Geek Curioso | Protocolo Warren: O Julgamento de Arne Cheyenne Johnson

Chegamos ao quinto capítulo do Protocolo Warren, a série que revisita os casos mais icônicos investigados pelo casal Ed e Lorraine Warren e que serviram de inspiração para o universo The Conjuring. O caso de Arne Cheyenne Johnson, conhecido como “O Demônio Me Fez Fazer Isso”, marcou a primeira vez na história dos Estados Unidos em que a defesa de um crime de assassinato alegou possessão demoníaca como justificativa. A repercussão foi imediata, dividindo opiniões entre fé, ceticismo e justiça, e ecoa até hoje como um dos episódios mais controversos e midiáticos já associados ao casal Warren.


Arne Cheyenne Johnson era um jovem comum que vivia em Connecticut no início dos anos 1980. Trabalhador, calmo e bem visto pela comunidade, sua vida parecia seguir um rumo estável ao lado de sua noiva, Debbie Glatzel. Porém, tudo começou a mudar quando o irmão mais novo de Debbie, David, passou a apresentar comportamentos estranhos e assustadores. O garoto, de apenas 11 anos, dizia ver uma entidade de aparência monstruosa e relatava ataques violentos durante a noite. Preocupados, os Glatzel pediram ajuda a Ed e Lorraine Warren, que em julho de 1980 responderam ao pedido e acabaram identificando sinais claros de possessão demoníaca no menino. Além dos demonologistas, foi preciso da ajuda dos pais do garoto, de Johnson, de Debbie, e também de quatro padres católicos para lidar com a presença nefasta na criança. O desfecho não foi dos melhores: segundo a família Glatzel, Arne Cheyenne Johnson, em um ato de desespero para salvar o menino, desafiou a entidade a deixar David em paz e possui-lo em seu lugar.

Com o passar dos meses, sinais inquietantes começaram a surgir em Arne. Testemunhas próximas relatavam mudanças em sua personalidade: ele tinha acessos de raiva súbita, ficava horas em transe e dizia ouvir vozes que o instigavam a cometer atos violentos. Debbie contou que os olhos de Arne pareciam mudar de expressão de forma assustadora, como se outra presença assumisse o controle. Em 16 de fevereiro de 1981, Johnson e Debbie saíram acompanhados da irmã dele, Wanda, da prima de nove anos dela e de Alan Bono, senhorio e empregador de Debbie. O grupo passou o dia bebendo, mas Bono acabou ficando completamente embriagado, chegando a agarrar a menina e se recusando a soltá-la. Nesse momento, a tensão atingiu o ápice e Arne se envolveu em uma discussão acalorada com Bono. O confronto, segundo relatos, tomou contornos inexplicáveis: em um ataque de fúria, Arne desferiu diversas facadas contra Bono com a faca de bolso que carregava. Bono morreu no local, enquanto Arne foi encontrado a cerca de 3 km da cena do crime, alegando não se lembrar do que havia acontecido. O caso chocou a comunidade de Brookfield, pois foi o primeiro homicídio registrado na pequena cidade em toda a sua história.

No dia seguinte ao assassinato, Lorraine Warren informou à polícia de Brookfield que Arne Johnson estava possuído por um demônio quando o crime havia sido cometido. Essa alegação inusitada se tornou a base da defesa de Johnson, conduzida pelo advogado Martin Minnella, que buscou introduzir a “possessão demoníaca” como justificativa legal para inocentar seu cliente. Foi a primeira vez na história judicial dos Estados Unidos que uma defesa desse tipo foi oficialmente apresentada em tribunal. O juiz designado para o caso, Robert Callahan, chegou a concordar em visualizar as provas apresentadas por Minnella, mas descartou a tese sob o argumento de que tal hipótese seria impossível de provar. Como nenhum dos testemunhos da defesa tinha embasamento científico, não poderiam ser considerados para sustentar o veredicto. Diante disso, Johnson foi condenado a uma pena de 10 a 20 anos de reclusão, embora tenha cumprido apenas cinco. Enquanto isso, David continuou enfrentando problemas espirituais ao longo da vida, ainda que em intensidade menor do que nos episódios iniciais. Mesmo sem a aceitação da justiça, o chamado “Julgamento do Demônio” atraiu a atenção massiva da mídia, transformando o caso em um fenômeno nacional e expondo ao público a controversa interseção entre fé, sobrenatural e justiça.

O caso já foi abordado em séries documentais e no livro The Devil in Connecticut, de Gerald Brittle, que também escreveu Ed & Lorraine Warren: Demonologistas. O livro de Brittle, inclusive, despertou a ira da família Glatzel, com os irmãos Carl Glatzel Jr. e David Glatzel afirmando que tudo não passou de mentiras dos Warren, que buscavam apenas atenção midiática e fama. Em 2007, durante a reimpressão da obra, eles processaram o casal, alegando que os Warren exploraram o fervor religioso da época e as doenças mentais não diagnosticadas dos envolvidos para lucrar com o caso, que apenas trouxe má reputação e isolamento à família. “Foi um verdadeiro inferno quando éramos pequenos. Um pesadelo pelo qual nem eu e nem meu irmão vamos passar de novo”, afirmou Carl. Na época, Lorraine Warren se defendeu, reforçando que tudo aconteceu de verdade. Curiosamente, nessa intriga toda, Arne Cheyenne Johnson e Deborah Glatzel tomaram o lado da demonologista.

Décadas mais tarde, ganhou nova vida ao ser retratado no cinema com Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio (2021), que dramatizou os eventos em torno de Arne Johnson e os Warren. Embora a versão cinematográfica tenha adaptado e intensificado os fatos para o terror, ela trouxe à tona novamente o julgamento que ficou marcado como o primeiro nos Estados Unidos a tentar atribuir um assassinato à possessão demoníaca. Mais do que um simples crime, a história de Arne Cheyenne Johnson se consolidou como um dos episódios mais polêmicos da carreira dos Warren e como um ponto de debate entre céticos e crentes. Para alguns, trata-se de uma evidência de que forças além da compreensão humana podem intervir no cotidiano; para outros, é apenas um exemplo trágico de como traumas psicológicos e fé podem se entrelaçar de forma perigosa. Independentemente da interpretação, o caso permanece como um marco histórico tanto na justiça quanto no sobrenatural, e segue despertando fascínio e inquietação até os dias de hoje.

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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