Nota
3.5

“Vai definir a guerra. Milhares de vidas dependem disso. Preciso de uma previsão.”

Em 1944, no auge da Segunda Guerra Mundial, os Aliados se preparam para invadir a Europa ocupada pelos alemães durante a Operação Overlord. Sob o comando do General Dwight D. Eisenhower, a invasão está marcada para 5 de junho, data que promete entrar para a história como o “Dia D”, com múltiplos desembarques anfíbios na Normandia, França. Consciente da magnitude da operação e ainda atormentado pelo fracasso do exercício preparatório para a invasão, o Exercício Tiger, realizado seis semanas antes, Eisenhower decide ser cauteloso e convoca o meteorologista escocês Capitão de Grupo James Stagg. Instalado na Southwick House, ele terá 61 horas para observar as condições climáticas e apresentar uma previsão favorável às operações aliadas. O problema é que duas tempestades de baixa pressão se aproximam, criando um embate interno entre os responsáveis pela decisão. Enquanto Stagg contraindica a operação diante das condições climáticas, o Coronel Irving P. Krick, que liderava a seção meteorológica antes de sua chegada, defende que o desembarque deve acontecer. No meio desse conflito, Eisenhower precisa escolher entre a previsão otimista de Krick, sustentada por menos dados, e a análise extremamente cautelosa de Stagg, baseada em um conjunto muito mais amplo de informações.

Baseado na aclamada peça de teatro Pressure, escrita pelo britânico David Haig, somos levados a conhecer o que aconteceu nas tensas 72 horas que antecederam o Dia D na Segunda Guerra Mundial, que historicamente sabemos ter acontecido em 6 de junho de 1944. Ao trazer a tensão da guerra pela perspectiva do meteorologista-chefe da operação, o longa assume aquela proposta de “história real não contada” para mostrar a guerra por um ponto de vista não convencional, menos sanguinário, mas não menos essencial, já que as decisões tomadas naquele período contribuíram para o início do fim do domínio nazista na Europa e para a libertação da França. A trama é adaptada pelo próprio Haig em parceria com Anthony Maras, que também dirige o filme, e consegue transportar para o cinema a força que fez a peça alcançar o reconhecimento que possui. Como se não bastasse um roteiro sólido, a produção encontra em seu elenco protagonista um conjunto de grandes nomes capaz de entregar, de maneira visceral, uma história que prende a atenção. O problema é que justamente seu maior diferencial, contar uma história real por um ponto de vista pouco explorado, acaba esbarrando na própria natureza dos fatos. A previsibilidade se torna um obstáculo inevitável: todos sabemos como aconteceu o Dia D. Talvez muitos tenham esquecido os detalhes, mas sabemos que a invasão aconteceu e foi bem-sucedida. Por isso, é frustrante perceber que o filme se apoia quase inteiramente no questionamento sobre se a grande invasão realmente vai acontecer, quando poderia construir seu clímax a partir daquilo que o público não conhece tão bem, explorando as tensões nos acampamentos de soldados, a acelerada agitação nos bastidores militares da Southwick House ou até mesmo aprofundando a desesperadora situação de Liz Stagg, esposa grávida do meteorologista.

Andrew Scott assume totalmente o protagonismo do filme no papel de Stagg, que entra nessa missão completamente desacreditado por Eisenhower, que só convocou o meteorologista escocês por recomendação do primeiro-ministro britânico Winston Churchill. O grande problema começa quando ele precisa deixar para trás a esposa grávida e passa a ter dificuldade para receber informações sobre ela devido aos protocolos da base, mas o conflito chega ao ápice quando Stagg precisa trabalhar ao lado de Krick, um meteorologista americano que utiliza métodos mais antiquados de previsão e começa a entrar em desacordo com suas análises. O papel desse grande embate fica nas mãos de Chris Messina, que agarra o personagem com unhas e dentes, criando uma tensão palpável em cena. Enquanto Scott apresenta um Stagg claramente seguro de seus cálculos e dados, Messina constrói um Krick solar e confiante em seu método baseado na análise de padrões e ciclos históricos. O filme faz questão de deixar claro que reutilizar mapas meteorológicos antigos que apresentam semelhanças com a situação atual, partindo do princípio de que os futuros desenvolvimentos climáticos provavelmente seguirão padrões registrados anteriormente, é uma forma antiquada de previsão, que depende muito mais da sorte do que de dados confiáveis para antecipar o comportamento do tempo.

Em meio a esse embate está Brendan Fraser, que entrega todas as nuances necessárias para construir um Eisenhower sólido. Ele assume uma espécie de antagonismo dentro da narrativa por ser a única pessoa que Stagg não consegue convencer. Eisenhower confia nas previsões de Krick, até porque trabalha há meses com o americano, mas a chegada de Stagg coloca essa confiança em xeque e tudo se torna ainda mais complicado quando o general precisa lidar com seu próprio “nêmesis”, o General do Exército Britânico Sir Bernard Montgomery. Damian Lewis é irritante na medida certa ao mostrar o quanto Montgomery precisa ser incisivo como Comandante-Chefe do 21º Grupo de Exércitos e Comandante Geral das Forças Terrestres Aliadas. Ele precisa da decisão de Eisenhower para iniciar o Dia D e tem plena consciência de que depende da resolução do embate entre Krick e Stagg para conseguir esse aval. Por isso, pressiona Eisenhower constantemente a tomar uma decisão, criando uma contraparte perfeita para o conflito entre os meteorologistas, só que ainda mais agressiva verbalmente. Fica no ar a sensação de que Montgomery quer tomar a decisão no lugar de Eisenhower, mas se vê obrigado a depender de um superior que considera incapaz de liderá-lo. Kerry Condon completa o núcleo principal como a Primeira-Tenente Kay Summersby, secretária particular e confidente de Eisenhower, que desenvolve empatia pelos problemas pessoais enfrentados por Stagg. Summersby parece enxergar sua dedicação e competência, mas, acima de tudo, compreende a pressão de um meteorologista que precisa apresentar uma previsão confiável em uma situação na qual o próprio clima não oferece nenhuma garantia, enquanto teme pelo que pode acontecer com sua esposa grávida, que corre o risco de ser diretamente afetada pela guerra.

Pressão consegue encontrar um novo ângulo para um dos dias mais dramatizados da história militar ao abandonar os campos de batalha e colocar o peso da Segunda Guerra Mundial diante de mapas meteorológicos, cálculos e decisões tomadas em uma sala. O longa transforma homens que normalmente apareceriam apenas como nota de rodapé em protagonistas de uma história sobre responsabilidade, dúvida e as consequências de uma decisão que poderia custar milhares de vidas. Andrew Scott sustenta esse conflito com uma atuação contida e intensa, enquanto Chris Messina, Brendan Fraser, Damian Lewis e Kerry Condon ajudam a transformar discussões sobre clima em um embate genuinamente cinematográfico. O problema é que a previsibilidade continua sendo seu maior obstáculo, já que sabemos que o Dia D aconteceu e que a previsão de Stagg contribuiu para o adiamento da invasão. Além disso, embora seja baseado em acontecimentos reais, o filme toma diversas liberdades para condensar e dramatizar a história dos meteorologistas da Operação Overlord. Essas mudanças não anulam a força do filme, mas deixam evidente que o longa está mais interessado em transformar a história em um thriller sobre pressão e responsabilidade do que em reproduzir cada detalhe dos acontecimentos. No fim, talvez sua maior vitória esteja justamente em mostrar que uma guerra também pode ser decidida longe das trincheiras, por pessoas que precisam tomar decisões impossíveis enquanto tentam prever aquilo que ninguém consegue controlar.

“As tempestades de que estou falando são reais. E a ira da natureza é real.”

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.