Nota
4

“Quando ela entra em coma, as hienas adentram.”

Durante uma visita ao pai, internado em um hospital em São Paulo em 2021, a jornalista Camila Appel percebeu uma movimentação intensa de seguranças no quarto ao lado. A curiosidade sobre quem mobilizava tamanha estrutura a levou a iniciar uma investigação que a conduziria cada vez mais fundo na história de Anita Harley, empresária e principal acionista das Casas Pernambucanas, e na guerra judicial travada ao seu redor pela curatela vital e pelo controle de uma das mais poderosas empresas brasileiras. A série documental explora o complexo e controverso caso envolvendo Anita, utilizando o acidente vascular cerebral que a colocou em coma, em 2016, como ponto de partida para uma disputa bilionária marcada por conflitos sucessórios e pelo reconhecimento de vínculos afetivos. Entre documentos, depoimentos, bastidores e versões frequentemente contraditórias, a narrativa apresenta personagens que reivindicam espaço na vida e no patrimônio da empresária. O resultado é uma história que entrelaça poder, identidade, justiça, relações socioafetivas e interesses econômicos, deixando para o público a tarefa de construir suas próprias conclusões em um caso onde talvez não exista uma verdade absoluta.

Com direção de Camila Appel e Dudu Levy, a série é uma produção documental brasileira que estreou em 23 de fevereiro de 2026 no Globoplay. Pegando o público de surpresa, rapidamente se tornou um dos conteúdos mais assistidos da plataforma, alcançando uma marca inédita para o streaming nacional e consolidando-se como um dos maiores sucessos recentes do formato. De maneira extremamente eficiente, o roteiro assinado por Camila Appel, Ricardo Calil e Iuri Barcellos transforma um caso jurídico complexo em uma história acessível, dinâmica e repleta de tensão dramática, construindo uma espécie de verdadeiro Game of Thrones da vida real. Merecidamente líder de audiência no Globoplay, o documentário impulsionou o interesse do público pela repercussão do caso real e dominou conversas nas redes sociais. Com cinco episódios de cerca de 60 minutos, a obra equilibra rigor jornalístico e envolvimento dramático, organizando uma trama intrincada e cheia de reviravoltas com impressionante clareza. O resultado é uma novela da vida real com narrativa fluida e sofisticada, capaz de transformar um gênero frequentemente rejeitado pelo grande público em uma experiência praticamente imperdível.

Essa verdadeira “briga pelo trono” é protagonizada principalmente por três nomes: Sônia Soares, Arthur Micelli e Cristine Rodrigues. Sônia, mais conhecida como Suzuki, ocupa o centro da disputa pela curatela. Durante décadas, foi conhecida publicamente como dama de companhia de Anita Harley e viveu ao lado da empresária por quase 40 anos. No entanto, após Anita entrar em coma, Suzuki passou a assumir publicamente uma relação íntima com ela, apresentando-se como sua esposa secreta. Cristine Rodrigues surge como sua principal opositora. Funcionária da família desde antes de Anita conhecer Suzuki, ela trabalhou para Dona Helena, mãe da empresária, e permaneceu ao seu lado após a sucessão no comando das Casas Pernambucanas. Anita deixou para Cristine um testamento vital que lhe concedia amplos poderes em caso de incapacidade, documento que se tornou um dos principais pontos de debate da disputa judicial. A situação ganha contornos ainda mais complexos quando Cristine também passa a reivindicar o reconhecimento de uma união estável com Anita, contando inclusive com o apoio de parte da família. O terceiro herdeiro dessa disputa é Arthur Micelli, filho biológico de Suzuki, que busca reconhecimento como filho socioafetivo da empresária. Sua reivindicação acaba colocando mãe e filho em lados opostos do conflito e abre espaço para a ascensão de Daniel Silvestri, advogado que inicialmente atua ao lado de Arthur e chega a assumir posição de destaque na administração das Casas Pernambucanas, mas que posteriormente rompe com o jovem e passa a apoiar Suzuki. Como se toda essa disputa já não fosse suficiente para prender a atenção do público, duas figuras acabam roubando a cena ao longo dos episódios: Julliana e Andrea Lundgren, primas de Anita que surgem comentando os bastidores da família com um misto de sinceridade, ironia e acidez. O carisma das duas foi tão grande que rapidamente as transformou em algumas das presenças mais marcantes da docussérie.

A grande força de O Testamento: O Segredo de Anita Harley está na forma como sua montagem organiza uma história extremamente complexa sem jamais entregar respostas definitivas. A cada episódio, novos documentos, depoimentos e versões surgem para desafiar aquilo que o público acreditava ser verdade, transformando a experiência em um constante exercício de revisão de perspectivas. Poucas vezes um documentário consegue fazer o espectador mudar de opinião tantas vezes ao longo de sua duração. Personagens que inicialmente parecem vítimas ganham contornos mais ambíguos, enquanto figuras apresentadas como oportunistas revelam motivações que tornam impossível enxergar a disputa em preto e branco. Ninguém surge como completamente inocente ou totalmente culpado, e talvez seja justamente essa zona cinzenta que torne a narrativa tão fascinante. Ao mesmo tempo, a produção nem sempre consegue equilibrar a enorme quantidade de informações que apresenta. Em determinados momentos, surgem tantos nomes, processos e reviravoltas que acompanhar todos os detalhes se torna um desafio, especialmente para quem não possui familiaridade com disputas sucessórias e questões empresariais.

Algumas discussões jurídicas importantes também acabam recebendo menos aprofundamento do que mereciam, possivelmente por limitações legais enfrentadas pela própria produção, deixando dúvidas sobre o papel de personagens relevantes, especialmente os sobrinhos de Anita, os herdeiros de Robert Harley Junior e os filhos de Christina Harley. Ainda assim, o resultado é hipnotizante. Existe uma energia pesada que permeia toda a história, uma sensação constante de que todos estão disputando espaço ao redor de alguém que não pode falar por si mesma. É o tipo de narrativa tão absurda e cheia de reviravoltas que parece saída da imaginação de um novelista, mas que ganha força justamente por ser real. Não surpreende que a série tenha despertado verdadeira obsessão em parte do público, nem que figuras como Andrea e Julliana Lundgren tenham conquistado tamanho carinho dos espectadores ao funcionarem como observadoras perspicazes desse tabuleiro caótico. Ao final, permanece a mesma sensação compartilhada por muitos que acompanharam o caso: a de que nenhum desfecho seria mais surpreendente do que Anita despertar e revelar sua própria versão dos fatos. Até lá, o documentário permanece como um retrato envolvente, inquietante e extraordinariamente bem construído de uma disputa em que a verdade parece pertencer a todos e a ninguém ao mesmo tempo.

“É uma novela mexicana, isso”

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.