Nota
2.5

*Esta crítica vai abordar tópicos sensíveis envolvendo abusos e agressões sexuais, portanto se você for sensível a esses tópicos, é recomendável cautela.”

Inês (Marina Ruy Barbosa), é uma jovem pesquisadora que embarca em uma missão de pesquisa para a Marinha Brasileira, numa base super afastada do continente na Antártida. Junto a ela, Vicente (Lázaro Ramos), também embarca na mesma missão, mas na intenção de se reconciliar com sua esposa Marina (Leandra Leal), que ignora suas mensagens. Enquanto isso, o Comandante Barros (Antonio Calloni), começa dar sinais de delírios, ao sair na neve sem proteção, aumentando ainda mais a preocupação de sua Vice Comandante, Elisabeth (Andréa Beltrão), que começa a ficar de olho nele para que não haja mais problemas. Tudo parece sob controle, quando após uma festa de boas-vindas à nova missão, um crime brutal abala a estação inteira, e Inês é socorrida por Marina e Elisabeth, fazendo com que a vice comandante assuma o comando da investigação desse caso, onde todos os homens se tornam suspeitos. Dirigido por Bruno Safadi e escrito por Cláudia Jouvin, Antártida é uma coprodução entre Paris Filmes e os estúdios Globo, que congelaram os estúdios da emissora para construir o cenário desse mistério que denuncia uma realidade muito triste da nossa sociedade.

Após alguns filmes envolvendo casos criminais, o diretor Bruno Safadi junta forças com Cláudia Jouvin, que vem de um projeto divulgado na Globoplay de grande divulgação, que também reúne temas parecidos. Por estarem em um território de conforto dos dois, era esperado que ambos não tivessem grandes dificuldades para conduzir essa história que tem uma premissa bem inovadora, especialmente se tratando de uma ambientação que não é explorada na mídia, mas Antártida acaba decepcionando em diversos aspectos de sua execução. O filme que foi exibido no Festival de Gramado de 2026, recebeu duras críticas por parte do público presente devido a forma que os temas tão sensíveis dentro da história são tratados, recebendo adjetivos como “insensível” e “raso demais”. Falar sobre agressões sexuais não é uma tarefa fácil, e poucas obras conseguem trazer a sensibilidade adequada para tratar do tema, especialmente se tratando de um mistério criminal, como é o caso desse longa de Safadi, onde a busca pelo culpado é na verdade o grande centro da trama, mas não bastando ter um tema central tão denso, a obra ainda tem algumas outras subtramas que tentam disputar a atenção em tão pouco tempo, dentre os seus apenas 94 minutos de filme, falando também sobre violência doméstica e bem brevemente sobre racismo, o que explica a sensação que ficou para o público de que todos os temas são abordados de forma muito rasa, porque também nem há tempo o suficiente para se aprofundar em todos os temas de forma satisfatória.

Apesar do longa tratar bem de alguns tópicos e falácias populares quando se trata de culpabilização da vítima de abusos, assim como de também ter a preocupação de não sexualizar e muito menos romantizar momentos tão delicados, de fato há uma insensibilidade ao abordar o tema. Nessa última campanha de premiações, o filme Sorry, Baby (2025), que disputou o Globo de Ouro, tem uma das sequências mais sensíveis para tratar de um tema tão delicado, quando todo o crime se passa dentro de uma casa, mas a câmera se mantém fora o tempo todo, onde não precisamos de fato ver o ato acontecendo, e mesmo assim entendemos a mensagem, e ainda é uma cena bem forte. Por seguir numa linha quase policial, Antártida peca principalmente na revelação do culpado, porque, apesar de não mostrar detalhes, nem romantizar a cena, ainda é uma sequência que se estende mais do que o necessário. Um contraponto bem discutido também é sobre o apagamento de Inês, personagem de Marina Ruy Barbosa na trama, como um apagamento da narrativa da vítima na história, mas isso não se sustenta 100% já que a protagonista é de fato, Elisabeth, até porque é com ela que surge todos os dilemas morais, de desconfiar ou não de seu superior. Se Antártida tivesse seguido uma rota de um enredo mais político, como foi por exemplo com After the Hunt (2025), talvez a história tivesse seguido numa linha ainda mais sensível, mas que pudesse também provocar e trabalhar melhor os outros subtemas que são apresentados em tão curto tempo, porque, apesar de também controverso, After the Hunt tem um ótimo trabalho em apresentar seus dilemas para o público, para fazermos refletir sobre os assuntos apresentados, enquanto Antártida não nos dá esse espaço para a reflexão.

Com grandes nomes no elenco, Antártida é um banquete para ótimas atuações, em especial de Andréa Beltrão, que sem dúvidas foi a escolha certa para viver a Elisabeth, por conseguir mesclar muito bem a dualidade de uma mulher que precisa ser dura e forte, mas também empática, com um instinto maternal que acompanha sua personagem desde o começo, que acaba sendo um dos motivos do filme não conseguir ir 100% para um viés político de investigar os lados da história, mas sim, de seguir na investigação criminal, porque tudo acaba se tornando muito pessoal para ela, e isso é muito bem colocado em sua intenção de personagem. Outra escalação de elenco perfeita foi o Lázaro Ramos, porque já conhecemos Lázaro por conta de seu carisma inegável e isso agrega demais nas nuances de seu personagem, e na percepção do público de moldar a sua opinião para pensar que por ele estar tentando tanto, que ele “não deve ser tão ruim assim”, mas ao menos para o arco narrativo de Lázaro, é um alívio que a produção não optou para um enredo voltado à sua redenção. Mesmo com grandes atuações, por conta de um elenco sem sombra de dúvidas extremamente competente, o roteiro nem sempre salva as performances dos atores, especialmente na primeira metade do longa, onde os diálogos são ultra rasos, sem a menor profundidade e até entediantes, onde um espectador que não sabe do que o filme se trata pode facilmente perder o interesse na trama tão desinteressante do início do filme, ainda mais se o objetivo desse filme for realmente para uma possível divulgação no streaming.

Para um filme tão curto, o elenco de Antártida também acaba sendo um pouco extenso, mas que ao menos a maioria dos personagens são bem aproveitados, com todos tendo algum tipo de história paralela ocorrendo, e com suas intenções e motivações muito bem amarradas. Mas quem mais sofre com a falta de aproveitamento é a personagem de Mariana Sena, a Rose, que no início nem sequer tem falas, sendo meramente uma figurante para a trama, que até tenta ser justificado posteriormente no roteiro, mas ainda assim, sua participação acaba a colocando em uma caixinha estereotipada de suporte à protagonista, sendo a única personagem que não tem motivações ou intenções bem estabelecidas além de eventualmente ajudar a Inês. Novamente sendo uma questão que teria sido resolvida com um pouco mais de tempo de aprofundamento narrativo.

Antártida é de fato uma grande produção da Paris Filmes em parceria com os estúdios Globo, como foi divulgado. Com o esforço que foi feito em transformar os estúdios do Rio de Janeiro nas geleiras frias do norte da Antártida, parece que não houve a mesma preocupação com o roteiro e desenvolvimento da trama. Esteticamente, Antártida funciona como um filme muito bonito, muito bem produzido, mesmo com um exagero de efeitos de neve, que deixam tudo ainda mais artificial sem necessidade, com uma direção de fotografia bem intencionada, uma equipe de figurinos e principalmente de efeitos especiais em maquiagem muito bem utilizados, nada disso consegue elevar um roteiro que aproveitou muito mal uma ótima premissa. Dá para entender o esforço da equipe em falar sobre assuntos tão sérios, especialmente com uma conclusão que abre espaço para debates, com uma chamada final que fala sobre os dados da violência contra a mulher no Brasil. O filme escancara uma pressa da produção de entregar um resultado, sem antes maturar questões que precisam de um melhor desenvolvimento, isso porque no final de 2024, o filme que não tinha nem um elenco confirmado ainda já estava sendo divulgado como uma mudança de formato, de uma série para ser condensada à um longa metragem.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.