Nota
“- O que vai fazer?
– Vou revelar tudo para o mundo todo.”
Em um 2026 marcado por tensões políticas crescentes e pelo temor constante de uma Terceira Guerra Mundial, o especialista em segurança cibernética Daniel Kellner rouba um misterioso artefato e centenas de arquivos confidenciais da Wardex Corporation, um braço secreto do governo dos Estados Unidos. Ex-funcionário da empresa, Daniel agora integra uma célula revolucionária formada dentro da própria organização e pretende tornar públicos documentos que detalham décadas de contatos entre humanos e alienígenas, desde o incidente de Roswell. Enquanto isso, em Kansas City, a meteorologista Margaret Fairchild se prepara para mais um dia comum de trabalho quando a visita inesperada de um cardeal desperta nela habilidades psíquicas inexplicáveis, permitindo que compreenda intuitivamente pensamentos e emoções alheias e se comunique, de forma inconsciente, em idiomas que jamais aprendeu. Durante uma transmissão ao vivo da previsão do tempo, Margaret passa a falar em uma língua desconhecida diante de milhões de espectadores. O vídeo rapidamente viraliza, e a Wardex identifica o idioma como sendo de origem extraterrestre. Transformados em alvos de Noah Scanlon, o implacável CEO da corporação, Daniel e Margaret são obrigados a unir forças para sobreviver. No entanto, a verdade que os conecta vai muito além dos segredos do governo: existe algo enterrado em seus próprios passados capaz de explicar por que tudo isso está acontecendo agora.

Anunciado em abril de 2024, o novo projeto de ficção científica de Steven Spielberg nasceu a partir de uma ideia original do próprio diretor, com roteiro de David Koepp, colaborador de longa data responsável por obras como a franquia Jurassic Park e Guerra dos Mundos. A produção surgiu pouco tempo depois de a NASA divulgar um relatório independente sobre os chamados “Fenômenos Anômalos Não Identificados” (UAPs, na sigla em inglês), reconhecendo a existência de objetos voadores não identificados, embora afirmasse não haver evidências científicas conclusivas de que esses fenômenos possuam origem extraterrestre ou representem tecnologia alienígena. O tema acabou servindo como combustível perfeito para a imaginação de Spielberg, que transforma um debate contemporâneo em mais uma de suas grandes declarações de amor à humanidade.
Dia D é a prova de que Spielberg continua sendo Spielberg. Mesmo após décadas de carreira, ele ainda filma com o coração completamente aberto, encontrando beleza nos pequenos gestos e construindo personagens capazes de fazer o público acreditar em empatia, reconciliação e esperança. Há ecos evidentes de toda a sensibilidade presente em alguns de seus trabalhos mais queridos, reforçando a sensação de que, independentemente do gênero que decide explorar, seu olhar permanece essencialmente o mesmo. Em uma indústria cada vez mais atraída pelo cinismo, pela ironia e pela descrença, existe algo quase inspirador em ver um cineasta octogenário insistir que a bondade ainda merece espaço na tela. Ao mesmo tempo, essa talvez seja também a maior barreira do filme. Para embarcar plenamente nessa jornada, é preciso aceitar o fascínio de Spielberg pelo extraordinário e compartilhar sua capacidade de encantamento diante do desconhecido. Se E.T. nunca encontrou espaço no coração do espectador, talvez Dia D dificilmente consiga mudar isso. Afinal, este é, do começo ao fim, o mais puro suco do Spielbergiano sobre alienígenas.

Se Spielberg continua sendo um diretor profundamente interessado na humanidade de seus personagens, muito disso também se deve ao elenco que escolhe para conduzir suas histórias. Emily Blunt entrega uma atuação extraordinária como Margaret Fairchild, provavelmente uma das mais fortes de sua carreira. Existe uma delicadeza impressionante na forma como a atriz constrói a personagem, transitando entre o espanto, a vulnerabilidade e a necessidade quase irracional de seguir em frente mesmo sem compreender completamente o que está acontecendo. Muitas vezes, Blunt comunica mais através de um olhar silencioso do que o próprio roteiro consegue expressar em seus diálogos mais expositivos, transformando Margaret no verdadeiro coração emocional do longa. Josh O’Connor também encontra enorme força em Daniel Kellner, imprimindo humanidade a um personagem constantemente dividido entre o peso dos segredos que carrega e a urgência de fazer a coisa certa, ainda que o roteiro por vezes o mantenha excessivamente preso à função narrativa de conduzir os mistérios da trama.
O restante do elenco reforça ainda mais a sensação de que Dia D é movido pelas pessoas muito mais do que pelos fenômenos que investiga. Eve Hewson se destaca ao interpretar uma das figuras mais interessantes da narrativa, trazendo personalidade e autenticidade suficientes para tornar memorável uma personagem que poderia facilmente se perder em meio à grandiosidade dos acontecimentos. Colin Firth utiliza sua elegância característica para conferir gravidade e ambiguidade às decisões mais difíceis da história, enquanto Colman Domingo faz aquilo que parece incapaz de não fazer: domina a tela sempre que aparece, acrescentando camadas e carisma a cada uma de suas cenas. Spielberg, por sua vez, demonstra mais uma vez seu talento na direção de atores, privilegiando enquadramentos íntimos e momentos de contemplação que lembram constantemente que, por trás das conspirações governamentais, das teorias extraterrestres e dos mistérios cósmicos, seu verdadeiro interesse continua sendo o mesmo de sempre: observar pessoas tentando compreender umas às outras em um mundo cada vez mais difícil de entender. E é justamente essa sensibilidade que também se reflete na forma do filme: movimentos de câmera elegantes, uma mise-en-scène rica em detalhes, efeitos visuais discretos, porém eficientes, e uma trilha sonora de John Williams que sabe exatamente quando conduzir a emoção e quando permitir que o silêncio fale por si só.

Steven Spielberg talvez já não seja o cineasta que dita tendências como fez durante décadas, mas continua sendo alguém profundamente comprometido com aquilo em que acredita, e isso transborda em Dia D. Em uma época marcada pelo cinismo e pela descrença, o diretor insiste em defender a empatia, a esperança e a capacidade humana de se conectar, transformando uma ficção científica sobre conspirações e vida extraterrestre em uma celebração da bondade e da reconciliação. É verdade que o roteiro de David Koepp encontra alguns atalhos que impedem o longa de alcançar a excelência absoluta: certas soluções surgem facilmente demais, alguns encontros parecem excessivamente calculados e determinadas coincidências existem porque o filme precisa que elas existam, tornando visível a engrenagem narrativa em alguns momentos. Ainda assim, o coração da obra está no lugar certo. Com um ato final emocionante e recompensador, que remete à sensibilidade de clássicos como Contatos Imediatos do Terceiro Grau enquanto dialoga com as inquietações do presente, Dia D reafirma que o cinema de Spielberg continua acreditando que pequenas demonstrações de humanidade podem transformar vidas. Talvez não seja o filme que o público atual esteja procurando, mas há algo profundamente inspirador em continuar olhando para o mundo com gentileza e defendendo, sem qualquer traço de ironia, que a esperança ainda vale a pena.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.