Crítica | Maldição da Múmia (Lee Cronin’s The Mummy)

Nota
3

“- Ela precisa de cuidado, e de apoio e tempo e…
– Injeções”

Charlie Cannon, um repórter investigativo de TV, vive no Cairo com sua esposa grávida, Larissa, e seus filhos, Katie e Sebastián. A rotina da família, no entanto, é brutalmente interrompida quando Katie, enquanto brinca no jardim, é abordada pela mãe de sua amiga Layla, uma misteriosa feiticeira de Aswan que a encanta com pequenos truques, oferece doces e a sequestra. Desesperados, os pais recorrem às autoridades, mas o caso cai nas mãos do cético Detetive Ismail, que acredita se tratar de uma farsa, e da inexperiente Dalia Zaki, que, apesar de demonstrar interesse, não tem autonomia para levar a investigação adiante. Oito anos depois, a família tenta seguir em frente já estabelecida em Albuquerque, no Novo México, agora com Sebastián e a caçula Maud, além da presença constante de Carmen, mãe de Larissa. É então que recebem uma ligação inesperada: Katie foi encontrada viva, mumificada dentro de um sarcófago de basalto, entre os destroços de um avião que caiu no deserto próximo a Aswan. Ao levá-la de volta para casa, recusando ajuda médica mais aprofundada, logo fica evidente que algo está profundamente errado. Katie retorna marcada por sinais de sofrimento psicológico extremo e um comportamento cada vez mais instável, como se algo antigo e perturbador tivesse vindo com ela.

A Múmia é um dos monstros mais tradicionais do cinema e há décadas habita o imaginário popular, transitando entre terror, fantasia e aventura. Depois do fracasso de A Múmia (2017), que enterrou de vez o ambicioso Dark Universe, não parecia provável que o personagem voltasse tão cedo às telas. Mas, em 2024, após o sucesso de A Morte do Demônio: A Ascensão, a New Line Cinema decidiu apostar em uma nova abordagem sob a direção de Lee Cronin. O projeto rapidamente deixou de ser apenas uma reimaginação para se tornar uma promessa dentro do terror moderno, ainda mais com a união de nomes como James Wan e Jason Blum na produção. A expectativa naturalmente foi às alturas, e talvez esse seja um dos maiores problemas do longa. Cronin entrega exatamente o que se espera de seu estilo, uma experiência suja, grotesca e repleta de momentos perturbadores, onde o horror físico é quase um personagem. No entanto, há uma sensação constante de que o filme foi amenizado para se tornar mais comercial, reduzindo o impacto de seu potencial mais extremo e abrindo espaço para uma narrativa mais arrastada, que por vezes soa como preenchimento.

Ainda assim, quando abraça o terror, o filme funciona. A combinação de crianças perturbadoras, possessões e imagens desconfortáveis encontra força principalmente em seu elenco. Jack Reynor e Laia Costa sustentam bem o drama dos pais, presos entre a negação e o desespero diante da transformação da filha. A dinâmica entre eles cresce à medida que a situação foge completamente do controle, especialmente quando a racionalidade entra em conflito com o evidente. Natalie Grace impressiona ao transformar Katie em uma presença inquietante, abandonando qualquer traço de inocência para construir algo frio, instável e ameaçador. Já Billie Roy, mesmo com menos tempo de tela, deixa uma marca forte ao ampliar o alcance do horror dentro da família. A investigação conduzida por Charlie e pela agora experiente Dalia Zaki, interpretada por May Calamawy, sustenta a mitologia do filme ao introduzir elementos como a lenda de Nasmaranian. No entanto, a quantidade de informações e conexões apresentadas nem sempre se sustenta, criando a sensação de que a ameaça é grandiosa demais para ser resolvida de forma tão simplificada.

Talvez o desejo de Lee Cronin de expandir esse universo, deixando brechas claras para uma possível franquia, acabe entrando em conflito com a intimidade que torna o longa tão envolvente em seus melhores momentos. O clímax, repleto de closes intensos e cortes frenéticos, perde parte de sua clareza quando a trama tenta escalar para algo maior, quase global, ainda que o impacto emocional permaneça presente. É inegável que a duração de 133 minutos pesa contra o filme, tornando-o mais longo do que deveria, mas há um magnetismo difícil de ignorar. À medida que a tensão cresce, o ritmo se ajusta e transforma as escolhas mais bizarras e perturbadoras em verdadeiros pontos altos, criando uma experiência sensorial que não apenas mostra o horror, mas faz o público senti-lo. Esses momentos grotescos evidenciam a ambição de Maldição da Múmia, que busca equilibrar o terror doméstico com a grandiosidade de um filme de monstro. A narrativa se constrói como uma história sobre herança, não apenas no sentido mitológico da múmia, mas também nas marcas emocionais deixadas pelas escolhas e pelos erros. O filme discute culpa, consequência e negação, mostrando como decisões aparentemente pequenas podem desencadear horrores irreversíveis. No entanto, mesmo com uma construção de suspense eficiente e cenas visualmente impactantes, o roteiro não consegue sustentar todo o potencial que cria. Falta precisão para transformar essa base sólida em algo realmente espetacular, fazendo com que o longa funcione mais pelo impacto imediato do que pela força de sua estrutura.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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