Nota
Existem certos filmes de heróis que mais do que impressionar com poderes ou batalhas, nos surpreendem ao lembrar do que nos fez amar esses personagens em primeiro lugar: família, sacrifício, esperança. Quarteto Fantástico: Primeiros Passos alcança exatamente essa vibração nostálgica enquanto reintroduz uma das equipes mais icônicas da Marvel.

O diretor Matt Shakman assume a tarefa com ambição: dar ao Quarteto Fantástico uma origem digna no MCU, misturando ficção científica, drama familiar e um tom retrofuturista que se inspira nos quadrinhos clássicos. A estética do filme remete aos anos 60, com visual, paleta de cores, equipamentos e cenários, mas sem parecer um mero revival. Em muitos momentos parece que o estilo nostálgico é usado não só como adorno, mas como parte da identidade visual que define os heróis.
Pedro Pascal como Reed Richards transmite bastante da genialidade científica combinada com fragilidade emocional. Quando sua vida pessoal se mistura com as responsabilidades que vêm junto dos poderes, há tensão autêntica. Vanessa Kirby como Sue Storm oferece uma presença forte, equilibrando coragem e preocupação, especialmente com a nova dimensão que o filme traz à sua personagem. Joseph Quinn e Ebon Moss-Bachrach trazem Johnny Storm e Ben Grimm com energia: Johnny tem o humor esperto, o desejo de se provar; O Coisa (Ben) tem o peso físico e emocional de quem carrega não só o corpo transformado, mas uma alma que quer proteger quem ama.
O ponto de virada do filme surge quando a ameaça cósmica encosta: Galactus aparece, junto com sua mensageira, a Surfista Prateada. Esse momento eleva a narrativa de “história de origem + dinâmica de equipe” para algo com stakes verdadeiros, que forçam escolhas, riscos e sacrifícios. As cenas espaciais, embora familiares em muitos efeitos, ganham força quando combinadas ao drama humano, a promessa de destruição cósmica contrasta com os medos pessoais e a responsabilidade moral.

Visualmente, Primeiros Passos acerta na textura. Desde os trajes até os cenários do laboratório, passando pelos momentos em que o Quarteto precisa aprender seus limites, o filme exibe capricho. Há cenas que brilham não só pelas explosões ou efeitos, mas pelo uso de luz, sombra, reflexos metálicos, design de produção que não deixa as superfícies parecerem planas. A trilha sonora também se destaca, marcando ritmo nos momentos emocionais e adicionando impacto no espaço sideral.
O maior problema do filme talvez seja o misto de segurança narrativa com pouquíssimo risco real. Algumas decisões são previsíveis, especialmente olhando para quem já conhece a história dos quadrinhos. Em certos momentos, parece que poderíamos ter explorado mais o Coisa ou Johnny, que acabam ofuscados pela urgência emocional de Reed e Sue ou pela grandiosidade simbólica de Galactus. A química entre os quatro é boa, mas há cenas em que dá para sentir que faltou profundidade para todos, talvez mais espaço para o cotidiano pré-superpoder, mais conflitos internos que não dependam só do vilão externo.
Outro ponto é o ritmo: o filme começa forte, com curiosidade, construção de mundo e introdução de personagens bem feita. Conforme a trama avança, depois da exposição inicial, parte do segundo ato parece alongar um pouco demais, há momentos em que a tensão cai porque o conflito interno não progride tanto quanto o externo. Mesmo assim, quando as apostas finais surgem, o longa retoma força e entrega cenas impactantes.

No fim das contas, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos representa um passo sólido para o MCU, sobretudo porque resgata algo que parecia faltando: o calor humano. O sacrifício, a entrega, o valor de pertencer a algo maior do que si mesmo. Não é perfeito e não vai reinventar o gênero de heróis, mas cumpre bem o que promete: trazer de volta a Família Fantástica com estilo, emoção e esperança.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.