Crítica | O Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman) [2025]

Nota
1.5

Preso após ser capturado pela polícia argentina em plena ditadura militar, o revolucionário comunista Valentín (Diego Luna), se encontra entre torturas terríveis para revelar os segredos e denunciar seus companheiros. Enclausurado, o que lhe resta é a companhia de Molina (Tonatiuh), uma deslumbrada fã de musicais. Sem saber se pode confiar em Molina, Valentín tenta ao máximo ficar na sua, mas é bombardeado pelas histórias dos musicais dos anos 40 estrelados pela sua atriz favorita, a deslumbrante latina Ingrid Luna (Jennifer Lopez), que estrela em dois papéis no seu filme Kiss of the Spider Woman, onde sua personagem, Aurora, hesita em encontrar o verdadeiro amor, mesmo se envolvendo e sendo disputada por diversos homens. Ao longo das histórias, os dois irão perceber que a história vivida por Ingrid Luna é muito parecida com o que eles estão vivendo no seu cotidiano enjaulados, o que pode acabar levando os dois, que são o extremo oposto, a se aproximarem. Baseado no livro El beso de la mujer araña, do escritor argentino Manuel Puig, e na obra prima de mesmo nome, dirigida pelo diretor argentino Héctor Babenco, o diretor estadunidense Bill Condon tem a missão árdua de adaptar um já clássico do cinema mundial.

Conhecido por seu trabalho em outros musicais, o diretor Bill Condon se consolidou após dirigir o aclamadíssimo musical Dreamgirls (2006), mas também por dirigir o live action de A Bela e a Fera (2017) estrelado por Emma Watson e que teve uma recepção mista. Agora o diretor se aventura em adaptar o clássico O Beijo da Mulher Aranha a partir do material da peça da Broadway de mesmo nome. Pretensioso, o diretor já demonstra sua audácia na escolha de elenco, decidindo deixar de fora os cenários brasileiros que se tornaram o padrão para a história, pós sua primeira adaptação aos cinemas em 1985, trazendo uma argentina vazia e sem localidade, além de com um elenco majoritariamente mexicano, o diretor apaga a identidade sul-americana do longa.

Falando de elenco, a grande estrela escalada para o filme foi a multi-artista Jennifer Lopez, que de fato se esforça bastante como Ingrid Luna. É nítido a vontade de Lopez de protagonizar o longa que ela também co-produz, mas a sua vasta experiência em comédias românticas não a preparou para um drama no nível de O Beijo da Mulher Aranha, visto que a atriz não acompanha o ritmo dramático do texto em suas cenas faladas, que já não são muitas. Já nas partes cantadas da atriz, ela de fato brilha com as coreografias e até atinge diversas notas altas, mostrando seu potencial como cantora, mas ainda assim após se manter no mesmo tom, as suas músicas ficam enfadonhas e repetitivas. Mas, mesmo com um combo de cabelo e maquiagem que não a favorecem, já que o loiro é justificado pelo “embranquecimento” que Hollywood fez em atrizes negras e latinas da época e que não era necessário, vide Sônia Braga que manteve os cabelos pretos em seu papel, os figurinos no entanto, são espetaculares e elevam demais a sua performance.

Mesmo com o destaque de Jennifer Lopez, os personagens principais da trama são Valentín e Molina. O mexicano Tonatiuh tinha o díficil papel de superar ou chegar perto da performance premiada de William Hurt, que rendeu ao ator americano um Oscar entre outros prêmios em 86. Com tanta expectativa em mente, a performance do jovem acaba sendo apenas satisfatória. Molina de Tonatiuh é de fato uma personagem mais atualizada, tratando melhor das suas questões de gênero e até trazendo um final mais digno para sua história, mas ainda que o texto seja bom o suficiente para se comparar com a primeira versão a performance deixa muito a desejar. Tonatiuh consegue ser ainda mais caricato que foi Hurt em 85, que já estava fazendo um personagem abertamente gay em plena pandemia da AIDS naquela época de uma forma sensível mas ainda com todas as problemáticas da época, e que mesmo para um ator abertamente queer nos dias de hoje, recair nas caricaturas de um personagem gay/trans não é de bom tom. À medida que o filme se torna mais dramático, parece que a sua performance vai encontrando o seu tom certo, mas aí já é um pouco tarde, pois parece haver uma normatização dessa personagem abertamente queer que se contradiz ainda mais com o seu final. A conclusão que fica é que, mesmo sendo um ótimo ator para as sequências musicais, Tonatiuh não era a melhor escolha para esse papel.

Outro grande problema acaba sendo Diego Luna, que já tem o papel mais fácil do filme em suas mãos. Valentín é para ser esse homem másculo, mas comum, que sua masculinidade gira em torno do seu ofício enquanto revolucionário. Luna não convence enquanto um homem bruto que Valentín deveria ser, não convence enquanto um estrategista que ele de fato é, e sobretudo, não convence nas suas cenas que servem para passar empatia e conexão com o público. O ator que ficou conhecido por sua participação em Rogue One (2016), consegue recair em estereótipos da atuação para homens latinos, sendo apático e nada carismático na intenção de manter o seu personagem mais misterioso, mas isso apenas não funciona. 

Mas o que de fato acaba sendo a maior falha do seu personagem não está em sua performance, que também é falha, mas sim no rumo de sua história. Todo o seu arco gira em torno dele resolver os seus problemas enquanto guerrilheiro e sua luta contra as torturas que ele vem recebendo, atrelado a isso, o dilema de se afeiçoar ou não a Molina, que se mostra uma pessoa confiável desde o início. Nessa nova versão, além do longa se explicar demais, inclusive antecipando coisas no roteiro que serão reveladas no seu tempo, estragando ainda mais a conexão com a história em si, o rumo original dos personagens, mesmo que não 100% nítidos, tem um propósito de manter o mistério do personagem vivido originalmente por Raúl Juliá, mas também para deixar a dúvida dos reais sentimentos de Valentín para com Molina, que é um “mistério” que pode ser desvendado facilmente a partir do rumo dos personagens, mas que nessa nova versão o diretor decide escolher um novo sentimento para Valentín, que não faz sentido com sua narrativa, nem original nem atual.

Mesmo após obter empatia por Molina, Valentín ainda nutre sentimentos por sua namorada que ficou fora da prisão, que nessa versão mal aparece, o que torna ainda mais claro quais as reais intenções do personagem com Molina nos últimos atos do filme, e colocá-lo enquanto apaixonado por Molina, o diretor acaba em uma contradição por desenvolver de uma forma muito pobre o “romance” dos dois, que nem sequer deveria existir da parte de Valentín pelo menos. Sem alma e sem identidade, O Beijo da Mulher Aranha recria o clássico de 1985 da pior forma possível. A nova versão de Bill Condon falha em manter a densidade política e emocional que consagrou a obra, originalmente de Manuel Puig, na sua primeira adaptação ao cinema. Apesar do esforço de Condon em adaptar a versão da Broadway para as telonas, esforço que já foi visto em A Bela e a Fera de 2017 por exemplo, seu novo filme se assemelha muito com esse último trabalho do diretor, um filme belo, com uma ótima técnica, mas que para por aí, apenas uma bela carcaça que peca no conteúdo. Condon peca principalmente em suas escolhas equivocadas e ambiciosas: desde a descaracterização cultural, tirando a identidade brasileira que é tão importante no primeiro filme, até na escolha do elenco que não sustenta o peso dramático da narrativa.

Mas a culpa do desastre não recai apenas em Condon, já que  Jennifer Lopez entrega energia nas sequências musicais, mas não alcança a profundidade exigida pelo papel pela sua falta de experiência dramática visível, Tonatiuh recai em estereótipos que fragilizam a performance de sua personagem piorando o seu desenvolvimento, e Diego Luna não convence como o revolucionário misterioso, e que mesmo sendo sabotado pela mudança de roteiro na trama do seu personagem, sua atuação que poderia salvar o fiasco melodramático de Valentín e Molina, mas mesmo assim ele não consegue chegar lá. O Beijo da Mulher Aranha é um filme de esforços e mais esforços que não levam a nenhum resultado, resultando num filme que tenta modernizar um clássico, mas que só mostra o despreparo de toda a equipe e uma audácia de todos por acharem que receberiam alguma indicação nos circuitos de premiação de 2026.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.

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