Crítica | Valor Sentimental (Sentimental Value)

Nota
4

Gustav Borg (Stellan Skarsgård) é um diretor de cinema conceituado e muito famoso por seus filmes sentimentais e intimistas. Um de seus filmes com mais sucesso tinha como grande estrela uma de suas filhas, Agnes Borg (Inga Ibsdotter), que ainda criança roubou a cena e garantiu muitos elogios da crítica especializada por sua naturalidade no papel. Após crescer, Agnes não quis seguir com a carreira como atriz, e preferiu manter uma vida mais pacata e comum, longe dos holofotes, e longe do pai também. Assim também fez a sua irmã, Nora Borg (Renate Reinsve), que se distanciou de seu pai, mas seguiu uma carreira como atriz de teatro, mesmo que o seu medo dos palcos lhe tirasse do sério vez ou outra. Querendo se reunir novamente com suas filhas, Gustav decide procurar Nora, mas com um interesse de convidá-la para protagonizar seu novo filme, após tanta pressão dos fãs e da crítica de continuar o seu trabalho. E após recusar o convite, Gustav decide achar outra pessoa, e encontra na jovem atriz de Hollywood Rachel Kemp (Elle Fanning) a sua nova protagonista. O novo longa do diretor dinamarquês Joachim Trier é um drama emocionante que traz um olhar interessantíssimo sobre relações familiares. 

Após a popularidade que recebeu com suas duas indicações ao Oscar em 2022 pelo seu filme The Worst Person in The World (2021), o diretor Joachim Trier tenta repetir o feito com Valor Sentimental, que já conseguiu seis indicações esse ano para o Globo de Ouro e promete ser um dos destaques de 2026 na temporada de premiações. Embora o filme talvez não consiga uma popularidade necessária para levar Melhor Filme Internacional, as atrizes Renate Reinsve e Elle Faning com certeza estarão na disputa acirradíssima para Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, com a Renate talvez tendo melhores chances que Elle Faning de conseguir uma estatueta. Quem pode se dar bem com relação a uma concorrência não tão acirrada neste ano é Stellan Skarsgård, que pode ter um bom destaque, se tornando até um favorito para a campanha de Melhor Ator Coadjuvante, mas ainda é muito cedo para especular, e com certeza o Globo de Ouro será um bom termômetro para a popularidade do filme. 

Com uma narrativa muito emocionante, o longa tem uma boa sacada de tratar sobre relações familiares e conflitos entre um pai ausente e uma filha já adulta por um olhar também do trabalho. A família Borg era inteiramente imersa dentro do cinema por conta do pai, o que torna a Agnes se distanciando das telas um grande choque para ele, porque ela agora finalmente está vivendo uma vida própria que ele não pode ter controle, e ao mesmo tempo Nora se acha independente mas ainda vive como atriz no teatro, e talvez por isso que a sua profissão a incomode tanto, porque ela sempre irá se remeter ao seu pai que ela se acha tão diferente. Tendo uma evolução drástica do seu último filme com relação a narrativa, Joachim Trier traz uma fábula em forma de filme, que conversa muito com as narrativas tão pessoais que seu personagem Gustav sempre retrata em seus filmes. Mas talvez por querer tanto emular essa atmosfera de fábulas, que o diretor acabou pecando na escolha de colocar uma narradora ao longo do filme, que de fato não era necessária para o entendimento da trama, e ainda tira um pouco a emoção de momentos importantes, especialmente nas jornadas emocionais vividas brilhantemente por Renate Reinsve.

Valor Sentimental, um dos destaques das premiações de 2026, nos mostra os laços reais por trás das câmeras do cinema. Apostando em uma fotografia intimista e atuações poderosas, o diretor Joachim Trier entrega um drama visualmente coeso e emocionalmente marcante. Embora tenha tropeçado na escolha de uma narração desnecessária, criando um elemento conflitante no filme, as atuações brilhantes de todos em cena se sobressaem, garantindo com certeza destaques positivos para o filme nas campanhas de premiações no ano que vem. O longa nos convida a presenciar essa jornada de um pai em diversas tentativas falhas de eternizar sua vida com sua ex esposa e suas filhas através da arte, mesmo que o mesmo não queira admitir isso, onde o aclamado diretor foca mais em criar esses laços fortes diante das câmeras, enquanto mantém a família Borg moldada em silêncio. Trier molda sua narrativa de uma forma que transforma sua história em uma vivência universal, prometendo tocar em cada espectador que também tem problemas familiares e fazê-lo se conectar com as próprias fissuras e se emocionar com uma história de possível reconciliação.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.

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