Nota
3

“Do desaparecimento de metade da humanidade ao surgimento, no Oceano Índico, de uma massa celestial. Enfrentamos ameaças que não mostram sinal de desacelerar.”

Passaram-se cinco meses desde a eleição de Thaddeus Ross como presidente dos Estados Unidos, e a tensão entre ele e Sam Wilson, o novo Capitão América, continua pairando sobre cada interação entre os dois, mesmo enquanto são obrigados a cooperar. Ross agora lidera delicadas negociações com Japão e França envolvendo a divisão do Adamantium, um metal considerado ainda mais valioso que o Vibranium, recém-descoberto nos restos mortais do Celestial emergido no Oceano Índico. Mas tudo muda quando um misterioso roubo acontece. O que inicialmente parecia apenas mais uma missão para Sam e Joaquin Torres, agora assumindo oficialmente o manto de Falcão, ao tentarem impedir a venda ilegal dos itens roubados pela Sociedade da Serpente, uma equipe mercenária liderada por Coral, rapidamente se transforma em um incidente internacional de enormes proporções. Conforme a situação foge do controle, Sam se vê obrigado a iniciar uma investigação clandestina para descobrir quem realmente está manipulando os acontecimentos antes que o verdadeiro mentor da conspiração consiga levar o mundo inteiro ao caos.

Apesar de extremamente necessária para o desenvolvimento de Sam Wilson dentro do MCU, The Falcon and the Winter Soldier foi uma das produções mais densas entre os conteúdos originais da Marvel Studios no Disney+, deixando claro o quanto debates envolvendo supremacia política, racismo estrutural e identidade exigem tempo, cuidado e profundidade narrativa. Talvez esse seja justamente o maior problema de Capitão América: Admirável Mundo Novo. O roteiro, escrito por Malcolm Spellman, showrunner da série, claramente tenta expandir os conflitos políticos e sociais apresentados anteriormente, mas encontra dificuldade para condensar tantas questões em apenas 118 minutos.

O que funcionava muito bem em quase seis horas de série perde força dentro da estrutura acelerada de um blockbuster cinematográfico. Se a produção televisiva conseguia equilibrar múltiplas linhas antagonistas com desenvolvimento gradual, o trigésimo quinto filme do Universo Cinematográfico Marvel tropeça ao dividir constantemente sua atenção entre diferentes ameaças que disputam espaço narrativo, mesmo estando conectadas. De um lado está Thaddeus Ross, um líder impulsivo, egoísta e incapaz de enxergar as consequências de suas próprias decisões enquanto o peso do poder o consome cada vez mais. Do outro está o misterioso Líder, que manipula os acontecimentos utilizando técnicas de controle mental semelhantes às empregadas nos Soldados Invernais, trazendo Isaiah Bradley para o centro da conspiração. A conexão entre os dois conflitos existe, mas a necessidade de desenvolver simultaneamente ambas as frentes acaba tornando parte da narrativa excessivamente carregada e irregular.

A produção promete discutir o legado do escudo e a busca de Sam Wilson por sua própria identidade como Capitão América, mas rapidamente amplia sua escala para uma complexa trama de política internacional que, ao adicionar o Hulk Vermelho e ainda carregar o peso dos problemas estruturais do atual MCU, acaba se perdendo no que realmente deseja contar. Em uma Fase Cinco que ainda encontra dificuldade para estabelecer uma direção sólida, Capitão América: Admirável Mundo Novo tenta funcionar simultaneamente como thriller político, filme de ação, continuação de O Incrível Hulk, expansão do universo compartilhado e estudo sobre identidade, mas não consegue equilibrar todas essas propostas de maneira satisfatória.

Dr. Samuel Sterns, interpretado novamente por Tim Blake Nelson após anos afastado da franquia, é um dos maiores exemplos disso. Mesmo sendo um dos principais antagonistas da trama e carregando enorme potencial narrativo, o personagem recebe pouco desenvolvimento e termina subaproveitado, funcionando muito mais como ferramenta de roteiro do que como uma ameaça verdadeiramente memorável. Já Thaddeus Ross ganha novas camadas ao revisitar as consequências do Duelo do Harlem, sua controversa trajetória política e a relação estremecida com sua filha Betty, mas a troca de William Hurt por Harrison Ford inevitavelmente altera parte da identidade do personagem. Ford entrega presença e profundidade dramática, principalmente ao explorar um Ross mais cansado, humano e vulnerável, porém a mudança também enfraquece parte da continuidade emocional construída ao longo dos anos, especialmente quando a relação entre Thaddeus e Betty permaneceu praticamente esquecida dentro do MCU por tanto tempo.

Infelizmente, a Sociedade da Serpente e Coral também acabam prejudicados pela necessidade constante de dividir atenção entre múltiplos conflitos. Falta tempo de tela para que a organização realmente se estabeleça como ameaça relevante, algo que igualmente afeta Ruth Bat-Seraph, ex-Viúva Negra israelense e atual conselheira de segurança do presidente. A personagem mal tem sua história explorada, deixando a sensação de que sua presença existe muito mais como um aceno aos fãs dos quadrinhos do que como alguém realmente essencial para a narrativa, ao menos neste primeiro momento. Mesmo carregando problemas claros de estrutura e excesso de tramas paralelas, Capitão América: Admirável Mundo Novo ainda consegue funcionar em diversos momentos graças ao carisma de seu protagonista e à tentativa genuína de devolver ao MCU uma atmosfera mais política e pé no chão, algo que fez muita falta depois dos eventos cada vez mais grandiosos e desconectados das fases recentes. Anthony Mackie sustenta Sam Wilson com segurança, trazendo humanidade ao personagem e reforçando constantemente o peso de carregar um símbolo tão importante dentro daquele universo. O filme entende que Sam jamais será Steve Rogers, e talvez seu maior acerto esteja justamente em não tentar transformá-lo em uma simples cópia do antigo Capitão América.

O problema é que, ao mesmo tempo em que tenta discutir identidade, legado, manipulação política, responsabilidade internacional, controle militar e até os impactos emocionais da herança do Hulk dentro do MCU, o longa parece incapaz de escolher qual dessas histórias realmente deseja aprofundar. Existe uma boa base para um thriller político sólido, existem personagens interessantes espalhados pela trama e há discussões que poderiam render algo muito mais marcante, mas tudo acaba diluído em uma narrativa acelerada, sobrecarregada e excessivamente preocupada em preparar caminhos futuros para a franquia. Ainda assim, há méritos inegáveis na produção. As cenas de ação funcionam bem, o conflito envolvendo Ross possui momentos genuinamente interessantes e a tentativa de conectar diferentes períodos do MCU cria uma sensação de continuidade que há tempos parecia perdida. Mesmo tropeçando em seu excesso de ambição, o filme pelo menos demonstra esforço em reorganizar peças importantes desse universo compartilhado. É um filme funcional, com boas ideias e execução irregular, que deixa a sensação constante de potencial desperdiçado, mas ainda consegue encontrar valor justamente na humanidade de seu novo Capitão.

“O Steve cometeu um erro…”

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.