Nota
3.5

Annie Braddock acabou de se formar na faculdade e, sem saber exatamente o que fazer da própria vida ou quem ela é, aceita trabalhar como babá de uma família milionária de Manhattan. O que parecia ser apenas um emprego temporário, para juntar dinheiro e decidir seu futuro, rapidamente se transforma em uma experiência caótica quando ela precisa lidar com Grayer, um garoto carente e mimado por quem começa a se apegar, e com seus pais, que ela apresenta apenas como Sr. e Sra. X. Enquanto a mãe vive obcecada pela própria imagem, pelas aparências e pelas obrigações sociais, o pai praticamente terceiriza a criação do filho para a esposa e para a babá. No meio desse universo de luxo, negligência emocional e regras absurdas, Annie começa a perceber que cuidar de Grayer significa muito mais do que seguir uma lista de tarefas. Ao mesmo tempo, ela encontra uma possível válvula de escape no Bonitão de Harvard, um jovem que mora no mesmo prédio e com quem começa a desenvolver uma relação. Entre as exigências cada vez mais absurdas da família X e suas próprias dúvidas sobre o futuro, Annie precisa descobrir até onde está disposta a entrar naquele mundo sem acabar se tornando parte dele.

Baseado no livro homônimo de Emma McLaughlin e Nicola Kraus, O Diário de uma Babá mistura comédia dramática, romance e uma boa dose de crítica social para transformar a experiência de uma jovem recém-formada em uma espécie de mergulho no mundo dos milionários de Manhattan. O filme funciona justamente por não tratar seus personagens ricos apenas como pessoas privilegiadas, mas como indivíduos completamente desconectados das consequências de suas próprias escolhas. Existe algo particularmente irritante na forma como os X tratam Annie, principalmente porque o dinheiro permite que transformem qualquer problema em uma tarefa para outra pessoa resolver. A Sra. X, interpretada por Laura Linney, é ao mesmo tempo odiosa e patética, uma mulher obcecada pela própria imagem e tão preocupada em parecer uma mãe perfeita que sequer consegue perceber o quanto negligencia o próprio filho. Paul Giamatti está simplesmente repugnante como o Sr. X, construindo um personagem que representa perfeitamente o poder masculino exercido dentro daquele ambiente de luxo. O filme não precisa transformar a família em vilões caricatos porque a própria realidade deles já é suficientemente absurda.

Scarlett Johansson sustenta Annie com uma naturalidade que combina perfeitamente com a proposta do longa. Ela consegue transitar entre o humor, a irritação e a vulnerabilidade de uma personagem que está tentando se descobrir enquanto se vê presa às necessidades de uma família que não valoriza seu trabalho. A relação com Grayer também é importante porque impede que a história seja apenas uma sucessão de situações envolvendo adultos ricos e insuportáveis. O garoto começa como mais uma criança mimada, mas rapidamente fica evidente que boa parte de seu comportamento nasce da ausência dos pais, fazendo Annie assumir involuntariamente um papel que nunca deveria ter sido dela. Chris Evans, por sua vez, aparece como uma espécie de contraponto ao universo dos X e funciona muito bem ao lado de Johansson. Os dois possuem uma química natural, e o romance consegue ser leve sem engolir a trama principal. O elenco ainda conta com Alicia Keys, que interpreta Lynette, amiga de Annie e uma presença importante para manter a protagonista conectada com sua própria realidade.

O grande mérito de O Diário de uma Babá está na maneira como consegue construir sua crítica sem abandonar o caráter de comédia dramática bonitinha que sustenta a experiência. O filme tem algo de conto de amadurecimento, acompanhando uma jovem que entra em um universo completamente diferente do seu e começa a perceber que dinheiro não compra afeto, responsabilidade ou felicidade. Algumas situações são exageradas e determinadas relações poderiam receber mais desenvolvimento, mas a estrutura funciona porque existe uma certa satisfação em assistir às pequenas humilhações da família X, especialmente quando o roteiro coloca em evidência o absurdo de pessoas com dinheiro praticamente infinito serem incapazes de cuidar dos próprios filhos. É quase um filme obrigatório para toda dondoca que acredita que contratar alguém significa terceirizar completamente a responsabilidade de ser mãe. O longa está longe de ser uma obra-prima, mas é uma produção simpática, bem construída e muito eficiente dentro daquilo que se propõe a fazer. Seu maior problema está justamente em algumas soluções fáceis, mas existe uma sinceridade na jornada da protagonista que impede tudo de parecer vazio. No final das contas, O Diário de uma Babá é uma comédia dramática leve sobre amadurecimento, desigualdade e responsabilidade, que consegue fazer rir enquanto provoca aquela inevitável vontade de perguntar: como é que essa gente consegue ser tão rica e tão incapaz de cuidar da própria vida?

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.