordou muito bem sua ancestralidade chinesa de uma forma excelente.