Nota
4

É inacreditável pensar que a Warner Bros. quase engavetou este filme para conseguir abatimento de impostos. Coyote vs. Acme, dirigido por Dave Green, não é apenas um tributo impecável aos desenhos clássicos dos Looney Tunes; é uma das comédias corporativas e tribunalícias mais inteligentes, divertidas e surpreendentemente bem construídas do cinema recente. O longa pega a piada clássica do Coyote frustrado e a transforma em uma sátira mordaz sobre o capitalismo selvagem e a ganância das grandes corporações.

A trama acompanha Wile E. Coyote após mais uma das suas tentativas fracassadas de capturar o Papaléguas. Cansado de ter produtos defeituosos explodindo em sua cara, ele decide contratar um advogado azarado e de segunda categoria, vivido por Will Forte, para processar a todo-poderosa Corporação ACME. O caso ganha proporções gigantescas quando atrai a atenção do implacável advogado de defesa da empresa, interpretado por John Cena com um nível de entrega e ritmo cômico sensacionais.

O ponto forte do roteiro é a maneira como ele mistura o absurdo do mundo dos desenhos animados com as regras rígidas da vida real. O filme trata as leis da física dos Looney Tunes com uma gravidade jurídica fascinante: ver uma corte discutir formalmente a taxa de falha de uma bigorna voadora ou a aerodinâmica de um patim a jato é o humor em sua melhor forma. A integração entre a animação 2D tradicional do Coyote e os cenários e atores em live-action funciona perfeitamente, resgatando a magia e o peso tátil que marcaram clássicos como Uma Cilada para Roger Rabbit.

A narrativa ganha camadas valiosas no momento em que utiliza o tribunal como palco para expor a negligência sistemática de megaempresas no mundo real. Ao transformar as falhas catastróficas dos produtos da ACME em evidências judiciais, a história traça um paralelo afiado com escândalos corporativos de recalls ocultados e lucros colocados acima da segurança do consumidor. Esse texto espertíssimo permite que o filme converse simultaneamente com crianças, entusiasmadas pelas peripécias físicas, e com adultos, que captam as alfinetadas sociais embutidas nos depoimentos de peritos e executivos.

Will Forte e John Cena entregam performances impecáveis. Forte traz um carisma vulnerável que faz o público torcer genuinamente pela dupla de fracassados, enquanto Cena abraça o deboche ao interpretar um executivo engomado que defende os absurdos da ACME com uma seriedade hilária. A dinâmica entre o silêncio expressivo do Coyote e o desespero do seu advogado gera momentos de comédia visual que funcionam para todas as idades, sem apelar para piadas fáceis.

A sonoplastia também desempenha um papel crucial para o sucesso da narrativa, resgatando com fidelidade cirúrgica os efeitos sonoros originais idealizados por Treg Brown na era de ouro das animações. Cada apito de rojão, barulho de mola comprimida e estrondo de colisão carrega uma nostalgia imediata que amplia o tempo das piadas visuais. A trilha sonora original complementa a produção ao alternar marchas orquestrais pomposas para as sessões do júri e composições dinâmicas para as perseguições, garantindo uma cadência energética constante.

Visualmente, a direção de fotografia acerta ao trazer uma paleta que evoca o deserto clássico de Chuck Jones, mas com o enquadramento elegante de um drama de tribunal. O ritmo da montagem funciona do início ao fim, alternando entre o pastelão físico perfeitamente coreografado e os embates de oratória na sala do juiz com uma fluidez admirável.
Coyote vs. Acme prova que a criatividade e o respeito pelo material original ainda conseguem operar milagres em Hollywood. Surpreendente, caloroso e absurdamente engraçado, o longa faz justiça ao azarado mais amado da animação e entrega uma das melhores sessões do ano. Se a ACME vendeu defeito durante décadas, o filme passa longe disso: é qualidade garantida do início ao fim.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.