Nota
2

Às vezes, o cinema nos presenteia com obras que transcendem as noções convencionais de bom ou ruim. Coração Partido, adaptação russa do livro homônimo da autora Anna Jane, é exatamente esse tipo de acontecimento. O filme chega às telas com a firme intenção de entregar um drama romântico jovem e visceral sobre bullying, pactos de namoro falso e traumas de juventude. O resultado, porém, é uma experiência tão desastrosa em todos os seus aspectos técnicos e artísticos que cruza a fronteira do trágico e se converte em uma comédia involuntária de alto nível.

A história acompanha Polina (Veronika Zhuravleva), uma estudante que se torna alvo de perseguição na nova escola e decide fechar um acordo absurdo com Bars (Daniel Vegas), o grande valentão do colégio: ele finge ser seu namorado para protegê-la, enquanto ela obedece às suas ordens. A premissa já nasce repleta de clichês cansados, mas o verdadeiro problema reside na execução. A produção parece ter sido concebida, gravada e editada por um algoritmo treinado exclusivamente por aquelas minisséries e novelinhas verticais que dominam o TikTok. A atuação do elenco inteiro opera em um tom inacreditável. A dupla principal flutua entre o absoluto torpor facial e a superdramatização estridente, sem meio-termo. Diálogos que deveriam soar profundos ou emotivos na boca de Polina e Bars são entregues com a rigidez de quem está lendo o teleprompter pela primeira vez. A química entre os protagonistas simplesmente não existe; cada cena de conflito ou paixão evoca o mesmo impacto dramático de um comercial de margarina mal atuado.

O texto tenta desesperadamente emplacar frases de efeito que soam terrivelmente artificiais quando ditas em voz alta. O desenvolvimento dos arcos secundários consegue ser ainda mais descuidado, apresentando figuras como Dilara (Alya Mayer), Lyokha (Maksim Saprykin), a Mãe de Polina (Evgeniya Loza) e o Padrasto (Pavel Kuzmin), que surgem e somem sem cumprir função alguma além de ocupar tempo em cena. Toda a tentativa de construir um clima de tensão romântica acaba desmoronando sob o peso de atuações engessadas, tornando impossível levar a sério a dor ou os dilemas da dupla principal.No aspecto técnico, a direção de fotografia de Konstantin Postnikov e o jogo de câmera completam o espetáculo estético do caos. O filme abusa de enquadramentos genéricos, iluminação estourada e cortes de edição sem ritmo que parecem pensados para prender a atenção de quem tem a capacidade de foco de três segundos.

A montagem salta de uma situação absurda para outra sem qualquer transição orgânica, fazendo com que o roteiro pareça um amontoado de esquetes desconexas empilhadas para bater a cota de tempo de projeção. A sonoplastia também merece um capítulo à parte na tragédia. A trilha sonora surge em momentos aleatórios com transições brutais que cortam a fala dos personagens, tentando forçar emoções que a encenação não é capaz de construir. Os efeitos sonoros parecem tirados de um banco de áudio gratuito da internet, pontuando olhares e caminhadas lentas com uma vergonha alheia que poucas produções atuais conseguem igualar. É justamente essa ruína irrestrita que torna Coração Partido uma experiência fascinante. Quando a câmera dá um zoom dramático desnecessário acompanhado por um acorde musical estridente para enfatizar uma revelação banal de Polina ou Bars, é impossível não rir.

O filme é tão ruim em suas escolhas que se torna genuinamente divertido para quem assiste disposto a abraçar o absurdo da produção. No fim das contas, a adaptação falha miseravelmente como drama adolescente, mas triunfa como entretenimento involuntário. Para quem busca uma narrativa bem desenvolvida ou atuações convincentes, a recomendação é passar longe. Por outro lado, para quem aprecia o puro suco do cinema ruim e quer dar risada do amadorismo cinematográfico vestido com figurino de grande produção, a sessão é um prato cheio.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.