Nota
4

“Controle o passado. Controle o futuro. Essa é a chave de tudo.”

No início do século XXII, o mundo está à beira de um colapso ambiental. Ar poluído, chuvas ácidas, montanhas de lixo, superpopulação e o esgotamento dos recursos naturais condenam a humanidade a um futuro sem perspectivas. A esperança surge na forma de Terra Nova, quando uma ruptura no espaço-tempo permite viajar 85 milhões de anos ao passado, em pleno período Cretáceo, oferecendo à espécie humana a chance de recomeçar sua civilização. Em 2149, Elisabeth Shannon, uma renomada cirurgiã, é selecionada para integrar a equipe médica da décima peregrinação rumo à primeira colônia humana desse novo mundo. O problema é que sua família vive escondendo um segredo: contrariando a rígida política que limita os casais a apenas dois filhos, ela e o marido, Jim, tiveram Zoe clandestinamente. Descoberto pelas autoridades, Jim é condenado a seis anos de prisão, mas consegue fugir para acompanhar a esposa e os três filhos na viagem ao passado, levando Zoe escondida para Terra Nova. Ao chegarem à colônia, os Shannon logo descobrem que recomeçar a humanidade está longe de ser uma tarefa simples. Cercados por dinossauros e por um ambiente selvagem, eles também passam a conviver com disputas políticas, segredos que cercam a fundação da colônia e a liderança do comandante Nathaniel Taylor, o primeiro homem a atravessar o portal temporal e responsável por comandar Terra Nova há sete anos.

Terra Nova é um exemplo claro de como vender facilmente uma série: basta unir um futuro catastrófico praticamente pós-apocalíptico, dinossauros, sobrevivência e, principalmente, o nome de Steven Spielberg, que é produtor executivo do show, para despertar a curiosidade do público. Rapidamente apelidada de “a nova Lost”, a produção lembra um filho da união entre Jurassic Park e A.I. Inteligência Artificial, embora opte por uma narrativa muito mais direta do que a série com a qual foi constantemente comparada. Criada por Kelly Marcel e Craig Silverstein, com Brannon Braga e René Echevarria como showrunners, a série conquistou rapidamente a confiança da Fox, que tomou a rara decisão de encomendar uma temporada completa antes mesmo da exibição do episódio piloto. Exibida a partir de setembro de 2011, a primeira temporada conta com treze episódios de cerca de 44 minutos, filmados na Austrália em uma produção estimada em aproximadamente US$ 20 milhões apenas para o piloto, segundo a agência EFE. Os cenários naturais, a direção de arte e os efeitos visuais ajudam a criar um mundo convincente, povoado por florestas exuberantes, criaturas pré-históricas e paisagens impressionantes. No entanto, conforme os episódios avançam, fica claro que os dinossauros são apenas parte da ameaça. A própria Terra Nova passa a revelar seus segredos, expondo conflitos políticos, disputas de poder, interesses ocultos e questionamentos sobre as verdadeiras intenções do comandante Nathaniel Taylor e da misteriosa organização dos Sextos. Aos poucos, a série deixa de ser apenas uma aventura de sobrevivência para discutir até que ponto uma sociedade realmente consegue construir um novo começo sem repetir os mesmos erros que destruíram o velho mundo.

Jason O’Mara e Stephen Lang surgem como os principais motores da trama, ainda que Terra Nova conte com um elenco coeso, em que praticamente todos os personagens ocupam uma gigantesca zona cinzenta. O’Mara constrói um Jim Shannon forte, impulsivo e disposto a fazer qualquer coisa para proteger sua família, mas que rapidamente se vê transformado em uma peça importante no conflito entre os dois lados da colônia. Enquanto Mira tenta manipulá-lo para enfraquecer Terra Nova, Jim também se torna o braço direito de Nathaniel Taylor, posição que o obriga a questionar constantemente se pode confiar nas decisões de seu líder ou se está apenas ajudando a manter uma versão diferente do mesmo sistema que destruiu o futuro. Stephen Lang, por sua vez, entrega um Nathaniel Taylor que lembra, em alguns momentos, a imponência militar do Coronel Miles Quaritch, personagem que o ator havia interpretado em Avatar, mas sem cair em um maniqueísmo simples. Taylor é um líder disposto a tomar decisões moralmente questionáveis em nome do bem coletivo, fazendo o espectador oscilar o tempo inteiro entre admiração e desconfiança. Christine Adams completa esse jogo de ambiguidades ao interpretar Mira, a líder dos Sextos. À medida que a temporada avança, a personagem deixa de ser apenas uma antagonista para revelar motivações muito mais complexas do que a narrativa inicialmente sugere, funcionando como um contraponto constante ao discurso de Taylor e levantando dúvidas sobre quem realmente está dizendo a verdade. Esse equilíbrio entre diferentes perspectivas faz com que a série mantenha viva sua principal força: a sensação de que ninguém possui toda a razão e de que compreender o passado de Taylor, a origem dos Sextos, o mistério envolvendo Lucas Taylor e os acontecimentos de Hope Plaza é tão importante quanto sobreviver aos perigos do mundo pré-histórico.

Com uma direção segura e uma produção extremamente ambiciosa para a televisão da época, Terra Nova impressiona pela qualidade de seus efeitos visuais, pela construção dos cenários naturais australianos e, principalmente, pelo excelente design de seus dinossauros. Embora o CGI revele pequenas limitações em alguns momentos, o trabalho de direção consegue transmitir constantemente a sensação de que a humanidade realmente voltou a habitar um mundo dominado por criaturas pré-históricas. Com claras inspirações em obras como Lost e A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne, a série equilibra aventura, ficção científica, mistério e drama familiar, alternando momentos de ação intensa com conspirações políticas e conflitos domésticos que ajudam a humanizar seus personagens. Esse potencial ficou evidente antes mesmo da estreia, quando a produção foi eleita uma das séries inéditas mais promissoras no Critics’ Choice Television Awards de 2011. Infelizmente, o enorme investimento necessário para produzir cada episódio acabou se tornando seu maior obstáculo. Apesar da boa recepção da crítica, da rentabilidade e de reunir milhões de espectadores ao redor do mundo, a audiência ficou abaixo das expectativas da Fox para justificar um projeto tão caro, levando ao cancelamento da série poucos meses após sua estreia. O resultado é uma primeira temporada que consegue encerrar seu principal conflito, mas deixa diversos mistérios envolvendo Terra Nova, Lucas Taylor e o verdadeiro futuro da colônia apontando para uma segunda temporada que jamais aconteceu. Ainda assim, permanece como um raro exemplo de ficção científica televisiva que ousou pensar grande, criando um universo fascinante que, infelizmente, teve sua evolução interrompida muito antes de alcançar todo o seu potencial.

“-Não é disso que se trata Terra Nova. Nem agora e nem nunca.
-Então do que se trata Terra Nova, afinal?”

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.