Resenha | A voz da sereia volta neste livro

Nota
4.5

“para a menininha apaixonada por livros.
obrigada por ter escolhido viver tempo suficiente
para ter a experiência de escrever um livro.”

As sereias são conhecidas por serem criaturas de canto misterioso, encantador e perigoso, figuras femininas que atraem marinheiros curiosos para a própria ruína. Uma sereia, Ariel, foi protagonista de duas grandes narrativas: a primeira, sombria e trágica, escrita por Hans Christian Andersen, conduz a um desfecho macabro; a segunda, solar e romantizada, lançada pela Disney, oferece um final encantador e redentor. Mas, na vida real, as sereias dificilmente alcançam desfechos tão extremos. Elas costumam ser capturadas por falsos salvadores e silenciadas, obrigadas a esconder a dor infligida por falsos príncipes, falsos pais, falsos homens. Ainda assim, as sereias estão mudando. Estão dispostas a lutar, a retomar a própria voz, a gritar aos quatro cantos aquilo que lhes foi feito e, sobretudo, a ajudar outras sereias a fazerem o mesmo.

Depois do sucesso de A princesa salva a si mesma neste livro e A bruxa não vai para a fogueira neste livro, Amanda Lovelace retorna com o terceiro e último volume da saga As mulheres têm uma espécie de magia, apresentando uma coletânea de poemas que transitam entre escapismo e cura. Ao longo de textos intensos, a autora revisita experiências profundamente íntimas, transformando dor em linguagem poética. A voz da sereia volta neste livro surge, novamente, precedido por um aviso contundente: o leitor encontrará “abuso de crianças, violência armada, violência doméstica, agressão sexual, distúrbios alimentares, automutilação, suicídio, álcool, trauma, morte, fogo &, provavelmente, mais coisas”. Essa advertência se confirma logo no início, no doloroso “o céu”, onde o silêncio imposto à sereia se revela em sua forma mais cruel. Fica evidente que essas sereias são vítimas de abusos sexuais cometidos por pessoas próximas, forçadas a calar, a esconder traumas profundos e a conviver com o medo constante de não serem acreditadas. “o naufrágio” é o trecho mais doloroso do livro. É nele que acompanhamos a derrocada de uma sereia: o momento em que ela conhece seu príncipe, acredita ter encontrado um porto seguro após a dor vivida nas mãos de um homem e percebe que, na verdade, caiu nas garras de outro monstro que irá abusá-la. Apesar de serem poesias marcadas pela ludicidade, Amanda consegue ser extremamente gráfica, o que torna esse trecho particularmente difícil de atravessar. Ainda assim, a autora é genial ao alternar entre “meu”/“minha” e “dela”, deixando claro que descreve uma dor própria, mas também reconhecendo que essa dor não lhe pertence sozinha. Existem inúmeras sereias por aí que precisam ser ouvidas.

“preste atenção.
não ouse se debruçar na janela e jogar as tranças
para fora. nunca se sabe quem é que vai aparecer
ali e subirsubirsubir.”

Chegamos à terceira parte, “o canto”, destruídos, mas prontos para um abraço bem dado por Amanda. É a hora das sereias cantarem alto, rasgarem o véu da vergonha e revelarem o que esses vilões fizeram com elas. Trata-se de um capítulo focado em deixar claro que as sereias não têm culpa do que viveram, que elas não estão erradas por terem ficado; errados estão aqueles que as fizeram acreditar que não podiam ir embora. É aqui que a cura começa a ser operada e o ciclo, finalmente, quebrado. Vemos Amanda encontrar seu marido e deixar explícito o quanto a experiência vivida ao lado dele a fez voltar a acreditar que era capaz de amar. A última parte, “a sobrevivente”, é dedicada a uma conversa franca de Amanda com todas as “sereias” que vierem a ler seu livro. A autora reforça que elas são, sim, capazes de superar seus traumas, que compreende o que se sente após sobreviver a algo tão doloroso, mas deixa claro que a culpa não é delas, que suas histórias não se resumem à dor e que é possível escrever uma nova história. Este é o capítulo mais rico em citações, onde Amanda convoca algumas das principais vozes contemporâneas da poesia, como Nikita Gill e K.Y. Robinson, e onde começamos a enxergar com ainda mais força o quanto as vozes das mulheres, ou melhor, das sereias, são altas, potentes e capazes de reverberar pelo mundo.

A voz da sereia volta neste livro é um livro difícil, porém extremamente necessário. Nele, Amanda deixa claro que compreende que muitas pessoas passam por experiências semelhantes às suas, mas que cada mulher reage ao trauma de maneira única. A obra evidencia o quanto é fundamental que as mulheres compartilhem e unam suas vozes, suas histórias, criando conexões capazes de fortalecê-las mutuamente. Amanda encerra sua trilogia de forma especial, entregando um livro que funciona de maneira independente, mas que, ao mesmo tempo, parece pedir a leitura dos volumes anteriores, preparando gradualmente o leitor para o peso emocional que atravessa este terceiro livro. Tratar de temas tão delicados exige sensibilidade, e Amanda demonstra entender a importância desse cuidado ao preparar seu leitor para enfrentar determinados gatilhos, não de forma gratuita, mas como instrumento de reflexão. Isso faz com que A voz da sereia volta neste livro se torne uma leitura importante em algum momento da vida. Com palavras indigestas e dolorosas, a obra escancara a necessidade de que vítimas e sobreviventes de violência sexual consigam justiça, libertem-se do peso imposto por seus agressores e encontrem caminhos possíveis de cura. Afinal, a violência não se encerra no ato em si: ela continua existindo mesmo depois, mesmo quando as feridas físicas já cicatrizaram.

“algumas
histórias
não têm
um final
feliz.
algumas
histórias
não chegam
a ter
um final.”

 

Ficha Técnica
 

Livro 3 – Série Women Are Some Kind of Magic

Nome: A voz da sereia volta neste livro

Autor: Amanda Lovelace

Editora: Planeta

Skoob

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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