Nota
Há um tipo de terror que promete sempre a mesma coisa: portas que rangem, máscaras silenciosas, gritos que ecoam no escuro. Os Estranhos: Capítulo 2 entra exatamente nesse território, esperando que o medo esteja no fato de que sobreviventes ainda não sobreviveram de fato, porque a caçada não terminou. O longa tenta ser mais ambicioso que o primeiro capítulo, mas fica claro cedo que elevar a aposta nem sempre basta.

Madelaine Petsch retorna como Maya, a única sobrevivente do ataque dos mascarados. Ela está recuperando-se no hospital, porém esse espaço aparentemente seguro rapidamente se torna palco de horror renovado. Ela carrega as marcas físicas e psicológicas do que viveu, o que deveria ser um terreno fértil para tensão e em alguns momentos é, mas em muitos outros parece segurar o fôlego mais pelo peso da franquia do que por mérito próprio. Gabriel Basso e Ema Horvath completam o elenco com personagens que tentam trazer variação: presenciais, começam com promessas de profundidade, mas às vezes se perdem em meio à repetição de sustos já esperados.
O diretor Renny Harlin ouve o público e revela mais dos mascarados. Flashbacks dão pistas sobre quem são alguns dos Estranhos, incluindo a infância de personagens como o Espantalho e a Garota Pin-Up. Essa escolha mostra tentativa de dar carne ao mito, e há mérito nisso. Mostrar que o horror dos mascarados também tem sombra de origem é uma ideia que poderia trazer profundidade para a saga. No entanto essa ampliação narrativa oscila bastante: recortes interessantes surgem, mas nem sempre se unem de forma coesa.
Visualmente o filme tem momentos fortes. A ambientação do hospital se torna labiríntica, com quartos escuros, corredores silenciosos e sombras que se alongam. A fotografia favorece ângulos que destacam vulnerabilidade e a sensação de estar isolado, sem para onde correr. A trilha sonora ajuda, sobretudo nos momentos em que o silêncio é interrompido por barulhos que não deveriam estar lá. O impacto desses instantes é real.

Por outro lado, o roteiro se apoiou demais em convenções previsíveis do slasher. Há cenas em que escolhas dos personagens parecem feitas para estender o suspense em vez de fazer sentido dentro da lógica da história. A suspensão de descrença é exigida frequentemente, com telefonia que falha só no momento crucial, corredores desertos que não convencem e sustos que se repetem sem variação significativa. São lapsos que enfraquecem a imersão.
A tensão até existe, mas ela não cresce de modo constante. Em vez de escalar o medo, Capítulo 2 volta a se refugiar em repetições do que já vimos no primeiro filme. A promessa de que este segundo capítulo daria mais revelações se perde em longos interlúdios de ambulatório, corredores vazios e momentos de espera que pareciam promissores e acabam sendo apenas desgaste. É como se o filme estivesse sempre construindo para algo maior, mas hesitasse no passo decisivo.
Alguns sustos funcionam bem. Eles acertam quando aproveitam a fragilidade humana, o medo instintivo de invasão e o horror de coisas normais virando ameaças. Madelaine Petsch segura essas cenas quando pode. Ela carrega o medo, age com sobrevivência, mesmo quando o roteiro deixa de fora algumas justificativas. Há uma simplicidade no terror do filme que às vezes ajuda mais do que cenários grandiosos ou efeitos especiais vistosos.

No fim, Os Estranhos: Capítulo 2 se revela uma continuação mediana. Não é um desastre, há cenas bem-feitas e há momentos em que a atmosfera atinge o que promete, mas também não atinge todo o potencial que sugeria. Se você gostou do primeiro, vai achar o segundo aceitável, mas é provável que fique com a sensação de que podia ser mais ousado, mais surpreendente e menos repetitivo. Resta agora saber se o capítulo três fechará o ciclo com uma proposta realmente firme ou se seguirá nessa zona tênue entre o medo real e o déjà-vu.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.