Nota
O sucesso avassalador do body horror contemporâneo deixou rastros evidentes no cinema recente. Em Insaciável, a diretora Natalie Erika James tenta abertamente pegar carona na estética do gore satírico e na vaidade tóxica que consagraram produções como A Substância. No entanto, ao tentar equilibrar a obsessão moderna pelo corpo perfeito com uma trama absurdamente macabra, o longa erra a mão no tom. O resultado abandona o choque grotesco pretendido e mergulha em uma comédia involuntária que funciona como uma amostra grátis dos efeitos colaterais do Ozempic acompanhada por um encosto espiritual de brinde.

A trama acompanha Hana (Midori Francis), uma estudante de medicina assombrada há anos pela insatisfação com a própria imagem corporal. Influenciada por uma amiga que perdeu peso de forma milagrosa, Hana decide ingressar em um tratamento clandestino baseado em pílulas que prometem resultados instantâneos. O detalhe bizarro da receita? As cápsulas são produzidas a partir de cinzas humanas. Disposta a ignorar o absurdo ético e sanitário da situação em nome da magreza, a jovem começa a tomar o composto e logo descobre que a substância derrete os quilos ao mesmo tempo em que atrai uma presença sobrenatural faminta para a sua rotina.
O roteiro falha no momento em que tenta construir o horror através do exagero estético. Em vez de provocar repulsa legítima ou reflexão sobre os transtornos alimentares, as cenas em que Hana devora coisas e entra em colapso físico são encenadas com uma dramaticidade tão carregada que arrancam risos da plateia. A entidade provocada pelas cinzas manifesta sua presença de formas absurdamente literais, transformando a paranoia da protagonista em situações dignas de um pastelão B.
A atuação de Midori Francis é esforçada, mas prejudicada por uma direção que exige gravidade em meio a situações totalmente fora da realidade. Suas crises e as interações com amigas como Josie (Danielle Macdonald) e Alanya (Madeleine Madden) soam cômicas justamente porque o elenco precisa reagir com seriedade absoluta a efeitos visuais e sonoros exagerados. O personagem Travis (Robert Taylor) surge apenas para cumprir tabela e servir de testemunha pontual em sequências que não sustentam qualquer tipo de tensão.

No aspecto técnico, a fotografia tenta simular o ambiente asséptico e frio dos consultórios, criando um contraste interessante nos minutos iniciais. Contudo, essa escolha visual logo se perde na montagem caótica, que abusa de enquadramentos aproximados e ruídos de mastigação amplificados ao extremo. Em vez de causar incômodo psicológico no espectador, o excesso de ruídos estridentes transforma a experiência em um cansaço auditivo desnecessário.
Insaciável perde a chance de fazer uma crítica acida à era dos remédios milagrosos e à obsessão pelo corpo ideal. Ao escolher o caminho do espetáculo fácil sem o rigor narrativo necessário para sustentar o horror corporal, o longa se consolida como um exercício curioso e involuntariamente divertido. Para quem busca um suspense perturbador sobre os limites da vaidade humana, a decepção é certa; já para quem assiste disposto a rir dos absurdos de uma dieta à base de cinzas e assombrações, a sessão entrega boas pérolas.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.