Crítica | Mamonas Assassinas: O Filme

Nota
3

“Oito meses. Só oito meses foram o suficiente pra que a gente pudesse acontecer no Brasil inteiro.

Em apenas oito meses, os Mamonas Assassinas deixaram de ser uma banda cover do U2 para se tornarem um dos maiores fenômenos da música brasileira. Com humor escrachado, carisma transbordante e letras que desafiavam qualquer filtro de bom gosto, eles conquistaram um país inteiro — e o filme dirigido por Edson Spinello tenta fazer o mesmo ao recontar a trajetória dessa banda que teve um fim trágico e precoce. Mamonas Assassinas: O Filme, lançado em 2023, busca mais do que relembrar sucessos: tenta mostrar quem eram Dinho, Bento, Júlio, Samuel e Sérgio além das piadas e das caretas. E, embora tenha o coração no lugar certo, falta ao longa um pouco mais de ousadia para alcançar o mesmo impacto que a banda teve.

A narrativa acompanha desde os primeiros passos da banda — ainda como Utopia — até o estouro meteórico com o disco homônimo, passando por momentos familiares, brigas internas e, claro, a relação intensa com os fãs. O roteiro opta por uma estrutura tradicional de cinebiografia, o que torna tudo previsível, mas emocionalmente acessível. O grande trunfo está no elenco: Ruy Brissac, que já havia interpretado Dinho nos palcos, carrega o filme com um carisma quase à altura do original, mesmo que em alguns momentos beire a imitação. Os demais integrantes também convencem, ainda que tenham menos espaço dramático. A escolha por mostrar o lado humano por trás da palhaçada é acertada, mas acaba soando superficial quando não aprofunda os conflitos internos, nem os impactos psicológicos de um sucesso tão repentino.

Tecnicamente, o filme aposta em uma fotografia que flerta com o nostálgico, tentando reproduzir a estética dos anos 90, mas sem conseguir marcar uma identidade visual própria. A reconstituição de época é eficiente o bastante para não tirar o espectador da imersão, ainda que em alguns momentos o orçamento limitado fique evidente. A montagem peca por correr com os acontecimentos mais impactantes — principalmente na reta final, quando o desfecho trágico parece tratado com mais pressa do que o necessário. A decisão pode ser entendida como uma forma respeitosa de preservar a memória dos integrantes, mas também tira do público a chance de encarar o impacto dessa perda com o peso que ela merece. Já a trilha sonora, como era de se esperar, é um deleite para quem cresceu ouvindo os hits da banda. Canções como Pelados em Santos e Vira-Vira embalam as cenas com energia, mas também nos lembram do quanto os Mamonas eram únicos — algo que o filme tenta, mas nem sempre consegue traduzir.

Há emoção, há humor, há boas intenções. Mas falta ao filme o mesmo nível de irreverência que os Mamonas carregavam em cada aparição pública. O longa parece tentar equilibrar o respeito à memória da banda com a vontade de agradar o grande público, e nisso perde parte do espírito anárquico que os consagrou. Ainda assim, como homenagem, cumpre seu papel: emociona, diverte e nos faz querer cantar junto. O filme não aprofunda os bastidores e nem a vida do quinteto, talvez por falta de material 100% confiável sobre o que acontecia fora dos espaços públicos — e isso acaba dificultando que o espectador se conecte com os eventos em si, ainda que se encante facilmente pelos Mamonas.

Muitas cenas dispensáveis, que em nada acrescentam à narrativa, ocupam o lugar de momentos que poderiam nos apresentar os integrantes por trás dos personagens irreverentes. Ainda assim, o que o filme erra em caráter técnico, compensa no emocional: ele consegue cativar desde quem viveu a febre dos anos 90 até quem conhece os Mamonas apenas pelos ecos do sucesso e pelas músicas que seguem eternas. Mamonas Assassinas: O Filme não reinventa o gênero biográfico, mas nos faz lembrar por que, mesmo em apenas oito meses, os Mamonas se tornaram eternos.

“Mas a verdade é que a gente nunca foi embora.”

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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