Nota
“Não vou deixar nada machucar você, nunca mais.”
Depois que seus pais acabam morrendo em um acidente de carro, a caminho de uma viagem para esquiar, Cady acaba indo morar com Gemma, sua tia, uma supercompetente roboticista da Funki, empresa de brinquedos de alta tecnologia que está fazendo sucesso com o Perpetual Petz. Quando um concorrente lança um brinquedo semelhante, David começa a pressionar Gemma para desenvolver uma nova geração de Perpetual Petz que seja mais barata, o que faz a mulher ficar mais workaholic que o normal e não ter muito tempo para Cady, mas é na vivencia com sua sobrinha que Gemma percebe o potencial de um outro projeto: o Model 3 Generative Android, M3GAN, um robô humanoide de tamanho real dotado de uma inteligência artificial que possibilita uma conexão completa entre brinquedo e criança, auxilia com os aprendizados diários e pode preencher o tempo ocioso dos país. A ideia revolucionária, e incrivelmente cara, acaba por fazer os olhos de David brilhar, fazendo a empresa investir numa promissora, e perigosa, aposta.
Não precisa muito para deixar clara a qualidade que existe no longa, basta falar que temos roteiro baseado no argumento de James Wan e produção de James Blum (ou seja, Blumhouse) que rapidamente o filme vai conseguir chamar a atenção de qualquer pessoa com um entendimento básico sobre filmes de terror. Fugindo do padrão Wan-Blum de terror, o filme dirigido por Gerard Johnstone esquece a sobrenaturalidade do medo geral e investe mais a fundo no terror futurista (ou praticamente presente) das AIs. M3GAN parece uma fusão espiritual de Chucky e do Ultron de Era de Ultron, ela inicialmente é um inocente brinquedo que aos poucos vai se transformando, mas ao contrário do Brinquedo Assassino sua transformação não tem origem demoníaca, ela começa a aprender com os humanos e com a internet, assim como Ultron, a remodelar seu código moral, criando novos parâmetros de ação e enxergando que precisa superar o conceito de certo e errado para cumprir sua missão de proteger Cady de forma física e emocional, entendendo que as vezes é necessário matar para proteger quem amamos. Talvez não por opção, o longa evita o uso das Leis de Asimov, o que claramente é um erro fatal num trabalho de roboticista e claramente se torna a base principal para toda a evolução macabra de M3GAN, e é justamente quando a boneca começa a usar sua AI para adquirir conhecimento independente que vamos vendo ela se transformar, num intenso terror psicológico e que mal investe em jumpscares.
Apesar de o filme ser focado principalmente em três personagens e suas interações, não falta em momento nenhum um desenvolvimento preciso e ritmado. Allison Williams é a grande protagonista do filme como Gemma, é ela quem começa a enxergar as inconsistências em M3GAN, que começa a perceber que criou um monstro e precisa entender como reverter seu erro, que coloca em risco sua vida, sua carreira e a vida de sua sobrinha. Alisson já esteve no lado oposto da moeda ao interpretar Rose no maravilhoso Get Out de Peele, talvez por isso ela esteja tão a vontade nesse terror quase psicológico. Violet McGraw é outro show de atuação no papel de Cady, ela consegue entregar tudo na sua transição em tela, começando com o luto de uma garota que acabou de se tornar órfã, uma frieza e obliquidade que transcende a tela e nos faz sentir sua dor, e vai ganhando cor a medida que sua relação com M3GAN vai se fortalecendo, se transformando numa criança feliz, mas, talvez, o grande ápice de sua atuação seja quando sua tia começa a querer afastar ela de M3GAN, quando começa a enxergar os problemas na boneca e começamos a ver Cady se transformar, toda a dependência emocional que a garota empregou na boneca é exposta e se torna um terror a parte ver a garota em fúria, nos lembrando que estamos debatendo sobre os perigos da tecnologia. A atriz mostra uma evolução surpreendente, superando facilmente seu desempenho em A Assombração da Residência Hill, onde foi o grande destaque no papel de Nell quando criança. O trio se completa com Amie Donald, a atriz por trás de M3GAN que, apesar de não ser a voz da personagem, consegue criar uma personalidade inteiramente única usando só o gestual da antagonista, a forma como ela anda, suas danças que viralizaram e até a forma como ela olha para as pessoas, tudo constrói absurdamente bem a personagem, o que só se complementa pela dublagem rígida de Jenna Davis, que, acreditem, conseguiu fazer até a música Titanium soar macabra.
Engraçado e aflitivo, M3GAN consegue pegar o melhor do gênero ‘bonecos assassinos’ e se sustentar com inovação, ele traz uma roupagem moderna ao estilo e bebe muitas referencias da cultura pop, o que talvez tenha sido a origem da ideia das dancinhas que rapidamente fizeram sucesso no Tiktok, ao mesmo tempo que faz discretos comentários sociais. M3GAN começa a deixar de obedecer ordens quando cria seu próprio conceito moral, deixando no ar o grande questionamento sobre a natureza humana e o potencial da tecnologia de forma indireta, e talvez seja para botar o dedo na ferida moral que o roteiro de Akela Cooper traga cenas que não se levam a sério, nos deixando rindo de nervoso em vários momentos. Misturando críticas com memes e ridicularizações, o filme nos cativa de uma forma surpreendente, apresenta uma narrativa que pode não envelhecer bem mas é feita para um mercado fixo temporalmente e mostra uma nova face para toda a expertise que Wan e Cooper nos entregaram com o denso Maligno, contrastando a poderosa cena da cabeça decepada com um enredo que evita até trazer o sangue diretamente em tela, o que o torna adequado a um público maior, mais reflexivo e menos chocante. Um gostoso respiro no gênero, a produção fez tanto sucesso em sua semana de estreia que já garantiu uma sequencia (intitulada M3GAN 2.0) com o retorno do trio protagonista em mais uma desventura da boneca que aterroriza tanto quanto diverte, talvez por isso tenha se tornado um novo ícone do cinema.
Icaro Augusto
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Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.