Crítica | Pânico (Scream) [2022]

Nota
4

“Você mora em Woodsboro e não conhece Facada?”

É 2021, e já se passaram vinte e cinco anos desde o primeiro massacre em Woodsboro, cometido por Billy Loomis e Stu Macher, e dez desde o segundo, orquestrado por Charlie Walker e Jill Roberts. Mesmo assim, o legado de Ghostface continua vivo. Tara Carpenter, sozinha em casa, recebe um telefonema que rapidamente se revela ser de um novo assassino vestindo a icônica máscara. O que começa como uma conversa aparentemente inocente se transforma em um ataque brutal, deixando Tara gravemente ferida. Após sobreviver, sua meia-irmã, Samantha Carpenter, retorna a Woodsboro para, junto da irmã e dos amigos Amber Freeman, Mindy Meeks-Martin e Chad Meeks-Martin, tentar descobrir quem está por trás do novo massacre — e, principalmente, sobreviver a ele.

Desde a produção do quarto filme, já havia o desejo de Wes Craven e Harvey Weinstein de desenvolver o quinto e o sexto capítulos da franquia Pânico, mas o desempenho financeiro abaixo das expectativas acabou freando os planos. Com o tempo, o projeto se arrastou até ser definitivamente enterrado após a morte de Craven e o colapso da Weinstein Company, em meio às inúmeras acusações de má conduta sexual contra Harvey Weinstein. Anos depois, a Spyglass Media Group adquiriu os direitos e decidiu reviver a saga, contando com a produção executiva de Kevin Williamson — roteirista do original e guardião criativo da franquia. Com roteiro de James Vanderbilt e Guy Busick e direção da dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, o longa foi concebido como uma homenagem ao legado de Craven, e é justamente essa intenção que dá ao enredo uma força emocional especial, capaz de cativar até os fãs mais nostálgicos. Ainda que Samantha Carpenter, claramente moldada para assumir o posto de Sidney Prescott, divida opiniões, o filme entende que a franquia só pode continuar se souber se despedir de Neve Campbell com respeito. No entanto, a produção parece ter escolhido a Carpenter errada para carregar esse peso.

A cena de abertura, protagonizada por Jenna Ortega, é uma homenagem impecável ao Pânico de 1996. Ao recriar o icônico ataque a Casey Becker, o filme faz uma metalinguagem inteligente, brincando com o fato de que o original já não cativa os jovens da mesma forma, ao mesmo tempo em que reafirma sua intenção de reverenciar e revitalizar a franquia. Infelizmente, Ortega acaba sendo deixada de lado no decorrer da trama: tem boas cenas, mas pouco tempo de tela. Quem assume o protagonismo é Melissa Barrera, encarregada de dar vida a uma personagem complexa, embora o roteiro não lhe ofereça a profundidade necessária para justificar sua presença no universo da saga. Samantha é filha do primeiro Ghostface, mas essa revelação pouco acrescenta à narrativa. Outros personagens têm motivações muito mais convincentes para estar na mira do assassino, especialmente quando a identidade do novo Ghostface é revelada — um desfecho divertido e eficiente dentro da proposta temática. Já Neve Campbell e Courteney Cox cumprem um papel puramente simbólico: aparecem para atender ao fanservice esperado, mas sem uma razão realmente sólida para participar do terceiro massacre em Woodsboro.

Ao longo do longa, Pânico brinca consigo mesmo de maneira engenhosa, usando a franquia fictícia Facada como espelho para discutir a própria decadência da saga original — desde a perda do espírito que a consagrou até as críticas dos fãs sobre os rumos que ela tomou. É nesse ponto que se entende o motivo de o filme não se chamar Pânico 5: ele não quer apenas continuar a história, mas se apresentar como uma renovação para a franquia, resgatando a fórmula inicial e atualizando-a sem trair sua essência. O respeito ao primeiro filme é explícito, e o roteiro faz questão de reforçar essa conexão com o passado, ainda que o enredo não dependa completamente dele. Essa ligação se revela também nos personagens, que carregam o legado das figuras originais: além da presença de Dewey Riley, Gale Weathers, Sidney Prescott e do retorno de Judy Hicks (vista em Pânico 4 e ex-colega de escola do grupo original), o filme introduz Vince Schneider, sobrinho de Stu Macher; Samantha, filha bastarda de Billy Loomis; e os gêmeos Mindy e Chad Meeks-Martin, sobrinhos de Randy, reforçando o elo simbólico entre passado e presente.

Pânico (2022) demonstra competência ao apresentar uma fotografia sólida e uma montagem eficiente, mesmo que algumas escolhas de roteiro enfraqueçam o potencial que o filme realmente tem. O discurso final do vilão é, sem dúvida, um dos pontos altos da produção, quando suas motivações vêm à tona, elas ecoam como uma confissão dos próprios roteiristas, explicando as decisões criativas tomadas e revelando a metalinguagem que permeia toda a obra. Essa sequência resume com precisão a proposta do longa: revisitar um clássico não apenas por nostalgia, mas como uma reflexão sobre o próprio ato de recomeçar. No fim, Pânico mostra que uma requel — parte sequência, parte reboot — pode sim ser uma forma legítima de arte, capaz de honrar o legado de Wes Craven enquanto abre novas portas para o futuro da franquia.

“A gente pode falar do título? Facada? Tipo, igual ao original? Chama de Facada 8! É Facada 8!”

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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