Review | Clean Slate [Season 1]

Nota
4

Desiree (Laverne Cox) está falida. Após anos morando em Nova Iorque como curadora de galerias de arte chiquérrimas da cidade, e do seu Sugar Daddy terminar com ela, ela decide tomar a difícil decisão de voltar para casa após 23 anos longe. Na sua pequena cidade do Alabama, ela entra em contato com seu pai Harry (George Wallace) para avisá-lo que ela está voltando. Só que Harry não sabe sobre algo muito importante, Desiree na verdade fugiu de casa há 23 anos para poder transacionar, então Harry, que estava esperando rever seu filho após tanto tempo, tem uma grande surpresa em descobrir que agora ele tem uma filha.

Apesar do choque, Harry vai acolher sua filha, e convidá-la a morar com ele novamente, já que ele vive sozinho desde que Des fugiu de casa alguns anos após sua mãe falecer. Para ajudá-la a ter paciência com o pai que está se acostumando com a nova realidade, Desiree irá ter a ajuda de seu amigo de infância, Louis (DK Uzoukwu), que também tem suas questões por ser líder do coral da igreja e ao mesmo tempo estar no armário para sua mãe e para a comunidade inteira. Além disso, Desiree irá fazer novos amigos, como o funcionário do lava-jato do seu pai, Mack (Jay Wilkison), que de cara já se interessou bastante pela filha do seu chefe, e sua filha, a inteligente garotinha de 11 anos Opal (Norah Murphy). Criado pela multi talentosa Laverne Cox e pelo comediante Geoge Wallace, Clean Slate é uma comédia super leve sobre família e aceitação disponível na Prime Video

Produzida pela própria protagonista, Laverne Cox, em parceria com George Wallace e Dan Ewen, a série Clean Slate contou com a produção iniciando desde 2020, onde inicialmente seria distribuída pela plataforma de streaming americana Peacock, que pertence ao canal estadunidense NBC, mas devido a pandemia o projeto precisou ser adiado, passando por diversos outros canais após o cancelamento com a Peacock, ficando firme na antiga IMDB TV de 2021 até 2023, com o falecimento do antigo produtor executivo Norman Lear, até finalmente chegar a Amazon Prime um ano depois, em 2024, com o lançamento em fevereiro de 2025. Apesar da recepção positiva, tendo uma aprovação de quase 90% do público, a série foi cancelada sem explicações após sua primeira temporada em abril de 2025, onde Cox, Wallace e Ewen comentaram que “7 anos de um trabalho intenso simplesmente evaporou…”. Em uma rede social, Laverne Cox agradeceu a Amazon Prime e a Sony por terem realizado a primeira temporada, e não comentou sobre os motivos do cancelamento, mesmo que alguns jornalistas como o G. Allen Johnson do San Francisco Chronicle atribuem o cancelamento a aproximação do CEO da Amazon Jeff Bezos ao atual governo do presidente Donald Trump, que tem políticas ativas contra a população trans.

Clean Slate segue um padrão bem tradicional de sitcom, com progressão de história, diálogos e formatos dos episódios, o que funciona bem para a proposta de ser um sitcom estrelado por uma pessoa trans, já que isso por si só é uma inovação. Infelizmente pela pouca quantidade de episódios não permitiu um melhor desenvolvimento dos personagens, embora os principais tenham arcos bem amarrados.

Harry, por exemplo, é um personagem típico americano, do pai velho que procura sempre tirar vantagem para economizar dinheiro, mas que ao mesmo tempo tem um bom coração apesar de ser ranzinza. Apesar dele ter uma aceitação rápida da identidade da Desiree, que já se dá no primeiro episódio, é muito bom que a história procura focar em outros pontos, como as diferenças culturais de pai e filha, já que ele continua sendo um idoso do interior enquanto ela é uma mulher “moderna” da cidade grande, e como a introdução de temas LGBTs para pessoas que nunca tiveram contato com isso são muito bem colocados por estarem envolvidas com base na empatia dos personagens que se importam com a Desiree, o que torna a série em si muito leve por não só abordar dor e sofrimento da personagem trans, e positiva por trazer história que apesar de ter a identidade da personagem como um foco principal, ela não se resume apenas a isso.

O elenco de Clean Slate também chama bastante atenção por ter um bom balanceamento de caras novas e mais experientes. Laverne Cox, que ficou mais conhecida por sua participação na série Orange is the New Black (2013), se mostra bem confortável com as cenas, mesmo que seja num contexto novo para sua carreira, que inclusive ela se mostra um pouco hesitante em alguns momentos mais cômicos, um enorme contraste de sua personagem de OITNB, Sophia Burset, que era bem mais séria por natureza, e condizia mais com o estilo de atuação de Cox, mas em Clean Slate ela entrega uma atuação satisfatória para a comédia, visto que ela por si só já é carismática o suficiente para isso. O elenco de apoio também é uma boa surpresa, com a mais nova, Norah Murphy, sendo inteligentíssima no papel da esperta Opal, mostrando que sua pouca experiência em séries, já que a garota atuou em apenas dois filmes, não foi um empecilho para seu talento. Outra surpresa é DK Uzoukwu, que atuou apenas em papéis pequenos em séries e comerciais, mas que tem uma química ótima com a Laverne Cox em cena, deixando a amizade dos dois super natural. 

Clean Slate traz uma comédia leve e super divertida sobre aceitação e acolhimento em uma família do interior. Apesar de seu cancelamento precoce, provavelmente pelas políticas atuais dos Estados Unidos, a série conseguiu deixar sua marca ao apresentar uma história leve e envolvente sobre família, aceitação e identidade. Clean Slate se destaca por trazer uma protagonista trans em um formato de sitcom tradicional, oferecendo uma abordagem inovadora para o formato e necessária para a representatividade LGBTQIA+. Embora a curta duração tenha limitado o desenvolvimento de seus personagens, o elenco carismático, mesmo com caras novas para a indústria, se mostra muito talentoso, e os diálogos bem estruturados garantem momentos genuínos e cativantes. No fim, Clean Slate pode ter sido interrompida antes de atingir seu pleno potencial, mas ainda é uma série divertida, que vale a pena ser assistida por sua mensagem e impacto.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.

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