Nota
“RAIZES PROFUNDAS!”
Zeca Brito (Will Harris) é uma pequena cabra com grandes sonhos. Desde criança, ele deseja jogar Berrobol, um esporte de alta intensidade, misto e marcado por muito contato físico, tradicionalmente dominado pelos animais mais rápidos e ferozes. Seu maior objetivo é se tornar uma estrela, assim como Jaque Fonseca (Jett Fillmore), mas em um jogo onde o porte físico costuma definir quem brilha, como uma cabra de pequeno porte pode se destacar? Após anos de treino, Zeca acaba participando de um desafio contra Manga Larga (Mane Attraction), maior concorrente de Jaque, que o subestima e lhe dá espaço para algumas jogadas improváveis. Os lances viralizam na internet e rendem a Zeca uma oportunidade única: integrar os Espinhosos, time liderado por sua maior ídolo. O problema é que Jaque e o restante da equipe não recebem bem a novidade, tornando Zeca ainda mais determinado a revolucionar o jogo e provar que tamanho não define talento.

Foi em 2024 que a Sony Pictures Animation anunciou seu filme de animação esportiva intitulado Goat. Dirigido por Tyree Dillihay e Adam Rosette, com produção de Stephen Curry e Erick Peyton, o longa adota um estilo visual que remete diretamente a K-Pop Demon Hunters e Spider-Man: Into the Spider-Verse. O resultado é uma produção de atmosfera vibrante, repleta de cenas dinâmicas e bem-humoradas, que mistura o universo do basquete — adaptado em uma variação própria para o filme — com o reino animal. O maior problema do enredo está na construção da mitologia por trás do esporte. O torneio funciona quase como um modo história de videogame, em que o protagonista enfrenta adversários em sequência, sem chaves claras de embates, lembrando tanto um Mortal Kombat quanto uma versão esportiva da Batalha das Doze Casas, com os Espinhosos viajando de estádio em estádio para enfrentar times locais rumo ao troféu da temporada. Ainda assim, o filme se sustenta ao entregar uma trama sólida de amadurecimento. Curiosamente, não é Zeca quem vive a jornada mais profunda de evolução, mas Jaque, que atravessa uma fase de derrotas, sofre pressão constante da dona do time e passa a ser questionada pela imprensa sobre uma possível aposentadoria. O etarismo surge com força nessa dinâmica, especialmente representado pela figura de Manga Larga, visto como o possível sucessor no topo do esporte, embora o próprio roteiro levante dúvidas posteriores sobre se Jaque realmente atingiu esse auge e por que Manga Larga ainda não é considerado unanimemente superior.
A fluidez das partidas de Berrobol impressiona, com enquadramentos dinâmicos, cortes rápidos e uma direção que sabe quando acelerar e quando desacelerar para valorizar o impacto emocional das cenas. O ritmo do filme é ágil, raramente cansativo, equilibrando bem momentos de tensão esportiva com pausas cômicas que funcionam tanto para o público infantil quanto para o adulto. O humor surge de forma orgânica, muito apoiado no carisma dos personagens e na leitura afiada da dublagem brasileira. Rafael Sadovski se destaca ao dar voz a Zeca, trazendo um sotaque nordestino que não apenas diferencia o protagonista, mas adiciona camadas de identidade, afeto e pertencimento ao personagem. O mesmo vale para a mãe de Zeca, que compartilha desse traço, reforçando a ideia de raízes e família. Já os comentaristas Tico e Joca, dublados por Fred Bruno e JuKanAlha, funcionam como um respiro cômico constante, ajudando a criar a sensação de espetáculo esportivo e aproximando o universo do filme do público brasileiro de forma muito inteligente. A química entre Zeca e Jaque é o verdadeiro coração da narrativa. O filme constrói essa relação com cuidado, evitando atalhos fáceis e apostando no contraste entre a admiração quase ingênua do protagonista e a postura defensiva de uma atleta experiente, cansada de ser constantemente colocada à prova. Priscila Amorim imprime força, elegância e vulnerabilidade a Jaque Fonseca, personagem que carrega não apenas o peso de liderar um time, mas também o fardo de ser uma mulher questionada por envelhecer em um esporte competitivo.

A troca entre os dois personagens simboliza a mensagem central do longa: crescimento não está apenas em vencer, mas em aprender a enxergar valor fora dos padrões estabelecidos. Zeca representa o novo, o improvável, enquanto Jaque encarna a resistência, a experiência e a luta contra o descarte precoce. Ao unir essas trajetórias, o filme fala sobre pertencimento, legado e a importância de abrir espaço para diferentes corpos, vozes e histórias dentro de um mesmo jogo. No fim, Um Cabra Bom de Bola se firma como uma animação esportiva carismática, emocionalmente honesta e visualmente empolgante. Mesmo com falhas na construção de seu universo competitivo, o longa compensa ao entregar personagens cativantes, uma dublagem brasileira inspirada e uma mensagem poderosa sobre etarismo, inclusão e autoconfiança. É uma história sobre sonhar alto, mas também sobre reconhecer o valor das próprias raízes, algo que ecoa tanto na jornada de Zeca quanto na de Jaque. Um filme que diverte, emociona e deixa sua marca, provando que, às vezes, não é o tamanho que define quem domina o jogo.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.