Nota
“Seres fantástiscos surgem em noites de lua cheia, saltam da escuridão, mergulham em rios, correm pelas florestas e cavalgam por campinas sem fim.”
A força do imaginário popular brasileiro sempre esteve presente nos cantos de nossas cidades, nos terreiros do interior e nas histórias contadas ao pé da rede, e é dessa atmosfera de crenças e assombrações que nasce Folclore Vivo. A obra nos conduz por um mosaico de mitos e lendas que atravessaram gerações, com narrativas que oscilam entre o espanto e a familiaridade, entre o medo do sobrenatural e a beleza poética das tradições orais. A cada página, somos lembrados de que o folclore não é apenas um conjunto de fábulas distantes, mas um reflexo da forma como o povo brasileiro compreende a vida, a morte, a natureza e os mistérios que cercam o cotidiano. Em vez de encarar essas histórias apenas como curiosidades, o livro lhes devolve vitalidade, permitindo que reapareçam diante de nós como entidades vivas, pulsantes, prontas para serem redescobertas.

O primeiro conto, O Lobisomem, traz a história de Dona Aninha, moradora de Passagem, que após dar à luz sete meninas finalmente teve um filho, Sebastião. O menino, no entanto, nasce marcado pelo destino de se tornar Lobisomem, e a mãe passa a carregar o peso da responsabilidade de quebrar a maldição quando ele completar treze anos. A narrativa combina o drama familiar com a atmosfera de medo popular, revelando como a maternidade pode se entrelaçar ao sobrenatural e à superstição. Já em A Guerra das Curupiras, acompanhamos uma reunião mítica entre os protetores da floresta para discutir as constantes invasões humanas. O encontro reúne figuras lendárias como o Curupira mais velho, Solimões, Santarém, Rio Negro, Pará e Kilaino, que decidem punir tanto os índios que se arriscam demais quanto os caçadores que destroem o equilíbrio das matas. O conto exalta o poder da natureza como força viva e vingativa diante da exploração humana.
Em Os Botos, a trama se desenrola no clima festivo do último dia da trezena de Santo Antônio, onde a música de Izidro, o mais habilidoso tocador de harmônica da região, embala um arrasta-pé animado. É nesse cenário de alegria coletiva que surgem dois jovens misteriosos, sedutores e encantadores, que rapidamente conquistam a atenção das mulheres presentes. O fascínio, porém, se transforma em espanto quando eles desaparecem sem deixar rastros, despertando em Jessé, neto de Dona Puduzinha, uma obsessão em desvendar a origem daqueles forasteiros, figuras que parecem estar mais ligadas ao mundo encantado das águas do que à realidade humana. Já em O Caapora, acompanhamos Domingos, caçador que cruza o caminho de um veado branco coroado por chifres cinza-chumbo, tão belo quanto impossível. O encontro o leva ao guardião das florestas, o implacável Caapora, que impõe a ele o peso da Lei da Caça. Nesse momento, mito e moral se entrelaçam, revelando a punição como parte essencial da ordem natural.

O encerramento da coletânea chega com As Artes do Saci, conto que retoma o tom mais travesso do folclore. A história gira em torno do cavalo Pampa, que junto a outros animais, torna-se vítima das brincadeiras noturnas do arteiro de uma perna só. As travessuras, no entanto, não passam despercebidas, já que um menino desperta no meio da noite e acaba testemunhando as ações do Saci, mergulhando em um universo onde o medo e o riso se misturam. Herberto Sales encerra assim a coletânea com leveza, mas sem perder o encanto mágico que permeia toda a obra. Folclore Vivo se revela como um registro poderoso da tradição oral brasileira, resgatando histórias que falam de monstros, protetores da mata e encantados dos rios, mas que ao mesmo tempo refletem a relação do povo com a natureza, a fé e os costumes. O livro mostra como o folclore, mais do que lembrança do passado, continua sendo parte viva da identidade nacional.
| Ficha Técnica |
Livro 5 – Literatura em Minha Casa II Nome: Folclore Vivo Autor: Herberto Sales Editora: Bertrand Brasil |
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Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.