Crítica | Super Mario Galaxy: O Filme (The Super Mario Galaxy Movie)

Nota
4.5

Eis o grande paradoxo do cinema de animação: a Illumination e a Nintendo descobriram a fórmula do ouro, mas parecem estar com tanta pressa de gastá-lo que atropelam a própria cronologia emocional do espectador. Super Mario Galaxy: O Filme é uma obra que desafia os limites da física e da nossa capacidade de processamento visual. É um espetáculo inegável? Sem dúvida alguma. Mas é também um lembrete incômodo de que a pressa em Hollywood pode queimar fases que mereciam ser jogadas com calma.

Assistir a Super Mario Galaxy no cinema é uma experiência que flerta perfeitamente com o conceito de overdose sensorial. A Illumination pegou a paleta de cores vibrantes do primeiro longa e a elevou à potência máxima, criando um universo onde a iluminação dinâmica de planetas esféricos e a gravidade invertida geram uma explosão contínua de informações na tela. É lindo, de encher os olhos e arrancar suspiros, mas por vezes beira o esgotamento visual. Cada transição de planeta, cada voo impulsionado por estrelas e cada cenário no vácuo espacial trazem tantos easter eggs por metro quadrado que o cérebro do gamer veterano quase entra em curto-circuito tentando processar tudo.

As referências são um deleite à parte. Desde a trilha sonora épica e orquestrada que reverencia a obra-prima de Mahito Yokota no Wii, até a introdução da icônica e melancólica Rosalina (Brie Larson), o filme sabe exatamente onde tocar no coração dos fãs. A performance vocal de Larson entrega a gravidade e a doçura necessárias para a guardiã do Comet Observatory. Ver as mecânicas de gravidade dos pequenos planetóides traduzidas para a linguagem cinematográfica é de uma inventividade técnica absurda, onde a animação dita o ritmo de uma montanha-russa espacial imparável.

Contudo, saindo do transe visual, fica um incômodo narrativo difícil de ignorar. O conceito de Galaxy é o ápice, a fronteira final das aventuras do encanador. Queimar esse cartucho logo no segundo filme passa a nítida sensação de pressa corporativa. O ideal teria sido deixar essa odisseia espacial para o fechamento de uma trilogia e, agora, focar na expansão terrestre do universo.

Imagine o quão mais rico e orgânico teria sido um segundo filme focado em Super Mario World! Poderíamos ter tido a introdução da vibrante Princesa Daisy para fazer dupla com a Peach (Anya Taylor-Joy), a estreia caótica e absurdamente divertida de Wario e Waluigi rivalizando com os irmãos Mario, e a exploração de biomas terrestres ricos como a Ilha dos Dinossauros. Construir essa base familiar e de rivalidade no chão faria com que, aí sim, em um terceiro filme, o salto para o espaço e para o desconhecido parecesse uma jornada de evolução épica e merecida.

Ao invés disso, o roteiro tenta enfiar um mundo inteiro de conceitos novos de uma só vez. A tão aguardada introdução de Yoshi foi um desses momentos atropelados: o dinossaurinho verde é absurdamente carismático e rende cenas de ação brilhantes que exploram sua língua extensível e apetite voraz, mas sua conexão com Mario parece acelerada para caber no tempo de tela. Ele merecia um filme inteiro de desenvolvimento de parceria.

Essa mesma pressa afeta a dinâmica dos vilões e heróis. Vemos o arco de Bowser (Jack Black) ser colocado em segundo plano após seu fracasso no primeiro longa, abrindo espaço para o protagonismo vilanesco de Bowser Jr. (Benny Safdie), que sequestra Rosalina na tentativa desesperada de provar seu valor e salvar o pai. Essa reviravolta inverte os papéis clássicos e coloca a Princesa Peach no centro da ação, liderando a equipe de resgate ao lado do incansável Toad (Keegan-Michael Key). O foco principal do filme acaba sendo a Peach, o que rende excelentes momentos de liderança e combate tático, mas acaba tirando o protagonismo dos irmãos Mario e Luigi (Chris Pratt e Charlie Day) em sua própria franquia.

No fim das contas, Super Mario Galaxy diverte absurdamente e entrega um carisma inquestionável que vai arrastar multidões aos cinemas. Ele abraça o ridículo e o nonsense do espaço com um sorriso no rosto e nos convida a fazer o mesmo. Mas deixa no ar aquele gostinho de que a Nintendo pulou mundos importantes de um jogo que tinha tudo para ser perfeito se jogado com um pouco mais de estratégia.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.

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