Crítica | The Rocky Horror Picture Show: Let’s Do the Time Warp Again [2016]

Nota
4

“Don’t Dream it, Be it!”

Os recém casados e muito ingênuos Brad Majors (Ryan McCartan) e Janet Weiss (Victoria Justice) estão a caminho da sua lua de mel. Muito apaixonados, eles precisam se deslocar ainda mais para o interior do país em uma noite de tempestade para encontrarem com o seu professor do Ensino Médio. No meio do caminho, o pneu do carro fura, deixando os dois presos em meio a chuva, fazendo com que Brad corajosamente se ofereça a resolver a situação, enquanto Janet espera no carro, mas morrendo de medo, ela resolve acompanhar o seu amado até uma mansão enorme que eles haviam encontrado minutos antes, mas chegando lá, os pombinhos terão uma grande surpresa. Mesmo pedindo para usar apenas o telefone para ajudá-los a voltar para a estrada, os excêntricos habitantes do local em festa com o novo sucesso científico de seu anfitrião, a cientista louca Dr. Frank N. Furter (Laverne Cox) que decidiu criar o seu homem perfeito artificialmente, o Rocky (Staz Nair) para se tornar seu objeto pessoal de desejo e aliviar suas tensões do dia a dia. Com isso, o casal acaba se metendo em uma roubada tendo que ficar até o final das comemorações dos seus novos anfitriões, e assim começa uma noite longa e inesquecível para a vida dos recém casados. Dirigido por Kenny Ortega, já conhecido por seus trabalhos na televisão e para filmes de TV como no Disney Channel, The Rocky Horror Picture Show: Let’s Do the Time Warp Again foi um especial da Fox para comemorar os 40 anos de The Rocky Horror Picture Show (1975).

O clássico musical cult de 75, foi sem dúvidas um dos mais controversos do seu tempo que eventualmente veio a ser entendido anos depois e por isso inclusive é tão reverenciado, servindo de inspiração e referência até os dias de hoje. Escancarando tabus da época, o filme trouxe diversas discussões à tona na década de 70, em torno de sexualidade e gênero, e é reconhecidíssimo até hoje por esse feito. Em entrevista para a Entertainment Weekly, o elenco original comenta após 50 anos de história do filme como o legado do filme permanece vivo por ter sido tão importante para a comunidade LGBTQIA+, ajudando inclusive muitos fãs de diversas gerações a criar coragem para se assumirem. Então, criar uma adaptação de um filme tão significativo já é uma tarefa dificílima, e a produção de 2016 levou alguns problemas ao longo do caminho.

Tim Curry viveu brilhantemente o papel de Dr. Frank N. Further em 75, e claro que a grande expectativa seria quem iria viver esse papel novamente na nova adaptação de TV. A princípio, foi escalado Adam Lambert, conhecido por sua colaboração com a banda Queen, além de ter uma sólida carreira solo no pop, mas essa escalação foi muito mal recebida por uma parcela do público, já que por muitos anos se discutiu a real identidade de gênero de Dr. Frank, visto que ele mesmo se descreve como uma “Sweet Transvestite”. Ao contrário daqui do Brasil, que existe o termo “Travesti” para se referir a uma identidade trans-feminina, nos Estados Unidos, termos como “Transvestite” e “Travesti” são usados num contexto de crossdressing, o ato de vestir roupas femininas para fins sexuais ou por performance mesmo como é para Drag Queens, portanto a identidade verdadeira do personagem é muito ambígua e aberta a interpretações dos espectadores, que na verdade é a proposta do filme em si, já que colocar um homem como Tim Curry, nos anos 70, com maquiagem forte e roupas “femininas” já era um ato de subversão de gênero incrível para a época. Mas na adaptação de 2016, com tamanha discussão sobre o assunto e o próprio astro Adam Lambert recusando o papel após ter aceitado, que inclusive ainda entrou para o elenco fazendo uma participação especial, foi escalada a atriz Laverne Cox que estava em uma enorme ascensão na época por conta da série Orange is the new Black (2013), uma boa escolha, fazendo muito sentido para a época, além de dar mais visibilidade para uma atriz trans tão importante.

Com o incrível orçamento de 20 milhões, The Rocky Horror Picture Show: Let’s Do the Time Warp Again trouxe um ar mais teatral para os cenários do filme, visto que na primeira versão se tratavam de locações enormes, como a mansão e o teatro no final do longa, enquanto dessa vez somos apresentados a cenários mais caricatos que trazem uma atmosfera de produções de musicais da broadway, até mesmo para combinar com o conceito da nova adaptação que se passa num cinema, onde os fãs estão interagindo com o novo filme, remetendo inclusive com o teor interativo do primeiro filme, mas também para trazer um ar de fanservice para a nova trama. Os figurinos também se destacam bastante, apesar da figurinista original Sue Blane ter feito escolhas que entraram para a história, a nova produção se distancia um pouco da qual foi originada, tendo sua identidade própria a partir dos figurinos, que são mais requintados e se adaptam melhor às câmeras de televisão.

Já nas performances, não temos grandes destaques como na primeira versão com o elenco secundário, onde as atrizes Patricia Quinn e Nell Campbell conquistaram os fãs com seus papéis menores das carismáticas Magenta e Columbia. Enquanto isso, na nova versão, quem chama atenção mesmo são o casal Ryan McCartan e Victoria Justice, por motivos diferentes. Ryan tem uma performance impecável como Brad, deixando-o inclusive um pouco mais afeminado do que o original, o que deixa o personagem até mais convincente nas suas novas descobertas sexuais, especialmente na sua música de abertura, “Dammit, Janet”, onde sua performance é hilária. Já Victoria Justice, que é talentosíssima, entrega uma voz muito parecida da Susan Sarandon, que tem um tom inocente na voz, mas que não foi na verdade um grande desafio para Victoria, já que vocalmente ela é muito mais preparada do que a Susan na época das suas filmagens, mas ainda assim a nova atriz não chega num nível cômico da Susan o suficiente, fazendo essa nova Janet ser bem esquecível e blasé. Já Laverne Cox tem um papel muito interessante e difícil que é homenagear o incrível Tim Curry. Enquanto a produção em geral se preocupa em manter tudo à risca com o filme original, a Dr. Frank N. Further de Cox é o único elemento que procura ter uma identidade única nessa adaptação. A atriz coloca muito de seus maneirismos na personagem, mas sem deixar de remeter ao personagem original, como deveria ser. Então é divertido ver essa nova interpretação de Laverne Cox, que se distancia na medida certa da interpretação de Curry, tendo um olhar camp genuíno da essência da própria atriz, mas que claro pode desagradar os fãs mais saudosistas que irão preferir claro o personagem original.

A nova adaptação de The Rocky Horror Picture Show trouxe uma boa adaptação do clássico, com versões ainda melhores das músicas originais e com uma roupagem linda para a TV. A versão que foi um especial para a televisão em 2016, foi uma boa homenagem para os 40 anos do filme que completa 50 anos agora em 2025, já que ele não se propõe a ser um remake, ou seja, uma adaptação “melhorada” do filme anterior, muito pelo contrário. O novo filme referencia todos os detalhes que fizeram o clássico um filme cult, colocando inclusive o ator Tim Curry como narrador do filme.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.

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