Nota
“Isso aqui é A Bíblia […] Esse livro já ajudou um cara de sorte por ano em Great Falls, e, esse ano, os caras de sorte somos nós.”
Robert “Rob” Shearson, Nathan Jenkyll e Marshall “Lube” Lubetsky são três jovens virgens e infelizes alunos de East Great Falls High que lutam para atravessar a grande passagem para a maturidade que, naquele universo, parece sempre envolver a perda da virgindade, mas tudo parece impossível para eles. Rob é apaixonado por sua amiga Heidi e acaba colocando fogo na biblioteca da escola quando a encontra prestes a perder a virgindade com outro garoto durante uma festa. Nathan vive uma relação aparentemente segura com Dana, que tem um passado devasso, mas recentemente se converteu religiosamente e decidiu manter celibato até o casamento. Lube é o típico excluído da escola, um garoto tímido e constantemente ridicularizado, mas que guarda uma imaginação fértil e uma atração avassaladora por Ashley, uma das principais líderes de torcida do colégio. Em um cenário onde parece que Scott Stifler é o único capaz de conquistar todas as garotas, Rob acaba encontrando, entre os livros danificados pelo incêndio, o lendário Livro do Amor, um manual que reúne décadas de anotações, dicas e experiências deixadas por diversos estudantes que passaram por East Great Falls High. Na esperança de que esse livro finalmente os ajude a chegar aos finalmentes com as garotas que desejam, o trio inicia uma jornada para reencontrar os autores dos conselhos perdidos e descobrir o que ainda lhes falta para deixar a virgindade para trás.

Dez anos se passaram desde que o primeiro American Pie foi lançado, e o sétimo filme da franquia parece tentar quebrar padrões mais uma vez ao apresentar o primeiro longa em que não temos um Stifler no grupo protagonista, mesmo que um representante dessa emblemática família ainda esteja presente na história. Ao mesmo tempo, o filme também se destaca por ser um dos que mais se aprofunda no passado do lendário Noah Levenstein. Apresentado ainda no primeiro filme, quando Kevin Myers pede conselhos ao seu irmão mais velho, Tom, o Livro do Amor retorna agora como o grande objeto central da narrativa. É ao redor dele que a trama se desenvolve, permitindo finalmente conhecer mais sobre sua história, começando pelo momento em que foi criado por Noah e passando pelos diversos nomes que contribuíram para sua construção ao longo das décadas, o que abre espaço para participações especiais curiosas como as de Dustin Diamond e Bret Michaels. Com roteiro de David H. Steinberg e direção de John Putch, o filme aproveita a marca de dez anos da franquia para revisitar elementos clássicos e responder a pequenas curiosidades que sempre orbitaram o passado da quase lendária “irmandade” formada pelos alunos de East Great Falls High. Ao mesmo tempo, a história experimenta uma nova dinâmica ao posicionar um Stifler mais próximo do papel de antagonista, uma escolha que também evidencia como a franquia ainda parece orbitada pela sombra de Steve Stifler, personagem eternizado por Seann William Scott e que até hoje permanece como a referência máxima da família, mesmo com Steve Talley tendo sido o que chegou mais perto de capturar essa energia nos filmes anteriores.
Apesar de continuar sendo uma franquia bem-sucedida, American Pie ainda enfrenta o dilema de ser uma produção carregada de palavrões, sexo, situações politicamente incorretas e um humor pesado e apelativo, algo que naturalmente pode afastar certos espectadores. Ainda assim, é impossível não perceber que este filme é um dos que mais se aproximam de recuperar o carisma que marcou uma geração em 1999. Bug Hall assume o papel de Rob como o membro mais romântico e realista do trio protagonista. Conhecido por interpretar Alfafa em Os Batutinhas, Hall cresceu mantendo aquela mesma doçura característica, o que funciona bem para um personagem que guardou por anos o segredo de estar apaixonado por Heidi e acabou preso na friendzone, apostando agora no Livro do Amor como uma forma de descobrir como conquistá-la e finalmente ser enxergado de outra maneira. A jornada de Nathan, interpretado por Kevin M. Horton, lembra muito a de Kevin Myers no primeiro filme da franquia, já que ele também vive um relacionamento estável, mas enfrenta o grande problema da falta de sexo, ainda que em alguns momentos a atuação de Horton escorregue para um tom exageradamente caricato. O trio se completa com Brandon Hardesty, famoso por suas esquetes de comédia no YouTube, que encarna Lube como o clássico gordinho safado da comédia adolescente, protagonizando cenas em que sua imaginação lasciva toma conta sempre que vê Ashley, incluindo uma sequência particularmente absurda em que ele imagina um desenho dela com os seios à mostra vestida como uma espécie de heroína pornô. Curiosamente, o filme também traz Curtis Armstrong como o professor Pete O’Donnell, personagem que parece funcionar quase como uma versão adulta de Lube, um professor cuja imaginação constantemente escapa para fantasias lascivas, mas que, no seu caso, são direcionadas à diretora Johnson.

Mesmo com uma proposta interessante ao redor do Livro do Amor, o filme também evidencia alguns dos problemas dessa fase da franquia. O papel mais escanteado acaba sendo justamente o de John Patrick Jordan como Scott Stifler, o “novo Stifler”. O personagem termina sendo um dos mais fracos da série, muito por parecer uma tentativa de reproduzir a energia de Seann William Scott e Steve Talley sem conseguir construir uma identidade própria. A situação ainda piora pelo pouco tempo de tela e por um arco narrativo que nunca encontra uma motivação realmente convincente. Scott passa boa parte do filme sendo apenas desagradável, sem camadas ou humanidade, e sua redenção surge de forma abrupta e pouco convincente, especialmente após uma das cenas mais sexualmente violentas de toda a franquia, daquelas que primeiro geram uma sensação de justiça pelo que ele merece, mas que depois deixam um gosto estranho quando se reflete sobre o que realmente aconteceu. Ainda assim, o roteiro simples acaba funcionando melhor do que se poderia esperar. A jornada em torno do Livro do Amor cria uma estrutura eficaz para a narrativa, permitindo explorar tanto os personagens masculinos quanto os femininos de forma relativamente equilibrada e revelando diferentes visões sobre sexo, relacionamentos e expectativas.
É, em essência, a mesma história de sempre, mas agora usando o conceito do livro para justificar ainda mais nudez e situações absurdas, inclusive recriando o espírito do famoso “porn food” da franquia com uma cena particularmente sexual envolvendo um sanduíche com manteiga de amendoim. No meio desse caos, um dos elementos mais consistentes continua sendo a trilha sonora, que sempre funcionou como um verdadeiro personagem em American Pie. Aqui ela retorna com força, trazendo nomes como Nickelback, Katy Perry, Fall Out Boy e Cobra Starship, todos dialogando diretamente com o público da época e combinando perfeitamente com o clima irreverente do filme. A trilha, aliás, sustenta com eficiência os primeiros minutos da narrativa, embalados pela clássica Oh Yeah, do Yello. No fim das contas, O Livro do Amor consegue algo raro dentro da fase derivada da franquia: respeitar o espírito original de American Pie enquanto encontra uma nova forma de contar a mesma história. Com personagens carismáticos, boas ideias narrativas e um humor que, apesar dos exageros, volta a capturar parte da energia que marcou a geração de 1999, o filme se consolida facilmente como o capítulo mais forte da pós-trilogia.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.