Nota
“Quem será capaz de enfrentar o temido Toni Tora Pleura?”
Na década de 1980, Aluísio Li é um jovem do interior do Ceará completamente apaixonado pelos filmes de artes marciais de Hong Kong. Fã incondicional de Bruce Lee, ele passa os dias sonhando em se tornar um grande lutador, mesmo sem nunca ter aprendido qualquer técnica de combate. Enquanto isso, o ex-lutador profissional Toni Tora Pleura percorre o sertão desafiando valentões e promovendo disputas de vale-tudo que rapidamente se tornam o principal entretenimento da região. Convencido de que nasceu para seguir o caminho dos heróis que tanto admira, Aluísio decide enfrentar seu maior desafio, iniciando uma jornada de superação onde a paixão pelo cinema, a amizade e a coragem passam a valer tanto quanto a força física.

Lançado em 2016 e dirigido por Halder Gomes, O Shaolin do Sertão nasce de uma ideia tão improvável quanto irresistível: imaginar um filme de artes marciais ambientado no interior nordestino. A proposta poderia facilmente soar como uma simples paródia, mas o diretor encontra um equilíbrio curioso entre a comédia regional, a homenagem aos clássicos do kung fu e o cinema popular brasileiro. O resultado é uma obra que abraça o absurdo desde o primeiro minuto e consegue transformar referências a Bruce Lee, Jackie Chan e aos filmes de Shaw Brothers em algo genuinamente cearense. Existe um carinho evidente pela cultura nordestina e pelo imaginário das pequenas cidades, onde os “grandes mestres” muitas vezes são apenas figuras folclóricas conhecidas por toda a população. De forma inesperada, o longa começa a se enveredar praticamente como se fosse um Kung-Fusão brasileiro com alma de cordel.
Boa parte desse sucesso está no roteiro, que entende perfeitamente a estrutura clássica da jornada do herói. Aluísio atravessa praticamente todas as etapas esperadas desse tipo de narrativa, passando pelo chamado à aventura, pelos fracassos, pelo treinamento e até por uma divertida inversão da figura do mentor. O personagem acredita encontrar seu mestre ideal, apenas para descobrir que as maiores lições surgem justamente de quem menos parecia preparado para ensiná-lo. É uma construção simples, mas eficiente, que ajuda o público a comprar facilmente a evolução do protagonista. Edmilson Filho conduz o filme com enorme carisma. Sua interpretação faz de Aluísio um personagem ingênuo, apaixonado e extremamente fácil de acompanhar, funcionando como uma homenagem aos protagonistas dos filmes de kung fu que moldaram sua infância. Falcão também encontra espaço para roubar diversas cenas com seu humor característico, enquanto Frank Menezes entrega um antagonista que equilibra ameaça e exagero na medida certa. O elenco de apoio ainda conta com nomes bastante conhecidos do humor brasileiro, como Dedé Santana, cuja participação reforça o clima nostálgico da produção e aproxima ainda mais o filme da tradição da comédia popular nacional.

O humor talvez seja seu maior acerto. Quase todas as piadas encontram o timing certo e a naturalidade dos diálogos impede que a obra se torne apenas uma sequência de esquetes. Mesmo quando aposta no absurdo, o roteiro mantém seus personagens coerentes com aquele universo, permitindo que a comédia surja das situações e não apenas das caricaturas. Essa combinação faz com que O Shaolin do Sertão mantenha um ritmo leve durante boa parte de sua duração e transforme sua premissa improvável em algo surpreendentemente envolvente. Ainda assim, nem tudo funciona com a mesma eficiência. A produção carrega algumas marcas bastante características das comédias produzidas em parceria com a Globo Filmes. Em determinados momentos, o roteiro segue fórmulas excessivamente conhecidas, algumas situações se alongam além do necessário e o terceiro ato perde parte do fôlego conquistado anteriormente. A luta final, que deveria representar o grande ápice emocional da narrativa, acaba se estendendo mais do que deveria, reduzindo parte do impacto que vinha sendo construído ao longo do filme. O desfecho transmite a sensação de que algumas ideias poderiam ter sido resolvidas de maneira mais objetiva.
Mesmo assim, é difícil não simpatizar com o projeto. O Shaolin do Sertão funciona porque nunca tenta esconder sua simplicidade. Sua fotografia valoriza as paisagens nordestinas, a direção entende o tom da história e o elenco claramente se diverte com o que está fazendo. Acima de tudo, existe um carinho enorme pelo cinema de artes marciais e pela cultura popular brasileira, duas paixões que raramente dividem espaço na mesma produção. Talvez não seja um filme revolucionário e certamente compartilhe muitos vícios das comédias nacionais de grande circuito, mas sua criatividade, seu bom humor e o carisma de seus personagens fazem com que a experiência seja constantemente divertida. No fim, o sertão prova que também pode produzir seus próprios heróis de kung fu, mesmo que eles lutem muito mais com coração do que com técnica.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.