Nota
“Nunca envie um macaco para fazer o trabalho de um homem.”
No ano de 2029, o astronauta Leo Davidson integra a tripulação da estação espacial Oberon, da Força Aérea dos Estados Unidos, participando de um projeto que trabalha em estreita colaboração com primatas treinados para missões espaciais. Seu parceiro é o chimpanzé Pericles, acaba sendo enviado em uma pequena nave para investigar uma forte tempestade eletromagnética que se aproxima da estação, desaparecendo logo após entrar na anomalia. Agindo contra as ordens de seu comandante, Leo parte em uma segunda nave para tentar resgatar o animal, atravessando a tempestade e indo parar no planeta Ashlar, no ano de 2686. Nesse novo mundo, os macacos evoluíram para uma sociedade complexa, organizada e dominante, capaz de falar a língua humana e tratar os próprios humanos como escravos. É a partir dessa premissa que Planeta dos Macacos tenta revisitar um dos maiores clássicos da ficção científica, trocando parte da crítica social do original por uma aventura mais grandiosa, mais acelerada e muito mais preocupada com espetáculo visual.

Em 1963 surgiu La Planète des Singes, distopia francesa que, em 1968, inspirou o lendário Planeta dos Macacos dirigido por Franklin J. Schaffner e estrelado por Charlton Heston, além de suas diversas sequências. Foi justamente o sucesso dessa franquia que levou, em 1988, Craig Baumgarten, então presidente da 20th Century Fox, a convidar o cineasta Adam Rifkin para apresentar uma nova ideia de filme. A proposta inicial deixaria de lado a continuidade direta das sequências clássicas e mostraria o mundo dos macacos após os eventos do longa original. O que parecia ser uma oportunidade de ouro rapidamente se transformou em um projeto turbulento, marcado por anos de debates criativos entre executivos, produtores e roteiristas.
Entre as ideias descartadas estava a de Rifkin, que imaginava um império dos macacos inspirado no Império Romano e uma revolta liderada por Duke, descendente de George Taylor, em uma trama que lembrava um Gladiador protagonizado por símios. Depois disso, Terry Hayes propôs uma história sobre uma praga capaz de exterminar a humanidade, levando dois humanos a viajar até o período paleolítico para descobrir a origem do vírus, apenas para descobrir que ele havia sido criado pelos macacos como arma de guerra. Foram tantas mudanças e propostas que o projeto acabou se arrastando até 1999, quando William Broyles Jr. desenvolveu a crônica do planeta Ashlar, material que conquistou a Fox e despertou o interesse de Tim Burton. Fugindo de seu habitual estilo gótico, Burton decidiu revisitar o universo do filme original sem transformá-lo em um remake direto, criando uma reimaginação que, com roteiro de Lawrence Konner e Mark Rosenthal, finalmente recebeu sinal verde e chegou aos cinemas em 27 de julho de 2001.
O novo George Taylor, Leo Davidson, cai nas mãos de Mark Wahlberg, que consegue criar um protagonista carismático, determinado e inteligente, capaz de nos conquistar desde a primeira cena e conduzir com facilidade a trama. Leo oscila entre a esperança de encontrar uma forma de escapar daquele mundo e a confusão de tentar compreender a lógica da sociedade em que caiu. Já a nova versão de Zira, Ari, é muito melhor desenvolvida e ganha vida através da interpretação de Helena Bonham Carter, que entrega uma chimpanzé rebelde, sensível e curiosa, indignada com a forma como os humanos são tratados e gradualmente envolvida pelo astronauta.

Outro grande destaque é Tim Roth, que recusou o papel de Severus Snape (Harry Potter e a Pedra Filosofal) para interpretar o General Thade. O personagem é apresentado como um comandante ambicioso, brutal e obcecado pelo controle da civilização dos macacos, além de desejar se casar com Ari. Ainda assim, apesar da intensidade da atuação de Roth, Thade acaba sendo um vilão relativamente raso, sustentado quase o tempo inteiro por explosões de raiva e expressões de fúria. Por outro lado, uma das maiores frustrações do elenco acaba sendo Estella Warren no papel de Daena, escrava humana inspirada em Nova. Embora a atriz estivesse no auge da carreira e funcione bem como interesse romântico, a personagem recebe pouco desenvolvimento e nunca vai muito além do básico. Em tom de homenagem, o longa ainda traz as participações de Charlton Heston como Zaius, pai de Thade, e Linda Harrison como uma das escravas na carroça, retomando dois nomes marcantes do filme original. Apesar de funcionar bem como entretenimento e conseguir prender o público em sua primeira metade, Planeta dos Macacos começa a se perder quando a narrativa se aproxima de Calima, o templo sagrado de Semos. Até esse momento, o longa consegue modernizar conceitos do original, construir boas cenas de ação e apresentar um universo visualmente fascinante, mas o roteiro não acompanha a força de sua produção.
A maquiagem dos macacos, os figurinos e os cenários seguem impressionantes até hoje, algo que justifica as indicações ao BAFTA 2002, ao Prêmio Saturno 2002 e ao Satellite Awards 2002. Ainda assim, a trama acaba se tornando cada vez mais confusa e culmina em um desfecho que parece existir apenas para abrir espaço para uma continuação que nunca aconteceu. É impossível não comparar o filme com o clássico de 1968, mas também não seria justo exigir que ele siga exatamente os mesmos caminhos. Enquanto o original se apoia muito mais em reflexões filosóficas e críticas sociais, a versão de Tim Burton prefere apostar em ação, espetáculo e aventura. Isso faz com que o longa encontre uma identidade própria, ainda que isolada do restante da franquia, funcionando quase como uma experiência à parte dentro do universo dos macacos. O problema é que, ao tentar surpreender com um final grandioso e enigmático, o filme acaba entregando um dos desfechos mais confusos e sem sentido de toda a ficção científica. Mesmo longe de alcançar o impacto e a genialidade do original, ainda existe diversão suficiente em sua jornada para justificar a visita.
“Um dia eles contarão a história de um humano que veio das estrelas e mudou nosso mundo. Alguns dirão que foi apenas um conto de fadas, que nunca foi real. Mas eu vou saber.”
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.