Nota
A espera por Michael não foi apenas a expectativa por um filme, mas a vigília por um evento que prometia e entregou a materialização cinematográfica do maior ícone da cultura popular. Sob a direção de Antoine Fuqua, a cinebiografia que acaba de estrear é uma obra de uma beleza plástica estonteante, um tributo técnico que opera na escala do mito. É um filme que não pede licença para ser grandioso; ele assume a postura de um épico, tratando a trajetória de Michael Jackson com a mesma reverência que se dedicaria a uma divindade da Grécia Antiga. O resultado é um espetáculo sensorial arrebatador, uma jornada que coloca o espectador dentro do furacão criativo de um homem que, de muitas formas, parou de pertencer a si mesmo para pertencer ao mundo.

É fundamental estabelecer, logo de partida, que estamos diante de uma obra assumidamente chapa-branca. Com o espólio e a família Jackson segurando as rédeas da narrativa, o filme faz uma escolha consciente e deliberada: ele não está aqui para dissecar controvérsias ou alimentar o apetite por escândalos que a mídia explorou à exaustão durante décadas. O roteiro de John Logan opta por blindar Michael, focando na sua genialidade quase sobrenatural e no isolamento melancólico que o gênio costuma carregar. Para quem busca uma análise investigativa ou um tribunal cinematográfico, o longa pode parecer incompleto; no entanto, para quem deseja compreender a engrenagem interna de um artista que redefiniu o som, a imagem e a performance do século XX, o filme é um documento emocional inestimável.
A alma do filme, e o que o impede de ser apenas uma sucessão de videoclipes caros, reside na performance de Jaafar Jackson. Havia um ceticismo compreensível em torno da escalação do sobrinho do Rei do Pop para o papel principal, mas Jaafar não apenas silencia os críticos; ele realiza algo que beira o místico. Ele não mimetiza Michael Jackson; ele o canaliza. A semelhança física, potencializada por um trabalho de maquiagem e figurino cirúrgico, é apenas o ponto de partida. O que Jaafar entrega é a essência do olhar, a doçura da voz e, acima de tudo, a precisão milimétrica dos movimentos. Ver Jaafar recriar os ensaios de Thriller ou a icônica performance de Billie Jean no Motown 25 é uma experiência transcendental. Ele captura a mansidão quase infantil de Michael nos momentos de intimidade e a metamorfose absoluta que ocorria quando ele pisava no palco, transformando-se em uma força da natureza indomável.
Se Jaafar é o coração pulsante da obra, Colman Domingo é a espinha dorsal de aço que sustenta o drama familiar. Interpretando o patriarca Joe Jackson, Colman Domingo rouba cada cena em que aparece, entregando uma atuação que transborda autoridade e uma complexidade assustadora. Ele foge do vilão unidimensional; seu Joe Jackson é um homem moldado pelo racismo estrutural e pela necessidade de sobrevivência, que enxerga no talento dos filhos a única saída para a dignidade. Colman Domingo domina o espaço com um silêncio ameaçador e uma rigidez que explica, sem precisar de muitos diálogos, o porquê de Michael ter se tornado um perfeccionista obsessivo. A tensão entre o pai que forja o aço e o filho que se torna a obra-prima é o motor emocional mais potente do filme, e Colman Domingo é o mestre dessa engrenagem.

Visualmente, o filme é um deslumbre que justifica cada centavo de seu orçamento. A fotografia de Dion Beebe evolui com as décadas. Começamos com os tons quentes e granulados da era Motown em Gary, Indiana, onde a pobreza é contrastada com o brilho dos ternos de cetim dos Jackson 5, liderados pelo pequeno Michael (Juliano Krue Valdi). À medida que Michael ascende à carreira solo, a paleta de cores se expande, tornando-se tão vibrante e futurista quanto a música que ele produzia. A reconstrução do rancho Neverland é um dos momentos de maior beleza estética, transformando o refúgio do cantor em um reino onírico que reflete sua recusa em abandonar a infância. O design de som é, como não poderia deixar de ser, impecável, fazendo com que as batidas de Beat It ou a harmonia de Man in the Mirror ressoem não apenas nos ouvidos, mas no peito do espectador.
O roteiro navega pelo sofrimento de Michael com uma delicadeza que beira a proteção. Vemos um homem cercado por multidões, mas profundamente solitário; um artista que deseja curar o mundo enquanto lida com suas próprias feridas internas. O filme escolhe focar na dor da incompreensão e no peso da fama global, retratando Michael como uma figura quase messiânica que foi consumida pela própria luz. Essa abordagem suaviza as arestas de sua vida privada, mas em contrapartida, humaniza o gênio de uma forma que poucas vezes vimos. O sofrimento físico causado pelo vitiligo e pelas queimaduras no comercial da Pepsi é mostrado com crueza, enfatizando a resiliência de um homem que subia ao palco com dores lancinantes para não decepcionar seu público.
As sequências de palco são dirigidas com a grandiosidade de um épico de guerra. A direção trata a música de Michael como um evento histórico, e as coreografias são filmadas com uma clareza que permite apreciar a genialidade da dança que Jackson inventou. Não há cortes rápidos ou truques de câmera para esconder limitações; Jaafar Jackson realmente executa os passos com uma fluidez que faz o espectador esquecer que está assistindo a um filme. O clímax técnico ocorre na recriação da era Dangerous e nos preparativos para This Is It, onde a escala da produção atinge o ápice, mostrando que, mesmo no fim da vida, o padrão de exigência de Michael permanecia inalcançável para qualquer outro mortal.

A relação com os irmãos e com a mãe, Katherine Jackson (Nia Long), também ganha tempo de tela, servindo para ancorar Michael em uma realidade familiar que ele nunca conseguiu realmente deixar para trás. Entretanto, o filme deixa claro que ele era uma estrela solitária em uma galáxia própria. A transição da infância explorada para a vida adulta vigiada é conduzida de forma a gerar uma empatia profunda. O espectador é convidado a sentir o cansaço de uma vida vivida sob flashes, onde cada gesto era interpretado e cada palavra era distorcida pela visão de figuras como o advogado John Branca (Miles Teller), que tentava equilibrar os negócios com a preservação da imagem do artista.
Embora a estrutura do filme siga a linha do ascensão, auge e persistência do legado, a direção de Fuqua impede que o longa se torne uma lista burocrática de fatos. Há poesia na forma como as letras das canções são integradas aos momentos de vida do cantor. Billie Jean não é apenas um hit; é a resposta visual a um assédio constante. Don’t Stop ‘Til You Get Enough é a libertação de um jovem que finalmente descobre sua própria voz após anos sob o comando do pai. Essa integração faz com que a música ganhe uma nova camada de significado para quem está assistindo.
Para os puristas que esperavam um mergulho nas sombras mais densas da biografia de Jackson, o tom chapa-branca pode ser um ponto de discórdia. É nítido que o filme foi feito por quem ama Michael. Não há o cinismo das cinebiografias modernas que buscam desconstruir o ídolo até que não reste nada de sua magia. Aqui, a magia é preservada a todo custo. O foco na genialidade criativa serve como um lembrete de que, para além de qualquer polêmica, existia um artesão do som que trabalhava horas a fio em busca de uma nota perfeita ou de um passo que desafiasse a gravidade.

A participação de Colman Domingo, novamente, merece ser exaltada. Ele consegue injetar humanidade em Joe Jackson sem perdoar seus métodos. É através dele que entendemos a disciplina férrea que Michael impunha a si mesmo. O conflito entre o amor filial e o ressentimento pela infância perdida é palpável em cada olhar trocado entre ele e Jaafar. É uma atuação de apoio que eleva o nível de todo o elenco, forçando Jaafar a subir o tom dramático em um duelo de gigantes que é, sem dúvida, o ponto alto do filme em termos de atuação puramente dramática.
Ao chegar ao fim da projeção, a sensação é de exaustão emocional e êxtase artístico. Michael cumpre sua promessa de ser o retrato definitivo do gênio. Ele não busca a transparência absoluta sobre os segredos do homem, mas oferece a transparência absoluta sobre o coração do artista. É uma obra que entende que Michael Jackson não foi apenas um cantor, mas uma mudança de paradigma na história humana. A beleza do filme reside na coragem de ser grandioso, de ser épico e de se permitir ser uma carta de amor sem desculpas.
No cenário atual de cinebiografias que tentam ser pé no chão, Michael voa alto. Ele abraça o espetáculo e a teatralidade que eram as marcas registradas de seu protagonista. É um filme que será assistido repetidas vezes, não apenas pela história, mas pela técnica impecável e pelas performances inesquecíveis de Jaafar Jackson e Colman Domingo. O Rei do Pop recebeu, finalmente, o monumento cinematográfico que sua genialidade exigia. É belo, é sofrido, é imenso e, acima de tudo, é puramente Michael Jackson. Uma obra essencial para entender por que, mesmo décadas depois, o mundo ainda para quando ouve o primeiro acorde de uma de suas canções. O filme não apenas celebra o passado; ele consolida o fato de que o legado de Michael é, e sempre será, eterno.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.