Nota
“Eu vou te levar para casa. Vamos ter que fazer isso do jeito dificil.”
James Belmont é um ex-soldado das Forças Especiais aposentado que dedica seus dias a explorar o Alasca em um monomotor ao lado de Odin, seu cão de combate aposentado. O que começa como uma rotina de viagens para áreas florestais afastadas da civilização, onde os dois acampam, aproveitam a natureza e depois retornam para casa, muda completamente quando James sofre um infarto enquanto pilota. Sem conseguir controlar a aeronave, ele colide com as árvores e cai em meio à região selvagem e implacável do Alasca, obrigando os dois a enfrentar o frio, a fome e os perigos da natureza em uma jornada até a rodovia mais próxima. Mais do que uma luta pela sobrevivência, a experiência coloca à prova a força do vínculo entre homem e animal. James é um homem de poucas fragilidades aparentes, endurecido pela experiência militar e disposto a fazer qualquer coisa para proteger Odin. O cão, por sua vez, também é um guerreiro experiente, mesmo após perder uma das pernas, mas carrega suas próprias marcas de guerra e sofre com Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Entre as limitações físicas, os traumas e as condições extremas do ambiente, os dois precisam encontrar forças um no outro para conseguir voltar para casa.

Escrito pelo novato Cameron Alexander, que vem de uma longa carreira como diretor de videoclipes, Heart of the Beast figurou na Black List de 2017, famosa lista que reúne os melhores roteiros não produzidos de cada ano, mas foi apenas em março de 2024 que David Ayer assinou contrato para dirigir e produzir o projeto. Rapidamente, o filme passou a acumular nomes de peso na produção, como Damien Chazelle e Olivia Hamilton, pela Wild Chickens Productions, a Temple Hill Entertainment e a Paramount Pictures, que também firmou um acordo de exclusividade. Em janeiro de 2025, Brad Pitt entrou no projeto como protagonista e produtor através da Plan B Entertainment. Com esse hall de produtores apostando na história, somado ao próprio nome de Ayer, que escolheu o roteiro, as expectativas dificilmente poderiam estar baixas. E é aí que começa o grande dilema de um filme estrelado por um cachorro: será que estamos preparados para assistir ao que está por vir? Será que teremos nosso coração dilacerado pela forma heroica como esse cachorro inevitavelmente morrerá? Acho justo deixar claro que, assim como a primeira cena do filme já indica, Odin não morre durante a jornada. Isso, porém, não significa que o processo não será sofrido, e será de muitas formas.
O James de Pitt é casca-grossa. A todo momento, fica evidente que ele é capaz de resistir a situações que o levam ao extremo, e o filme consegue nos surpreender justamente quando o assunto é descobrir até onde esse extremo pode chegar. Ao mesmo tempo, fica claro que esse homem foi endurecido por tudo o que viveu durante a guerra, e a contraparte perfeita para essa dureza está em sua relação com Odin. É nesses momentos que o personagem revela que existe um coração pulsando por trás daquela muralha emocional, que há doçura escondida naquele homem aparentemente inabalável e que o cachorro é capaz de arrancar dele o melhor que ainda existe. Uber, o cão que interpreta Odin, é a grande estrela do filme. Ele ofusca completamente Pitt e nos conquista rapidamente com sua disciplina, sua leveza e a maneira como consegue conduzir a história melhor do que o próprio protagonista humano. O longa tenta mostrar que a sobrevivência dos dois não depende apenas de resistência física, abrindo espaço para explorar a vulnerabilidade de James e a relação construída entre eles. Um dos grandes acertos está justamente em não transformar Odin em um simples cachorro de apoio emocional. Ele tem passado militar, uma amputação e TEPT, carregando seus próprios traumas e sendo tão emocionalmente instável quanto seu dono. São dois sobreviventes de guerra que acabam dependendo um do outro para continuar seguindo em frente. Apesar das participações pontuais, J.K. Simmons e Anna Lambe também se mostram essenciais para o desenvolvimento da trama. O primeiro funciona como uma ferramenta narrativa para apresentar o passado de James e Odin, enquanto a segunda assume um papel importante na interação necessária para o desfecho, evitando que o filme se transforme em Pitt falando sozinho durante toda a jornada e garantindo que determinadas informações possam ser compreendidas pelo público.

Coração Selvagem é um filme muito bom quando entende que sua verdadeira força está na relação entre James e Odin, dois sobreviventes de guerra que carregam marcas diferentes, mas encontram um no outro a força necessária para continuar. O problema é que a jornada até esse ponto é bastante irregular. Existem momentos em que o filme fica parado demais, esticando o suspense até transformar a tensão em espera, enquanto em outros tudo se torna frenético de maneira quase abrupta, criando uma progressão desequilibrada. Algumas situações também forçam tanto a barra que acompanhar a sobrevivência dos dois se torna sofrível, especialmente quando o roteiro parece interessado em testar os limites do espectador mais do que em desenvolver organicamente os perigos daquela jornada. O mais frustrante, porém, está no desfecho. O filme passa boa parte de sua duração construindo James e Odin como personagens praticamente inabaláveis, sobreviventes capazes de suportar condições extremas, traumas físicos e psicológicos e situações que parecem muito maiores do que eles. Por isso, quando chega o momento de colocá-los diante de um último obstáculo, a reação parece desproporcional ao que foi construído, como se uma situação consideravelmente inferior a tudo que enfrentaram fosse capaz de abalá-los de uma maneira que o próprio filme não preparou. Ainda assim, Brad Pitt e, principalmente, Uber conseguem sustentar uma história que encontra no vínculo entre homem e cão seu verdadeiro coração. Coração Selvagem tropeça justamente quando precisa concluir essa jornada, mas deixa uma relação suficientemente forte para fazer a trama valer a pena.
“Uma ultima missão… Eu não vou deixar você morrer aqui”
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.