Nota
“Não negligencie nenhuma anomalia.
Se você encontrar uma anomalia, recue imediatamente.
Se não encontrar nenhuma anomalia, não recue.
Saia pela Saída 8″
Você está indo trabalhar em mais uma manhã cansativa e comum. Por volta das 9h40, sai do trem e recebe uma ligação da sua ex avisando que está grávida. Talvez isso já fosse suficiente para tirar sua rotina do eixo, mas tudo piora quando você sobe as escadas da estação. A ligação começa a falhar e, como se tivesse atravessado para outra dimensão, você vai parar em um corredor aparentemente abandonado, estranho, onde apenas um homem caminha repetidamente. Uma placa indica a Saída 8, mas você logo percebe que está passando pelo mesmo corredor de novo, e de novo, e de novo… até que algo muda. É nesse momento que a lógica se quebra e a atenção se torna a única ferramenta possível. O “Homem Perdido” (Kazunari Ninomiya) agora está preso em uma dimensão paralela e precisa entender o que está acontecendo, identificar as anomalias e seguir regras rígidas para tentar encontrar a Saída 8. Mas essa nova realidade vai além de um simples terror psicológico, funcionando também como um espaço de autorreflexão, onde cada detalhe observado carrega também um significado.

Lançado em 29 de novembro de 2023 pela Kotake Create, The Exit 8 foi um sucesso imediato, alcançando um milhão de downloads em menos de seis meses. Em 27 de dezembro de 2024, a Toho anunciou a adaptação da premissa para o cinema, com Genki Kawamura assumindo roteiro, produção e direção. A proposta do jogo é extremamente simples: percorrer corredores observando atentamente, recuar ao identificar uma anomalia, avançar quando tudo parecer normal e acertar oito vezes para alcançar a saída. É justamente nessa simplicidade que Kawamura encontra seu maior trunfo. O minimalismo é expandido com a adição de novos elementos, como áreas com armários, lixeira e uma cabine fotográfica, além de personagens inéditos. A Colegial, mesmo com pouco tempo em cena, contribui para o horror psicológico, enquanto o “Garoto” surge como uma criação do filme para fortalecer a evolução emocional do protagonista. Já o “Homem que Anda” ganha uma camada mais densa, deixando de ser apenas uma figura indiferente para se tornar parte ativa da mitologia perturbadora.
Se o jogo utiliza a repetição como ferramenta para provocar paranoia, o filme amplia essa lógica ao brincar com a percepção do espectador, criando uma tensão constante baseada no detalhe, no erro e na dúvida. As anomalias mais icônicas são transportadas para a tela com fidelidade, o que certamente agrada aos fãs mais atentos, ainda que algumas sejam adaptadas para aumentar o impacto visual. O grande destaque, no entanto, está nas anomalias inéditas, criadas especificamente para o longa, que intensificam o terror visual sem abrir mão do desconforto psicológico que define a experiência original. Toda a introdução em primeira pessoa ajuda o espectador a se sentir dentro do jogo antes mesmo de a trama começar a se desenvolver de fato, algo essencial para sustentar os 95 minutos de duração sem torná-los cansativos. Afinal, grande parte da experiência se constrói como uma espécie de gameplay prolongado, e é justamente aí que o roteiro encontra sua força, criando a liga necessária para manter o interesse constante e evitar que os corredores se tornem repetitivos. Ainda que não seja perfeito, são justamente essas pequenas falhas que impedem a obra de atingir um nível ainda mais alto.

A inclusão de um quadro com a Möbius Strip, de M. C. Escher, funciona como uma alegoria precisa do ciclo infinito de repetição e desespero vivido pelo protagonista. A atmosfera é construída de forma quase hipnótica, utilizando o vazio, o silêncio e a repetição não apenas como estética, mas como linguagem narrativa. O corredor deixa de ser apenas um espaço físico e passa a assumir o papel de um purgatório moderno, carregado de angústias, culpas e decisões não tomadas. A sensação de estar preso em um loop não vem apenas da estrutura, mas do quanto o filme dialoga com a rotina contemporânea, com a apatia e com a dificuldade de agir diante do desconforto. Nesse sentido, Exit 8 vai muito além de uma adaptação de videogame, funcionando como uma metáfora sobre responsabilidade, especialmente quando conecta essa jornada ao dilema pessoal do protagonista.
Assumindo os riscos de sua proposta, Exit 8 acerta ao expandir seu material original sem perder a essência que o transformou em um sucesso. A inclusão de novos personagens e de uma camada emocional mais palpável dá o peso necessário para que a narrativa não seja refém da repetição, ainda que essa própria repetição possa afastar quem não conhece o jogo e espera uma progressão mais tradicional. Mas é justamente nesse ciclo que a obra encontra sua identidade, tanto no cinema quanto no jogo, fazendo com que pequenas diferenças sejam suficientes para gerar uma tensão genuína. Exit 8 não é um filme de respostas fáceis. Ele se infiltra no espectador para mostrar que escapar desse ciclo não depende apenas de entender as regras, mas de compreender a si mesmo, perceber o ambiente ao redor, interpretar corretamente os sinais e, principalmente, agir diante dos problemas, em vez de apenas ser levado por eles. A obra entrega um terror mais silencioso e cerebral, que troca sustos fáceis por desconforto constante e reflexão.
“Saída 8. Dentista. Escher. Escrivão. Cirurgia Plástica. Homem. Trabalho bem-remunerado. Boas maneiras no metrô. Câmera de segurança.”
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.