Nota
“Meu sangue, seu sangue, nosso sangue.”
Há mais de trezentos anos, Maria Owens foi acusada de bruxaria e, depois de sobreviver a uma tentativa de execução, foi abandonada grávida por seu amante. Em meio à dor de ter seu coração partido, Maria lançou um feitiço para nunca mais se apaixonar, uma maldição que passou a perseguir todas as suas descendentes. Desde então, toda vez que uma das mulheres Owens se apaixona, o homem morre de maneira trágica. Anos depois, Regina Owens morre de desgosto após a morte de seu amado Jack, deixando as filhas, Sally e Gillian, para serem criadas pelas tias, Frances Owens e Bridget “Jet” Owens, que já aceitaram a maldição e passaram a viver solteiras, fazendo bruxaria sob demanda para pessoas da cidade que as procuram secretamente para conseguir feitiços, mas publicamente demonstram desprezo e ódio pela família de bruxas. É nesse ambiente que as irmãs crescem, fazendo com que Sally se afaste da magia, eventualmente se apaixone por Michael e tenha duas filhas, enquanto Gillian decide viver o momento, saindo pelo mundo em busca de amores passageiros e muita curtição. A vida das irmãs, porém, muda completamente quando, após a morte trágica de Michael, Sally precisa resgatar Gillian de seu namorado abusivo, Jimmy Angelov, eventualmente matando-o por legítima defesa, duas vezes, e tendo que lidar com Gary Hallet, um detetive atraído até a casa das Owens enquanto investiga o desaparecimento de Angelov.

Baseado no livro homônimo de Alice Hoffman, o longa dirigido por Griffin Dunne a partir de um roteiro adaptado por Robin Swicord, Akiva Goldsman e Adam Brooks mistura fantasia sobrenatural, drama sobre abuso doméstico, comédia romântica e suspense policial, inicialmente parecendo uma confusão de tramas ao juntar os dilemas de Sally com a investigação de Gary e a perseguição que as irmãs passam a sofrer com o ressurgimento de Jimmy Angelov, que precisa ser morto em legítima defesa pela terceira vez. Se a confusão está no ar, a ordem cai nas mãos de Sandra Bullock e Nicole Kidman, que, no papel das irmãs Owens, roubam a cena e conseguem cativar o espectador, fazendo com que torçamos para que suas histórias terminem bem. Principalmente quando, de uma forma extremamente caricata, diga-se de passagem, é revelado que Gary tem um olho verde e outro azul e uma fixação por estrelas, criando uma bela conexão com uma cena da infância das irmãs. O roteiro pode até parecer espalhado em determinados momentos, mas consegue amarrar suas diferentes tramas de maneira surpreendentemente eficiente.
Sandra Bullock entrega uma Sally complexada, que tenta a todo custo ser aceita pela população do seu bairro e superar os preconceitos associados ao seu sobrenome, ao mesmo tempo que busca impedir que as filhas sigam o caminho da magia, tão comum entre as descendentes Owens. Ela abandona a magia e não permite que as meninas a pratiquem, mas é justamente por isso que se torna tão divertido observar como a magia continua fazendo parte de seu cotidiano, mesmo que involuntariamente, enquanto ela realiza pequenas mágicas sem perceber para facilitar sua rotina. Nicole Kidman, por outro lado, constrói Gillian Owens como um espírito livre que abraça sua herança, deixa a pequena cidade onde cresceu e não pensa duas vezes antes de recorrer a magias e poções para se tornar o centro das atenções e deixar os homens aos seus pés. O problema surge quando ela se apaixona por Angelov e acaba se tornando vítima de um relacionamento abusivo, colocando sua postura de desapego diante de uma contradição dolorosa. Aidan Quinn, no papel de Gary Hallet, entrega bastante mistério ao personagem, mantendo em dúvida o que realmente procura e o quanto Sally e Gillian estão em risco, principalmente quando a moralidade de Sally a coloca em situações complicadas por sua incapacidade de mentir para o detetive. O humor ganha força com Stockard Channing como Frances Owens, a tia mais franca e assertiva, e Dianne Wiest como Jet Owens, a mais gentil e afetuosa, formando uma dupla que ajuda a equilibrar o drama das irmãs com o tom fantasioso e irreverente da narrativa.

Apesar dos problemas, Da Magia à Sedução funciona justamente porque abraça sua mistura de gêneros e coloca a relação entre as mulheres Owens no centro, mesmo quando o roteiro exagera no melodrama e nas conveniências. Lançado em 16 de outubro de 1998, o filme não se pagou e recebeu críticas mistas em seu lançamento, mas envelheceu maravilhosamente, conquistando um status cult ao longo do tempo, principalmente por seu elenco, sua trilha sonora e seus temas feministas. Da Magia à Sedução é uma história sobre sororidade, seja pela relação poderosa entre as Owens, pela força da linhagem de Maria Owens através de suas descendentes ou pela poderosa cena final, que mostra o quanto mulheres unidas podem alcançar um poder inimaginável. À frente de seu tempo, o longa aborda temas que poderiam até parecer incomuns na época de seu lançamento, mas que ganham novos significados quando revisitados nos dias atuais, o que pode ser justamente um dos motivos de sua longevidade. Apesar de confusa e caricata em vários momentos, a obra vai muito além de margaritas à meia-noite. É uma ode ao poder das mulheres que sempre foram caçadas pelos homens, sejam elas bruxas ou simplesmente livres.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.