Crítica | O Melhor Amigo

Nota
3

“Moreno alto, bonito e sensual. Talvez eu seja a solução do seu problema”

Lucas era um típico universitário hétero enquanto cursava arquitetura, até que uma noite de bebedeira mudou tudo: ele acabou nos braços do colega Felipe e, com isso, começou a questionar sua sexualidade. No entanto, antes que pudesse entender o que sentia, Felipe simplesmente desapareceu da faculdade, deixando Lucas sem respostas e com um primeiro amor interrompido. Anos depois, já vivendo uma relação instável com Martin, Lucas decide tirar um tempo para si. Seu destino? As paisagens ensolaradas de Canoa Quebrada. O que ele não esperava era reencontrar Felipe, agora trabalhando como bugueiro local. A coincidência reacende em Lucas a esperança de ter uma segunda chance para viver aquele romance nunca concretizado, mas, ao que tudo indica, Felipe segue sendo uma figura distante, com pouca disposição para corresponder às investidas insistentes do ex-colega.

Em 2013, Allan Deberton dirigiu, roteirizou e produziu um curta-metragem de 17 minutos chamado O Melhor Amigo, onde acompanhamos Lucas (Jesuíta Barbosa) e Felipe (Victor Sousa) vivendo o primeiro dia de férias — com o detalhe de que Lucas está secretamente apaixonado por seu melhor amigo hétero. Anos depois, Deberton expandiu essa história e a transformou em um longa de 96 minutos, com roteiro assinado também por André Araújo, Otávio Chamorro e Raul Damasceno. O resultado é uma trama mais robusta, emocionalmente funcional e cheia de humor e sensibilidade. O que começa como uma charmosa história de amadurecimento, com Lucas em busca de autoconhecimento e, inesperadamente, de um reencontro com seu primeiro amor, acaba nos envolvendo… até tomar rumos que podem soar frustrantes para alguns. Apelidado por parte do público de o Mamma Mia! gay do Nordeste, o filme mergulha numa estética que homenageia as décadas de 80 e 90, tanto na fotografia, que aposta no brega tropical, quanto na trilha sonora, repleta de sucessos da MPB e do pop rock nacional que embalam cada cena com uma boa dose de nostalgia.

Vinicius Teixeira assume o desafio de dar vida a Lucas, papel que antes foi de Jesuíta Barbosa no curta original. O resultado, porém, é um Lucas mais travado, introspectivo e, por vezes, perdido em sua própria jornada emocional. O personagem carece de consistência, talvez pela dificuldade de conexão entre ator e roteiro, ou pela falta de aprofundamento na construção de sua personalidade no longa. A melancolia silenciosa que Jesuíta imprimiu ao personagem deixa saudades. Já Felipe, interpretado agora por Gabriel Fuentes, surge como o verdadeiro eixo de equilíbrio da narrativa. Se no curta Victor Sousa entregava um Felipe desejado, porém inocente, Fuentes leva isso além, construindo um personagem sedutor, ciente do impacto que causa e disposto a explorar isso ao máximo. Um verdadeiro “Amante Profissional”, com uma vida que beira o superficial e sem grandes perspectivas de futuro. A química entre os dois protagonistas é inegável, alimentando o espectador com dúvidas constantes: Felipe gosta de Lucas ou está apenas brincando com seus sentimentos? Ele é hétero, gay, bi? O mistério em torno de Felipe é justamente o motor emocional que impulsiona a jornada de Lucas.

Como todo bom musical, a trilha sonora é um dos pilares mais marcantes de O Melhor Amigo. Desde o trailer, somos impactados pela intensa interpretação de Gabriel Fuentes para Amante Profissional, da banda Herva Doce, que já anuncia a energia sonora que o filme promete. Felizmente, o longa vai além, entregando versões memoráveis de clássicos como Mais Uma de Amor (Geme Geme), da Blitz, e Perigo, de Zizi Possi, que ganham nova força e significado ao se encaixarem emocionalmente nas cenas. As sequências musicais são, sem dúvida, o grande ápice do filme, mas fica a sensação de que Allan Deberton teve receio de explorar mais esse lado performático. Há uma carência visível de números musicais que poderiam ter elevado a estética brega-tropical que, quando aparece, é extremamente bem-vinda. Outro mérito inegável é a liberdade com que o roteiro abraça o humor regional e as gírias cearenses, o que confere identidade, carisma e autenticidade à produção. Tecnicamente, o filme é competente, com fotografia e direção de arte que combinam com o tom leve e nostálgico, mas o problema estrutural do roteiro, especialmente no terço final, prejudica o resultado como um todo.

O Melhor Amigo claramente não é um daqueles blockbusters mainstream, mas traz a essência da brasilidade com muito tempero gay e nordestino, abraçando sem medo o regionalismo e o humor carregado de sotaque. O elenco de apoio também ajuda a reforçar esse charme: Leo Bahia entrega ótimos momentos de alívio cômico, Matheus Carrieri surge como uma presença sexual inesperadamente relevante, e Gretchen faz uma participação especial digna de diva, roubando a cena e reforçando o tom pop que a produção tenta sustentar. Ainda que o roteiro escorregue na reta final e a construção de alguns personagens fique aquém do esperado, o filme tem coração, cor e personalidade. Uma comédia romântica musical LGBTQIA+ que, mesmo com suas falhas, merece ser vista por quem busca um cinema mais diverso, leve e com a cara do Brasil.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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