Nota
3.5

“Tamo de volta!”

Mais de duas décadas se passaram desde que Cindy Campbell e seus amigos escaparam do Ghostface, mas o passado está longe de ficar enterrado. Quando Valdinha Campbell, a caçula da família, se torna o mais novo alvo do mascarado, Cindy é obrigada a abandonar o isolamento e reunir novamente os velhos companheiros Ray Wilkins, Shorty Meeks e Brenda Meeks. Ao lado de Sara Campbell, sua filha mais velha, Jack Kirsch, namorado de Sara, e dos gêmeos Brad e Dei Meeks, filhos de Brenda, o grupo embarca em mais uma investigação tão absurda quanto perigosa. Agora que duas gerações estão na mira do criminoso, nenhum remake, prequel, requel, spin-off ou sequência estará a salvo. Inspirando-se principalmente em Pânico VI e Halloween (2018), o retorno de Todo Mundo em Pânico também encontra espaço para satirizar produções como Pânico 7, Halloween Kills, Ma, M3GAN, Premonição 6: Laços de Sangue, Corra!, Pecadores, Sorria, Terrifier e A Substância, transformando o terror contemporâneo em mais uma vítima de seu humor escrachado.

Depois de 17 anos longe das mãos dos irmãos Wayans, a franquia Todo Mundo em Pânico finalmente iniciou seu retorno. Em outubro de 2024, a Miramax anunciou um novo filme com Marlon Wayans, Shawn Wayans e Keenen Ivory Wayans de volta como roteiristas e produtores, uma decisão que praticamente transformou os três filmes produzidos sem a participação criativa da família em um grande desvio de rota. O resultado é uma sequência que funciona como continuação direta de Todo Mundo em Pânico, trazendo apenas algumas referências pontuais a Todo Mundo em Pânico 2. Chegando a uma geração completamente diferente daquela que abraçou os primeiros filmes, o longa tenta reencontrar a identidade da franquia após anos de divisões entre crítica e público e, mesmo sem acertar em tudo, consegue recuperar boa parte do espírito que parecia perdido. Ainda é possível perceber que o roteiro pisa em ovos em determinados momentos, evitando algumas piadas que certamente seriam alvo de cancelamento imediato, algo que não existia quando o primeiro filme foi lançado. Mesmo assim, a irreverência, o humor absurdo e a disposição para rir de tudo continuam presentes. E talvez isso aconteça porque este seja, mais do que nunca, um filme dos Wayans. Além de Marlon e Shawn em frente às câmeras, a produção conta com a participação de Gregg Wayans, Kim Wayans, Damon Wayans Jr., Shawn Howell Wayans, Craig Wayans e Ilia Wayans, transformando o projeto quase em uma celebração familiar. Para completar, o retorno da dupla formada por Anna Faris e Regina Hall devolve à franquia uma química que permaneceu insubstituível por mais de duas décadas.

Talvez o maior desafio enfrentado pelos irmãos Wayans fosse responder uma pergunta simples: ainda é possível fazer um filme de Todo Mundo em Pânico em 2026 sem perder a essência politicamente incorreta que definiu a franquia? A resposta encontrada pelo longa é curiosa, porque ele tenta seguir dois caminhos ao mesmo tempo. Em vez de abraçar completamente o humor sem filtros dos primeiros filmes ou se render a uma versão totalmente domesticada da própria identidade, a produção busca um meio-termo que surpreendentemente funciona em boa parte do tempo. O espírito da “zoeira sem limites” continua presente, mas agora acompanhado de uma consciência maior sobre os temas que aborda. Algumas piadas claramente testam os limites do aceitável, outras parecem frear antes de cruzar determinadas linhas, mas é justamente essa tensão que torna a experiência interessante. O filme acerta principalmente quando satiriza os clichês modernos do terror, como perseguições em câmera lenta, traumas geracionais, requels, fan services e a obsessão contemporânea por transformar qualquer franquia em um universo compartilhado. Algumas das melhores piadas sequer estão no centro da cena, surgindo em segundo plano de forma inesperada e arrancando mais risadas do que esquetes inteiras dedicadas a parodiar sucessos recentes.

Também chama atenção a forma como o roteiro lida com Jess, personagem criada como homenagem ao filho de Marlon Wayans, conseguindo fazer humor com questões de identidade de gênero sem recorrer apenas à ridicularização fácil. O problema surge quando o filme abandona sua própria narrativa para se transformar em uma sequência de esquetes desconectadas inspiradas em lançamentos recentes. Nem todas as referências possuem força suficiente para justificar sua presença, e algumas paródias parecem existir apenas porque determinado filme fez sucesso, quebrando o ritmo da trama e criando a sensação de que certas cenas foram encaixadas à força. Ainda assim, quando confia no carisma de Cindy, Brenda, Ray e Shorty, e na química entre a velha e a nova geração, o longa encontra momentos que lembram por que essa franquia se tornou uma das comédias mais populares dos anos 2000. Talvez o melhor exemplo esteja logo na sequência de abertura, uma recriação da icônica introdução de Pânico 6 que coloca a excelente Teyana Taylor no centro da brincadeira, transformando até mesmo sua derrota no Oscar em material para piada. A cena ainda ganha um charme extra com a participação de Carmen Electra, que surge em uma divertida passagem de bastão entre gerações, mostrando que, apesar de todas as mudanças, a franquia ainda sabe rir de si mesma quando encontra a oportunidade certa.

Depois de mais de uma década longe dos cinemas, talvez a maior vitória de Todo Mundo em Pânico não esteja na qualidade de sua história, mas simplesmente no fato de existir novamente. O retorno da franquia está longe de ser perfeito. As referências autorreferenciais se acumulam, algumas piadas já parecem desgastadas pelo próprio histórico da franquia e nem todas as paródias possuem força suficiente para justificar o tempo que ocupam em tela. Há momentos em que o longa parece preso entre homenagear o passado e descobrir como sobreviver ao presente, resultando em uma experiência por vezes truncada. Ainda assim, quando abraça o nonsense, a anarquia e a absoluta falta de compromisso com o bom senso, encontra seus momentos mais inspirados. Algumas piadas funcionam muito bem, outras passam despercebidas, mas essa irregularidade sempre fez parte da identidade da franquia. Talvez o debate mais interessante nem seja descobrir se este é um bom filme ou não. A questão realmente relevante é observar como uma franquia construída sobre o excesso, o deboche e a provocação tenta se adaptar a uma indústria e a um público muito diferentes daqueles dos anos 2000.

Os Wayans claramente suavizam algumas abordagens que antes eram tratadas sem qualquer filtro, mas sem abrir mão completamente do espírito irreverente que transformou a franquia em fenômeno cultural. No fim das contas, Todo Mundo em Pânico faz exatamente aquilo que seu público espera dele. Não entrega uma grande narrativa, não reinventa a comédia e nem pretende ser uma análise sofisticada do cinema de terror contemporâneo. Seu objetivo é provocar risadas através do absurdo, da autoparódia e do caos, e quando consegue isso, pouco importa se a construção dramática é frágil ou se algumas referências envelhecerão em poucos anos. Talvez a qualidade cinematográfica do filme seja quase secundária diante da experiência que ele oferece. Porque, gostando ou não, existe algo estranhamente reconfortante em ver Cindy, Brenda, Ray e Shorty voltarem para provar que, em um mundo onde tudo virou franquia, reboot, prequel, requel ou universo compartilhado, ainda há espaço para alguém simplesmente apontar para tudo isso e rir.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.