Nota
3

“Fazia tempo que não me divertia assim.”

Erica Thompson retorna para Ohio, sua cidade natal, ao lado da filha Maggie após ser abandonada pelo marido. Tentando se adaptar à nova realidade, Maggie acaba fazendo amizade com Haley, Darrell, Chaz e Andy. Em uma tentativa de conseguir bebidas alcoólicas para uma festa, o grupo conhece Sue Ann Ellington, uma técnica veterinária solitária que, surpreendentemente, aceita ajudá-los. Não demora para que Sue desenvolva uma simpatia incomum pelos adolescentes e passe a convidá-los para beber em seu porão, transformando sua casa em um ponto de encontro cada vez mais popular entre os jovens da cidade e lhe rendendo o apelido de Ma. Mas existe muito mais por trás da aparente generosidade de Sue Ann. À medida que sua amizade com os adolescentes se transforma em uma obsessão cada vez mais inquietante, acontecimentos estranhos começam a fazer o grupo questionar as verdadeiras intenções da anfitriã. Pouco a pouco, também vêm à tona antigas conexões entre Sue, Erica, Ben Hawkins, pai de Andy, e Mercedes, atual companheira de Ben, revelando que algumas feridas do passado nunca cicatrizam completamente e que certos traumas podem permanecer à espera da oportunidade perfeita para voltar à superfície.

Tudo começou por conta de desejos, oportunidades e amizades. O diretor Tate Taylor queria comandar um projeto que fosse, em suas próprias palavras, “algo fodástico”. Ao mesmo tempo, Octavia Spencer estava cansada de receber personagens semelhantes e desejava interpretar alguém completamente diferente dos papéis que a consagraram. Do outro lado estava Jason Blum, fundador da Blumhouse Productions, que havia acabado de adquirir um roteiro escrito por Scotty Landes. O desejo de Taylor, compartilhado com seu amigo Blum, acabou levando o diretor a assumir o projeto e imediatamente convidar Spencer para protagonizá-lo. O roteiro original apresentava uma mulher branca extremamente cruel, construída para ser uma figura praticamente impossível de gerar empatia. A presença de Spencer, no entanto, ajudou a transformar a proposta em algo mais complexo, utilizando a história para discutir trauma, rejeição social, bullying, pressão dos grupos e as consequências que os erros de uma geração podem provocar na seguinte. Dessa combinação de interesses nasceu um terror psicológico desconfortável, que raramente depende de sustos para funcionar e que acabou se destacando por colocar uma mulher negra no centro da narrativa como principal antagonista, algo ainda incomum dentro do gênero na época de seu lançamento.

Quem realmente sustenta toda a narrativa é Octavia Spencer. Acostumada a interpretar figuras carismáticas, acolhedoras e moralmente corretas, a atriz utiliza justamente essa imagem construída ao longo da carreira para tornar Sue Ann ainda mais perturbadora. Em um primeiro momento, Ma parece apenas uma mulher solitária, alguém que finalmente encontrou um grupo disposto a lhe dar atenção e companhia, mas Spencer trabalha pequenas mudanças de expressão, olhares prolongados e sorrisos desconfortáveis para revelar que existe algo profundamente errado por trás daquela simpatia. O resultado é uma antagonista que oscila constantemente entre a pena e o medo, permitindo que o público compreenda suas dores sem necessariamente concordar com suas atitudes. Ao seu lado, Diana Silvers entrega uma Maggie convincente, equilibrando a vulnerabilidade de uma adolescente recém-chegada à cidade com a maturidade necessária para perceber que algo está fora do lugar antes dos demais. A personagem funciona como a principal âncora emocional da trama e Silvers consegue construir essa jornada de forma natural, sem exageros. Mesmo com participações relativamente pequenas, Juliette Lewis, Luke Evans e Missi Pyle também se destacam. São atores que carregam consigo arquétipos bastante reconhecíveis e utilizam essa bagagem a favor do filme, imprimindo personalidade e identidade a personagens que poderiam facilmente passar despercebidos. Com pouco tempo de tela, conseguem deixar claras suas motivações, defeitos e posições dentro daquela comunidade, fortalecendo a sensação de que o passado compartilhado entre eles é muito mais complexo do que inicialmente parece.

Ma é um filme que funciona muito melhor por suas ideias e por sua protagonista do que propriamente pela execução de sua história. A premissa é extremamente forte ao acompanhar uma mulher marcada por traumas, humilhações, rejeição social e preconceitos que encontra nos filhos de seus antigos algozes a oportunidade perfeita para confrontar os fantasmas que a acompanham desde a adolescência. O longa acerta ao mostrar que Sue Ann está longe de ser uma pessoa inocente, mas também deixa claro que sua transformação não surgiu do nada. Racismo, bullying, negligência escolar e anos de isolamento ajudaram a construir alguém incapaz de lidar de forma saudável com a própria dor. Nada justifica suas ações, mas a obra consegue explorar com eficiência como feridas ignoradas podem crescer até consumir completamente uma pessoa. Infelizmente, o roteiro perde parte dessa força conforme avança, acumulando conveniências e situações que parecem simplesmente ser esquecidas, como se determinados acontecimentos deixassem de existir quando deixam de ser úteis para a trama.

Ainda assim, é impossível ignorar o quanto Octavia Spencer eleva o material. Sua interpretação transforma Sue Ann em uma antagonista memorável, capaz de despertar desconforto, pena, medo e até compreensão em diferentes momentos. Quando o filme funciona, quase sempre é por causa dela. Entre acertos e tropeços, Ma encontra espaço como um terror psicológico competente, desconfortável e bastante divertido, que consegue discutir as consequências do preconceito e da exclusão sem abandonar sua vocação para o entretenimento. Talvez seus problemas impeçam que alcance todo o potencial de sua proposta, mas a força de sua personagem principal e a maneira como transforma um trauma escolar em uma espiral de obsessão e vingança fazem dele uma obra difícil de esquecer. E, considerando seu orçamento modesto e a identidade peculiar que construiu ao longo dos anos, não seria surpreendente vê-lo conquistar cada vez mais espaço como um cult moderno do gênero.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.