Nota
Matías e Jerónimo são amigos de infância, daqueles inseparáveis, cuja conexão parece inabalável. No entanto, o tempo — sempre implacável — decide testar essa amizade quando circunstâncias da vida acabam por afastá-los. Mais de uma década depois, já adultos, eles se reencontram quando Matías retorna à cidade natal durante o carnaval, acompanhado de sua namorada. Esse reencontro inesperado desperta uma enxurrada de lembranças, especialmente da adolescência, quando as mudanças nos corpos também começaram a transformar os sentimentos entre os dois. Aquela amizade inocente passou a dar espaço para uma atração silenciosa, sufocada por medos e inseguranças. Agora, frente a frente novamente, os dois precisam encarar tudo o que foi reprimido por anos. Esteros é muito mais do que um simples romance sobre amigos que se apaixonam; é uma produção sensível que mergulha nas camadas de relacionamentos complexos, tensões sexuais mal resolvidas e, principalmente, na dolorosa experiência da homofobia internalizada.

Concebido a partir de uma coprodução internacional entre Argentina, Brasil e França, Esteros é dirigido por Papu Curotto e roteirizado por Andi Nachón, ambos também responsáveis pela história original apresentada no curta Matías y Jerónimo (2015). Nesse curta de apenas nove minutos, acompanhávamos dois garotos indo ao sambódromo, apenas para presenciarem, de forma chocante, um dos sambistas sendo brutalmente espancado atrás das arquibancadas pelo simples fato de ser gay. Era uma construção crua, rápida e impactante, que parecia quebrar de forma abrupta a inocência dos protagonistas, mas que também deixava muito por dizer. A transição dessa narrativa curta para o longa-metragem trouxe a oportunidade de aprofundar as camadas de dor, repressão e descoberta que marcam a trajetória dos dois amigos. Lançado há quase uma década, o filme permanece assustadoramente atual, com uma essência forte e honesta ao explorar a vida desses homens — da infância até a fase adulta, atravessando os dilemas que a homofobia e o autoconhecimento impõem. Um verdadeiro achado entre os romances LGBTQIA+, por entregar uma trama crua, imperfeita e emocionalmente desafiadora, que faz o público torcer intensamente por um final feliz.
Considerando que toda a narrativa gira em torno de Matías e Jerónimo, é a atuação de Ignacio Rogers (Matías adulto) e Esteban Masturini (Jerónimo adulto) que conduz emocionalmente o filme. Ainda que figuras como María Merlino, no papel de Marilú (mãe de Jerónimo), e Renata Calmon, como Rochi (namorada de Matías), tenham presenças marcantes, são os protagonistas que sustentam o fio dramático com consistência. Rogers entrega um Matías contido, um homem que deixou o passado para trás ao construir uma carreira de sucesso como biólogo no Brasil. Seu retorno à cidade natal, ao lado da namorada brasileira, parece inicialmente uma simples viagem, mas logo se revela um confronto direto com fantasmas que ele claramente evita revisitar. Por outro lado, Masturini vive um Jerónimo mais bem resolvido com sua sexualidade: ele é assumido, trabalha com maquiagem de efeitos especiais e acaba, ironicamente, sendo contratado por Rochi para produzir um look carnavalesco para ela e Matías. O reencontro entre os dois reabre feridas e sentimentos não resolvidos, enquanto Jerónimo tenta decifrar se aquele homem diante dele ainda é o mesmo menino por quem nutriu sentimentos tão profundos. Um destaque especial também vai para Joaquín Parada (Matías adolescente) e Blas Finardi Niz (Jerónimo adolescente), que assumem o desafio mais delicado do filme: retratar o despertar sexual com a dose certa de inocência, evitando qualquer exagero ou sexualização desnecessária, para que o momento preserve sua essência mais pura e emocional.

Esteros é, acima de tudo, um romance sobre o futuro — mesmo quando passa boa parte do tempo preso ao passado. É uma história sobre aceitar sentimentos, enfrentar medos e quebrar as barreiras dos preconceitos internalizados. Trata-se de dois amigos que, ainda na adolescência, descobrem o amor, e que, anos depois, precisam redescobrir o que significa amar de verdade. O filme começa de forma quase sádica, explicitando os sentimentos mas reprimindo qualquer avanço emocional, até finalmente libertar sua trama nos dois terços finais dos seus 88 minutos de duração. A partir daí, se concentra na luta interna de cada um para entender quem realmente são e o que estão sentindo. Desde a primeira cena, fica evidente que Matías e Jerónimo se amam — o olhar entre os dois denuncia mais do que qualquer diálogo. Os flashbacks se tornam fundamentais para construir essa história, dando corpo ao desejo latente que exala sempre que eles dividem o mesmo espaço. O resultado é uma produção que, em muitos momentos, beira o conto de fadas — idealista, conveniente, e com o único diferencial de ter dois homens como protagonistas de uma narrativa de amor que, em essência, é universal.
Previsível sem ser incômodo, o longa é repleto de conveniências de roteiro que claramente têm o objetivo de forçar a aproximação entre os protagonistas. A ausência da namorada de Matías na ida à fazenda dos pais de Jerónimo, a tempestade que os obriga a passarem a noite juntos e impede a chegada de outras pessoas, o episódio das roupas molhadas que os expõe fisicamente um ao outro… Tudo parece cuidadosamente orquestrado para criar oportunidades de tensão emocional e sexual. Como se isso não bastasse, o roteiro insiste em frases de efeito, quase como se precisasse reforçar a cada cena que os dois se amam — mesmo quando o público já entendeu isso há muito tempo. Por mais que essa “forçação de barra” soe incômoda em alguns momentos, é justamente ela que mantém o interesse em ver como a história vai terminar. O desfecho, felizmente, opta por uma construção doce e realista, longe de grandes fantasias românticas, mas fiel à ideia de que a vida real, com todas as suas camadas de homofobia internalizada e repressões emocionais, pode, sim, permitir recomeços e finais genuínos.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.