Nota
Nos primórdios da civilização, os grandes impérios viviam de conquistas, especialmente de territórios. O grande rei e guerreiro Odisseu (Matt Damon) temia inclusive pela queda do seu reino para os outros povos conquistadores, mas reunindo todo o seu exército e expertise, ele navegou até a grande jornada de adentrar os portões impenetráveis de Tróia para enfim acabar com um dos maiores impérios que ameaçava a sua soberania. A jornada até Tróia já era difícil por si só, ainda mais tendo que deixar para trás a sua esposa, a rainha Penelope (Anne Hathaway), e o seu filho ainda criança Telêmaco (Tom Holland) apenas com a esperança de retorno. Mas Odisseu, que também temia pela sua morte, alertou Penelope que ela deveria se casar novamente caso ele não voltasse, já que o reino precisaria ter um novo rei para se proteger do terrível povo do mar.

20 anos se passaram sem nenhum sinal de vida de Odisseu, Telêmaco está quase na sua maioridade, mas ainda não pode assumir o trono, por isso, na busca por poder, diversos novos pretendentes rodeiam Penelope todos os dias na tentativa de arrancar a coroa do primogênito de Odisseu. Antinous (Robert Pattinson) é o mais ambicioso de todos, e vai fazer de tudo para se casar com Penelope e assumir a coroa. Baseado no clássico de mesmo nome, do poeta grego Homero, A Odisseia é o mais novo filme do diretor Christopher Nolan, que após o seu último Oscar de melhor filme, chega com um projeto ainda mais ambicioso em seu novo longa.
Christopher Nolan já é bem conhecido por ser um diretor bastante ambicioso. Seu último trabalho, Oppenheimer (2023), recebeu muita aclamação pelos seus feitos, especialmente na qualidade técnica. Gravado em IMAX, o filme recebeu bastante aclamação justamente por expandir a sua qualidade técnica, em imagem e principalmente em som, que foi um dos pontos altos do longa. Apesar disso, o filme não conseguiu ser inteiramente gravado em IMAX, feito esse que foi “corrigido” em A Odisseia, já que para o longa foram feitas câmeras especiais para suportar as longas filmagens, já que até então, a tecnologia só permitia takes de cerca de 3 minutos. Junto com o cinematografista Hoyte Van Hoytema, os dois conseguiram o feito de gravar o primeiro filme inteiramente em IMAX, que juntamente com as lindas locações naturais, filmadas por diversos países como: Grécia, Itália, Islândia, Escócia e Marrocos, criaram imagens belíssimas que foram se equilibrando a medida que o filme foi entrando em seu clímax, já que nos primeiros minutos de filme, há uma colorimetria pouco consistente que se estabiliza realmente com o tempo.

Mas as inconsistências de Nolan não param apenas na cinematografia. Reconhecido por seus feitos em som nas suas obras anteriores, o diretor parece ter derrapado um pouco nesse seu sonho ambicioso de A Odisseia. Voltando a colaborar com Nolan, Ludwig Göransson assina novamente a trilha sonora, dessa vez com um olhar mais experimental do que foi com Oppenheimer, que seguiu numa atmosfera clássica que beirava um pouco o romântico, já que o Nolan tem essa ideia de humanizar sempre os seus protagonistas. Já em 2026, a trilha segue com uma rota menos épica e clássica, que foge um pouco do esperado para um filme que retrata uma jornada de herói como foi construída pelo novo roteiro, o que não é necessariamente um ponto negativo, entretanto, a trilha acaba sendo um artifício muito utilizado no filme para criar tensões, mas que nem sempre são necessárias, onde as trilhas que servem para criar um desconforto e um suspense, acabam sendo desconfortáveis por serem irritantes.
Mas algo que dividiu opiniões, foi a questão das alterações da história original que foi apresentada pelo diretor, que também escreveu o roteiro do longa. Nolan tem uma escrita limitada para filmes, tendo seus roteiros seguindo uma linha bastante clichês dos padrões de jornada do herói, e para adaptar um texto tão antigo, clássico, mas sobretudo extenso, foi de fato um enorme desafio para o diretor. A condensação da história seria inevitável para um filme de quase 3 horas, e a maioria das adaptações feitas por ele foram muito inteligentes. A mudança de início da história, para criar mais suspense sobre o destino de Telêmaco foi um ponto alto, assim como o condensamento de cenas menores em grandes arcos para não perder certas interações dos personagens com a mitologia dos cantos originais, mas sem também perder o contexto geral da história. Apesar disso, a mitologia em si acaba ficando limitada, já que o diretor se recusou a trazer de fato o panteão grego para sua adaptação. Há apenas 2 deuses em todo o filme, Athena (Zendaya) e Hades, onde houve um corte extenso de interações dos deuses entre si e dos deuses com alguns personagens recorrentes, como a ninfa Calypso (Charlize Theron), o que empobrece bastante seu desenvolvimento, mas para além disso, reduz Athena apenas a visões que acompanham Odisseu, sendo que ela tem um papel importantíssimo na obra original, especialmente em guiar o Telêmaco, sendo uma oportunidade perdida até para atrair espectadores para esse blockbuster, que adorariam ver cenas de Zendaya e Tom Holland juntos.

Algo que mostra o desleixo da equipe de A Odisseia para todo o elemento fantástico da história original é o figurino preguiçoso que o longa apresenta. Apesar da paleta de cores ser bem acurada com a civilização grega, que raramente é representada em cores, visto que suas estátuas de mármore que perderam as cores são usadas como um elemento visual de que todos os gregos usavam o branco, isso não é uma boa desculpa para mais um ponto de desleixo para a representação do panteão do filme. Parece que o time de direção de arte e de figurino estavam fazendo duas produções distintas, um grande exemplo disso é o figurino de Athena, que é retratada nas estátuas e representações durante o filme com armaduras clássicas de suas representações ou com os emblemáticos ramos dourados na cabeça que simboliza a deidade das esculturas greco-romanas da época. Enquanto isso, Zendaya aparece com um véu e vestes brancas, sem nenhuma aura de divindade, o que já era esperado pela aversão de Nolan de representar Deuses ou criaturas mágicas, mas não é uma desculpa para tirar elementos de suas vestes que representem o seu status de divindade.
Com um orçamento estimado em quase 400 milhões de dólares, Nolan apostou de fato no seu novo longa como um blockbuster para além das premiações, mas para levar o grande público ao cinema, por conta de seu elenco de peso. Sendo basicamente um grande jogo para adivinhar qual famoso de Hollywood irá aparecer nas próximas cenas, o filme que se escorou muito em seu elenco acabou acertando bastante nisso, já que todos eles têm um desempenho mais do que satisfatório. Matt Damon acaba sendo o Odisseu perfeito para o que o Nolan queria transmitir com o filme, sendo um homem arrependido, romântico, fiel, representando tudo que há de bom no ser humano. Quem também é uma ótima surpresa é Robert Pattinson, que após diversos filmes fazendo o mesmo perfil de personagem, bonzinho demais, beirando até o bobão em algumas produções, consegue mostrar novamente sua versatilidade com um dos pretendentes mais cruéis de Penélope. Apesar também de fazer um personagem “fácil” para o seu tipo de arquétipo, Tom Holland também vai muito bem com Telêmaco, já que o papel de bom moço lhe cai muito bem, mas ele também consegue transmitir bem as nuances da maturidade que vai sendo adquirida pelo jovem à medida que o filme vai progredindo, além de não ser nada fácil a tarefa de contracenar com Anne Hathaway.

Já falando de representação feminina, o maior calcanhar de Aquiles de Christopher Nolan como roteirista, A Odisseia também falha bastante com o desenvolvimento de suas personagens. As personagens de Zendaya e Lupita Nyong’o, por exemplo, tem apenas 10 minutos no máximo de tempo de tela, mesmo tendo arcos importantíssimos para a trama. Calypso, personagem de Charlize Theron, é resumida apenas a um recurso narrativo para guiar o espectador às memórias de Odisseu, mesmo sendo ela um dos grandes motivos para Odisseu não retornar para seu reino. Ainda assim, as atrizes entregam o que podem com tão pouco tempo, com a performance de Lupita sendo extremamente impactante no pouco tempo em que a atriz aparece. Mas os destaques sem dúvidas estão para Anne Hathaway e Samantha Morton. Hathaway entrega uma atuação de altíssimo nível para um texto que poderia limitar qualquer atriz inexperiente, conseguindo extrair ao máximo da sua personagem, especialmente no último arco do filme, o mais emocional da trama. Já Morton, tem uma das melhores sequências de todo o longa, e mesmo com o pouquíssimo tempo de tela ela consegue ter um dos melhores desenvolvimentos de todo o roteiro feito por Nolan, mas ainda assim é inegável a falta que faz uma roteirista mulher na equipe do diretor.
A ambição de Nolan o leva a criar uma adaptação satisfatória de A Odisseia, apesar de tantos problemas técnicos. Apesar dos feitos inegáveis na construção de um longa 100% por IMAX, parece que após a excelência técnica de Oppenheimer o diretor derrapou em algumas questões técnicas na construção de seu novo filme. Para além dos detalhes que podem não ser tão notados pelo grande público, os efeitos especiais também geraram um burburinho por não agradarem muito a crítica especializada. Com a adaptação do conto mais famoso, a passagem do Ciclope, o visual da criatura entra num vale da estranheza por, apesar de ter um corpo realista que traz a essência do personagem que beira o neandertal, o rosto quase desfigurado com proporções estranhas ao olho humano, parecem um conceito mal desenvolvido pela pré-produção. Mas sem dúvidas um dos momentos mais malfeitos do filme foi a representação da Cila, o monstro de 6 cabeças que apesar de aparecer por menos de 1 minuto, mostra o amadorismo de Nolan quando se trata de fantasia. Ainda assim o filme contorna bem a adaptação de elementos de sua direção de arte, trazendo um olhar mais modernizado por exemplo ao famoso Cavalo de Tróia, que apesar de moderno demais, traz também um olhar sofisticado para a produção. Entre acertos e tropeços, Nolan entrega um filme que dificilmente alcança a força definitiva do clássico que adapta, mas que tem ainda o seu valor para apresentar a obra clássica com um texto mais adaptado para um público mais jovem e moderno.