Nota
Demorou, mas aconteceu. Depois de anos assistindo ao Superman carregar o peso do mundo nas costas sozinho nos cinemas, sua prima biológica finalmente pousou nas telonas com pompa, circunstância e um orçamento digno de quem consegue mover planetas com um sopro. Supergirl acaba de estrear e, para a surpresa de quem ainda tinha traumas daquela versão esquecível dos anos 80, o novo longa da DC entrega uma aventura espacial vibrante que equilibra a grandiosidade cósmica com o puro suco do carisma e do deboche.

A trama afasta Kara Zor-El de Metrópolis e a joga em uma jornada intergaláctica baseada no quadrinho de Tom King. Aqui, Milly Alcock entrega uma Kara que passa longe do estereótipo de versão feminina e boazinha do Superman. Ela é uma sobrevivente calejada, meio cínica, que viu seu planeta explodir enquanto já era consciente e que, nas horas vagas, gosta de encher a cara em planetas sob sol vermelho só para sentir a ressaca humana. É uma anti-heroína de personalidade ácida e cativante que dita o ritmo de toda a narrativa.
A dinâmica do filme ganha corpo quando Kara aceita ajudar a jovem Ruthye (Eve Ridley), uma garota obstinada que busca vingança contra o assassino de seu pai. Esse nêmesis é Krem, interpretado com uma crueldade palpável por Matthias Schoenaerts, um pirata espacial que serve como o contraponto de ameaça real para a dupla. O ritmo de road movie espacial funciona justamente porque as motivações são muito bem distribuídas.
A jornada de amadurecimento de Kara ganha contornos ainda mais interessantes pela forma como o roteiro trabalha o choque cultural entre a rigidez de Krypton e a brutalidade do espaço sideral. Em vez de focar na Terra como o centro de tudo, a narrativa constrói um ecossistema de planetas e facções que faz o universo da DC parecer imenso e povoado de verdade. Essa escolha de design de produção e roteiro dá ao filme uma identidade própria de ficção científica espacial, distanciando o projeto do modelo convencional de Nova York ou Metrópolis sendo destruídas por alienígenas.

O espectador é convidado a explorar esses novos mundos ao lado de personagens que não dependem de piadas datadas para funcionar, garantindo que a trama sustente o interesse mesmo nos momentos em que a ação dá lugar ao desenvolvimento dos diálogos e dos laços entre as duas protagonistas.
O longa dirigido por Craig Gillespie acerta nas participações especiais que amarram este novo universo. David Corenswet dá as caras como Superman, trazendo uma dinâmica de irmão mais velho pacientemente certinho que contrasta com o pavio curto de Kara. E, claro, a maior atração fica por conta de Jason Momoa como o caçador de recompensas Lobo. O ator se encaixa no papel do mercenário czarniano; cada segundo dele em cena com charuto na boca e piadas infames eleva a energia da projeção. Para completar o pacote de mimos para os fãs, até o supercão Krypto rouba a cena com ótimos momentos de alívio cômico.
Visualmente, o filme justifica o ingresso da tela grande. A direção de fotografia de Rob Hardy foge da sobriedade cinzenta de outrora e abraça o visual psicodélico e colorido das páginas das HQs, com efeitos visuais de ponta que dão peso às batalhas em mundos alienígenas. O roteiro de Ana Nogueira consegue equilibrar a violência desse submundo espacial com momentos de emoção e respeito à inteligência do espectador.

Supergirl é o respiro que o cinema de entretenimento precisava. Ao colocar uma protagonista que comanda a narrativa com autoridade e uma pitada justa de arrogância kryptoniana, o longa chuta para escanteio qualquer desconfiança e se consolida como um dos acertos do estúdio. Para quem buscava um filme com coração, cérebro, pancadaria espacial e um elenco que parece estar sintonizado com o público, o destino nos cinemas este fim de semana é obrigatório.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.