Nota
“Eu nunca entendi por que a Ariel trocou o fundo do mar por um príncipe sem graça, eu amo ficar na água!”
Felipe é um adolescente acima do peso, inseguro e que luta para sobreviver aos dias intermináveis no colégio sendo alvo das piadas dos valentões. Tudo o que ele mais deseja é que cheguem as férias, quando poderá se dedicar aos seus filmes, livros e séries e ficar trancado em casa, longe dos babacas que tornam seus dias ainda mais difíceis. Seus planos, porém, saem dos eixos quando sua mãe informa que aceitou hospedar Caio, seu vizinho e antigo amigo de infância, um garoto padrão de quem Felipe se afastou ao longo dos anos, principalmente depois que o sobrepeso fez com que ele deixasse de querer entrar na piscina. Agora, obrigado a passar 15 dias dividindo sua paz com o antigo amigo, Felipe começa a perceber que aquele garoto que parece tão distante ainda guarda muito do amigo que conhecia. O problema é que essa reaproximação desperta sentimentos que ele nunca imaginou sentir pelo garoto que aprendeu a odiar, fazendo com que precise recorrer a Olivia, sua psicóloga, para tentar entender uma atração que também o obriga a confrontar a própria relação com seu corpo, sua sexualidade e a pessoa que se tornou.

Quinze Dias é um romance entre dois garotos lançado por Vitor Martins em 2017, seu primeiro livro e já um sucesso de vendas, alcançando 55 mil cópias comercializadas. A obra foi traduzida para sete países e ganhou prêmios no GLLI Translated YA Book Prize e no Latino Book Awards, em uma jornada que culminou na compra, em 2020, dos direitos de adaptação pela Conspiração Filmes, levando para as telas a envolvente história de Caio e Felipe. Misturando comédia e drama de forma cativante, a obra aborda romance, descoberta e amadurecimento de maneira singular, sendo sensível, empática e disposta a confrontar clichês. O romance entre um gay gordo e afeminado e um garoto padrão que parece ser hétero pode fugir do esperado, mas utiliza a ficção para conversar sobre a possibilidade de encontrar o amor onde menos se espera. É claro que, à primeira vista, muitos podem questionar a possibilidade de uma história como essa, tanto que se tornou recorrente o comentário de que seria impossível “um padrão se apaixonar por uma tonha”, mas o roteiro, mesmo sem ser explícito, deixa subentendido em diversos momentos que o sentimento de Caio surgiu ainda na infância, quando ele enxergava Felipe como seu melhor amigo, e só foi se transformando ao longo dos anos, permitindo que ele enxergasse muito além da aparência durante aqueles 15 dias.
Por outro lado, o maior problema do filme também está em seu roteiro, que levanta diversas questões sem realmente desenvolvê-las. A história não deixa claro, por exemplo, quando Felipe deixou de frequentar a piscina, nem aprofunda a cobrança que ele sente por ter sido ignorado por Caio tantas vezes quando os dois se cruzavam pelas dependências do prédio. São questões que poderiam contribuir para um desenvolvimento mais profundo dos personagens e da própria relação que surge entre eles. A implicância existente entre os dois também precisava de mais contexto e acaba se dissolvendo sem muito debate. Isso, sim, soa extremamente utópico dentro da história, muito mais do que a possibilidade de um amor real surgir entre pessoas com corpos diferentes. Miguel Lallo e Diego Lira demonstram certa inexperiência diante das câmeras, mas conseguem trazer aos personagens a composição necessária para conquistar a empatia do público diante das diversas situações que enfrentam. Isso é especialmente importante no caso de Lallo, já que o filme inteiro é contado a partir do ponto de vista de Felipe, fazendo com que acompanhemos seus pensamentos, ríamos das situações que ele cria em sua própria cabeça, sintamos a dor do bullying que recebe e sejamos carregados pelas incertezas que surgem quando tenta compreender o comportamento de Caio. Lira, por sua vez, consegue se manter dentro do estereótipo do garoto padrão e aparentemente hétero, sem tornar sua sexualidade uma questão óbvia para o público, mas oferecendo os sinais necessários para construir a história. Caio é apresentado quase como alguém colocado em um pedestal, que pouco a pouco vai sendo desconstruído, enquanto Felipe é um garoto com a autoestima profundamente abalada que começa a reconhecer seu próprio valor.

Essa construção é a verdadeira joia do filme e acaba funcionando como uma espécie de contrapeso diante dos deslizes e conveniências do roteiro. É ela que nos faz embarcar nessa jornada romântica cheia de percalços, mesmo quando a história recorre a clichês conhecidos, e permite que Quinze Dias encontre seu maior poder justamente na capacidade de aquecer o coração. A maravilhosa inserção de “Good Morning, Baltimore” é empolgante, e a participação de Mika Soeiro no papel de Beka, melhor amiga de Caio que acaba sendo essencial para dar o empurrãozinho que Felipe precisa, nos conquista. O grande peso dramático, porém, acaba recaindo sobre Débora Falabella e Mariana Santos, que interpretam as mães dos protagonistas e assumem o desafio de representar duas figuras maternas completamente opostas. Débora é a mãe de Felipe, uma artista solteira, permissiva e muito próxima do filho, construindo com ele uma relação baseada no respeito e em uma espécie de cumplicidade entre iguais. Existem momentos em que Felipe protege Rita e outros em que é ela quem acolhe o filho, criando uma dinâmica familiar muito mais aberta e afetiva. Mariana, por outro lado, no papel de Sandra, interpreta uma mãe mais rígida, que repreende o filho, não aceita sua sexualidade e continua tratando-o como criança, criando um distanciamento que cresce ao longo da trama e chega ao ponto de fazê-la parecer fútil diante dos acontecimentos que cercam o próprio filho, principalmente quando sua implicância com Beka, uma garota lésbica e melhor amiga de Caio, ganha espaço. As duas atrizes recebem personagens importantes para compreender a formação dos protagonistas, cada uma à sua maneira, mas também acabam presas a algumas escolhas convenientes e questionáveis do roteiro, como se determinadas atitudes existissem menos por coerência com essas personagens e mais pela necessidade de produzir consequências interessantes para a história.
No fim, Quinze Dias é simplesmente maravilhoso em sua capacidade de ser um filme genuinamente adolescente sem tratar seu público com condescendência. O roteiro tem conveniências, algumas questões importantes ficam pelo caminho e certas relações poderiam ser melhor desenvolvidas, mas existe uma delicadeza enorme na forma como a história aborda preconceito, autoestima, body shaming, bullying e descoberta sem transformar tudo em um drama pesado. O desenvolvimento de Felipe e Caio é o verdadeiro coração da obra, principalmente por permitir que o romance nasça acompanhado pelo amadurecimento dos dois e pela desconstrução das inseguranças de Felipe. É fofo, sincero e daqueles filmes que conseguem arrancar um sorriso involuntário justamente por acreditar que o amor pode ser simples, mesmo quando todo o resto parece complicado. Quinze Dias talvez não seja uma adaptação perfeita, mas entende exatamente o que precisa preservar do espírito de Vitor Martins: a sensação de descobrir a si mesmo enquanto se descobre alguém. E quando os créditos começam a subir, fica aquela vontade quase inevitável de balançar os pezinhos e acreditar que, por quinze dias ou por uma vida inteira, algumas histórias de amor realmente podem dar certo.
“-Ele é o pior tipo de hétero.
-Existe tipo bom de hétero?”
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.