Nota
“I know that you’re a little bit older
But baby, rest your head on my shoulder”
Solène é uma mãe solteira de 40 anos que vive tentando equilibrar maturidade, independência e as exigências da vida adulta. Quando seu ex-marido, Daniel, é chamado às pressas para um compromisso de trabalho, ela assume a missão de levar a filha be os amigos ao Coachella. No festival, um simples pedido de informação a leva a entrar, por engano, no trailer de Hayes Campbell, vocalista de 24 anos da August Moon, a boy band mais popular do planeta. O encontro casual rapidamente se transforma em uma conexão inesperada, dando início a um romance improvável que coloca em pauta não apenas a diferença de idade, mas também fama e anonimato, autodescoberta, medo do julgamento alheio e a coragem necessária para reivindicar sua própria narrativa.

Em meados de 2017 era lançado Uma Ideia de Você, livro de Robinne Lee que, segundo a própria autora, imaginava um relacionamento entre um cantor britânico de boyband inspirado em Harry Styles e uma mulher mais velha. A obra chegou a ser classificada por muitos como fanfic, algo que Lee sempre rejeitou, mas a discussão só ampliou sua popularidade. Eventualmente, o livro foi escolhido para ser adaptado pela Welle Entertainment, com produção de Gabrielle Union, amiga íntima da autora desde o início dos anos 2000, e de Cathy Schulman. A direção ficou nas mãos de Michael Showalter, que também assina o roteiro ao lado de Jennifer Westfeldt, em uma produção que, embora não esteja livre de problemas, envolve o espectador com eficácia e se apoia fortemente na performance brilhante de Anne Hathaway, que entrega muito mais do que se poderia antecipar. Mesmo com algumas situações que parecem inverossímeis e com o desenvolvimento do galã ficando levemente ofuscado, o filme acerta ao direcionar o foco para sua protagonista madura, uma mulher que tenta conciliar desejo, felicidade pessoal e os preconceitos internalizados sobre etarismo e diferença de idade. Enquanto isso, Nicholas Galitzine assume o papel do pop star que, ao conhecer Solène, talvez não seja mais o típico mulherengo que todos imaginam.
Hayes, inicialmente, é um dos elementos mais problemáticos da narrativa. A forma abrupta como tudo acontece entre ele e Solène, um encontro acidental que rapidamente se transforma em paixão, parece carecer de base e lógica interna, soando quase como uma conveniência do roteiro. Mas o filme se mostra inteligente ao, em determinado ponto, oferecer as explicações necessárias para que o espectador compreenda que não se trata apenas de um romance instantâneo sem fundamento, ainda que a sensação de irrealidade persista em partes. Nicholas Galitzine conduz bem seu papel, entregando um galã sensível e intenso que se afasta completamente das figuras mais tradicionais que interpretou recentemente, como Henry ou Robert. Ainda assim, Solène é quem verdadeiramente sustenta o filme. Em vez de viver a suposta crise da meia idade, ela se vê envolvida em dilemas ainda maiores: precisa encarar não apenas o tabu de se relacionar com um homem muito mais novo, mas também os impactos que isso causa em sua vida pessoal, em suas relações e na forma como é vista pelo mundo. A mídia e as redes sociais se tornam antagonistas adicionais, ao sensacionalizar seu romance e atacar justamente o fato de ser uma mulher mais velha ao lado de um jovem astro pop. Nesse terreno delicado, Anne Hathaway brilha. Ela combina a doçura romântica que lembra Mia Thermopolis com a maturidade de uma mulher de quarenta anos, criando uma protagonista complexa, vulnerável e forte, que tenta redescobrir o amor enquanto lida com as cicatrizes de experiências passadas e os julgamentos de seu presente.

Além do bom desempenho dos protagonistas e da fotografia cativante, o longa conta ainda com o trabalho dedicado de Savan Kotecha, responsável por toda a produção musical e pela criação das músicas originais da August Moon, banda fictícia de Hayes. As canções, bem construídas e emocionalmente envolventes, ajudam a dar autenticidade ao universo pop apresentado e combinam de forma impecável com a voz de Nicholas Galitzine, justificando o lançamento simultâneo do álbum digital, seguido pelas versões físicas e pela edição deluxe. A direção de Michael Showalter também se destaca ao equilibrar sensibilidade e ritmo, evitando que o romance caia no melodrama exagerado e priorizando cenas intimistas que reforçam a química entre Solène e Hayes. Essa conexão é o coração do filme, construída com olhares, hesitações e gestos que tornam o relacionamento crível mesmo quando a trama se aproxima do inverossímil. Em relação ao livro, a adaptação traz mudanças pontuais, desde o primeiro encontro dos protagonistas até a idade de Izzy, mas a alteração mais significativa está no desfecho. O filme escuta as críticas direcionadas ao final da obra original e oferece um novo olhar para a trajetória de Solène e Hayes, privilegiando o amadurecimento emocional dos dois e enfatizando a principal mensagem da história: a necessidade de escolher o amor próprio e a coragem de viver sem deixar que os julgamentos externos definam quem você deve ser.
Uma Ideia de Você pode até tropeçar em alguns momentos, mas nunca perde a força emocional que o sustenta, muito graças a Anne Hathaway, que parece ter o dom de colocar uma lágrima no canto do olho do público em praticamente qualquer filme que faça. Ela eleva a história a um patamar mais sensível e maduro, lembrando que vulnerabilidade e força podem existir no mesmo lugar. A temática do filme também segue extremamente atual; mesmo em pleno século XXI, ainda existe um preconceito evidente quando a mulher é mais velha que o homem, ainda que seja linda, segura de si e, muitas vezes, com aparência mais jovem do que o parceiro. O longa expõe esse julgamento silencioso, que persiste em redes sociais e na vida real, e o faz com honestidade. Ao mesmo tempo, causa certa estranheza ver Hayes aos 24 anos agindo com uma lábia e uma experiência emocional que parecem incompatíveis com sua idade, algo que o roteiro tenta compensar, mas que ainda pode soar idealizado demais. Ainda assim, o romance funciona, a emoção convence e a mensagem permanece firme: viver para agradar o mundo nunca será tão libertador quanto viver uma verdade que é só sua.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.