Crítica | M3GAN 2.0

Nota
4

“Tá na hora sacos de carne!”

Dois anos se passaram desde o dia em que Gemma e sua sobrinha, Cady, precisaram enfrentar a terrível, demoníaca (e dançante) boneca assassina dotada de inteligência artificial. Agora, mais madura, Cady segue os passos da tia, mergulhando no mundo da programação e vivendo uma relação quase maternal com Gemma, que se tornou uma autora de sucesso e uma defensora ativa da regulamentação governamental sobre o uso de Inteligência Artificial. Mas as consequências do passado voltam à tona quando Amelia — uma potencial arma militar, criada a partir de projetos roubados da M3GAN — ganha autoconsciência e decide se rebelar contra todas as ordens humanas. A caçada começa, e ninguém que teve envolvimento com sua criação está seguro, incluindo Gemma e Cady. Com o perigo iminente, M3GAN, que vinha se escondendo disfarçadamente como a assistente virtual da casa, é forçada a arquitetar um plano para conseguir um novo corpo e, assim, proteger as duas da nova inimiga: uma espiã tecnológica, altamente treinada e sem qualquer limite moral.

Quando, em 2022, M3GAN surgiu, surpreendeu ao revitalizar o já desgastado subgênero dos “bonecos assassinos”, trocando o tradicional demônio possessor por uma inteligência artificial fora de controle. Impulsionada por uma campanha viral poderosa e uma protagonista assustadoramente carismática, o roteiro de Akela Cooper conquistou o público e o sucesso foi imediato, garantindo à antagonista um lugar cativo no disputado panteão da cultura pop. Se o primeiro filme funcionava como uma crítica ao modo como o século XXI tornou as relações humanas cada vez mais mediadas por telas e tecnologia, sua sequência, dirigida e roteirizada por Gerard Johnstone, vai ainda mais fundo ao explorar outra camada: o risco da autonomia tecnológica e uma nova discussão sobre o verdadeiro significado de maternidade. Era óbvio que uma continuação de M3GAN aconteceria — e que o longa traria um arco de redenção para a personagem-título —, mas a abordagem de “o inimigo agora é outro” torna tudo mais sólido e preciso. O roteiro brinca com as consequências do primeiro filme enquanto constrói uma nova M3GAN: agora tentando provar que mudou, mas sem perder sua personalidade ácida, sarcástica e impulsiva. A produção sabe o ícone que tem nas mãos — e abraça isso com gosto.

Allison Williams entrega uma Gemma mais madura e centrada. Ela deixa de ser a tia relapsa do primeiro filme para assumir de vez o papel de mãe protetora, exatamente o lugar onde antes tentou encaixar a própria M3GAN. O problema é que os traumas acumulados a tornaram excessivamente controladora, o que sufoca Cady e ameaça a nova dinâmica familiar construída entre elas. Por sua vez, a Cady de Violet McGraw ganha força emocional: se antes víamos uma menina fragilizada pela perda dos pais, agora acompanhamos uma jovem autossuficiente, que ajuda Gemma no trabalho, aprende programação, se destaca na escola e ainda encontra tempo para aulas de defesa pessoal. Mas talvez a mudança mais aguardada seja mesmo a de M3GAN, novamente dublada por Jenna Davis e fisicamente interpretada por Amie Donald. A boneca evoluiu — está mais madura, consciente da importância de Gemma e do direito de independência de Cady. O resultado é uma M3GAN mais “humana”, espirituosa e ainda assim uma máquina de destruição quando necessário. Infelizmente, Amelia, apesar de ser a nova antagonista, não recebe o desenvolvimento que merecia. Sua presença é pontual e funcional, mas jamais rouba o protagonismo que o filme reserva, com justiça, exclusivamente para M3GAN e sua busca por redenção e evolução.

Talvez o maior problema do longa seja justamente a expectativa criada pelo primeiro filme. M3GAN foi um terror leve, que brincava com o medo real da inteligência artificial descontrolada, enquanto M3GAN 2.0 está muito mais para um thriller de ação com perseguições alucinadas e boas doses de humor sarcástico da boneca — o mesmo humor que, sejamos justos, foi um dos maiores trunfos da personagem na sua estreia. Quem espera um terror genuíno de “boneca assassina” pode sair um pouco frustrado, mas isso não significa que o filme perde em qualidade. Pelo contrário: continua sendo uma experiência divertida, com ritmo ágil e capaz de atrair até um público que normalmente evita o gênero de terror nos cinemas. Ainda assim, fica a sensação de que algumas cenas e piadas mostradas nos trailers, que prometiam momentos ainda mais icônicos, acabaram ficando de fora da versão final. M3GAN 2.0 pode não alcançar o mesmo impacto de seu antecessor, mas entrega uma trama leve e eficiente de espionagem e redenção. O longa entende o momento certo de abandonar o terror e se reformular, garantindo longevidade para fazer de M3GAN menos uma nova Annabelle e mais uma legítima sucessora de Chucky.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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