Nota
“Eu era uma menina quadrada. Vivia num mundo quadrado.”
A vida adulta nem sempre é tão simples quanto parece e, quando se está predestinada a viver uma vida quadrada, será que é fácil quebrar o padrão e se libertar? Esse é o grande desafio da protagonista, ou melhor, da própria Patrícia Vasconcellos, que narra de forma poética o momento em que sua vida mudou. Em apenas 48 páginas, a autora revisita uma existência marcada por regras, cobranças e caminhos pré-definidos, que a levaram a se tornar cientista da computação, até chegar ao instante em que decidiu abandonar o “computador-quadrado” para se transformar em artista. Como é descrito em sua biografia, Patrícia percebeu que a paixão pela literatura funcionava como uma fuga da vida rígida que levava como cientista, e isso se torna ainda mais precioso quando seu texto encontra o projeto gráfico de Eduardo Souza e Gabriela Araujo. Juntos, eles transformam a simplicidade da narrativa em algo visualmente sensível, reforçando a sensação de aprisionamento e, mais tarde, de liberdade, que acompanha toda a obra.

Vencedor do Prêmio Brasil Design 2018, Mala Quadrada, Cabeça Quadrada é uma obra que une três linguagens diferentes para discutir transformação. Isso acontece primeiro na narrativa, que começa melancólica e rígida, mas vai ganhando leveza conforme a protagonista encontra novas possibilidades para a própria vida. Ao mesmo tempo, o projeto gráfico e as ilustrações acompanham essa mudança de forma extremamente inteligente. Se no início o livro aposta em tons escuros, cinzas e pretos, além de uma diagramação mais sólida e limitada, aos poucos tudo vai se tornando mais vivo. As pinceladas deixam de ser lineares e passam a ocupar o espaço de maneira circular, diagonal e desordenada, refletindo visualmente a libertação da personagem.
Essa mudança também afeta diretamente a experiência de leitura. Conforme a narrativa avança, o leitor é obrigado a virar o livro, mudar o ângulo da página e interagir fisicamente com a obra de formas inesperadas. Existe uma dualidade interessante nisso: se por um lado essa escolha torna a leitura mais ousada, criativa e memorável, por outro compromete parte da praticidade da obra a longo prazo. O que em um primeiro contato parece divertido e surpreendente pode se tornar cansativo em releituras ou até dificultar a experiência de quem pretende compartilhar a leitura com crianças. Ainda assim, a linguagem simples, doce e acessível faz com que o livro funcione muito bem como uma obra infantojuvenil, plantando desde cedo a ideia de quebrar padrões e incentivar novas formas de pensar.
Publicado pela Caleidoscópio Edições, o livro é gostoso de experimentar. Inicialmente triangular, ele se transforma em quadrado ao ser aberto e, pouco a pouco, faz a leitura caminhar para algo quase circular, como se a própria forma física da obra acompanhasse a jornada da protagonista. O fato de ser um livro dinâmico e curto o torna bastante convidativo, enquanto as imagens abstratas constroem uma narrativa própria por meio das cores, das formas e da textura do material. Existe algo de muito delicado na maneira como Patrícia, Eduardo e Gabriela conseguem fazer com que cada elemento da obra dialogue entre si. O livro deixa de ser apenas uma história e passa a funcionar como uma experiência sensorial, cheia de beleza e pequenas provocações. Ainda assim, justamente por ser tão breve, alguns sentimentos e conflitos poderiam ser mais aprofundados. A transformação da protagonista é clara e emocionante, mas acontece rápido demais, impedindo que certas reflexões ganhem ainda mais peso.

Mala Quadrada, Cabeça Quadrada é um livro simples, mas que encontra força justamente nessa simplicidade. Ao falar sobre crescer, amadurecer e perceber que nem sempre o caminho esperado é o melhor caminho, Patrícia Vasconcellos cria uma obra acessível para crianças, mas também extremamente identificável para adultos que passaram a vida tentando caber em espaços pequenos demais para quem realmente são. O simbolismo do título funciona muito bem, porque não fala apenas de formas geométricas, mas da rigidez que a sociedade, a família e até nós mesmos impomos às nossas vidas. Com um projeto gráfico marcante, uma mensagem poderosa e uma leitura capaz de emocionar e provocar ao mesmo tempo, o livro merece ser colocado na lista de leitura de todos, independente da idade. Afinal, até quando dá para uma vida inteira caber num mundo quadrado?
“Tirei os óculos quadrados e comecei a enxergar com o coração, que de quadrado não tem é nada.”
| Ficha Técnica |
Livro Único Nome: Mala Quadrada, Cabeça Quadrada Autor: Patrícia Vasconcellos, Eduardo Souza e Gabriela Araujo Editora: Caleidoscópio Edições |
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Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.