Nota
4

Gugu (Yuri Gomes) nos seus quase 12 anos, vive no interior do Ceará com sua avó, Dilma (Teca Pereira), após perder a mãe. Apaixonado por futebol, dança e maquiagem, o garoto vive uma infância extremamente livre ao lado da avó, uma senhorinha extravagante, divertida e cheia de vida, que não mede esforços para garantir que seu neto possa ser quem ele realmente é. Entretanto, essa liberdade não é vista com bons olhos por seu pai, Batista (Lázaro Ramos), um homem que, apesar de demonstrar preocupação com o bem-estar do filho, não aceita seus trejeitos afeminados e tenta constantemente reprimir sua personalidade. A situação se complica quando Dilma começa a apresentar lapsos de memória, fazendo com que Gugu precise enfrentar a possibilidade de perder sua principal figura de apoio e passar a viver com o pai. Após uma passagem extremamente bem-sucedida por festivais nacionais e internacionais, Feito Pipa (2026), novo longa-metragem do diretor Allan Deberton, chega aos cinemas brasileiros carregando uma grande responsabilidade: representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional de 2027.

Sendo um dos grandes destaques do Festival de Gramado deste ano, Feito Pipa conquistou quatro Kikitos, incluindo Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Direção para o diretor Allan Deberton. Após seus dois filmes de maior reconhecimento, Pacarrete (2019) e O Melhor Amigo (2025), muitos de seus trabalhos anteriores podem ser enxergados em seu novo projeto. Apesar de apresentar uma história relativamente simples e pouco aprofundada em determinados momentos, o seu musical brasileiro conseguiu atrair o público através de sua estética extremamente colorida, divertida e visualmente muito bonita. E essa identidade visual que também se manifesta em Feito Pipa, embora agora esteja inserida em um contexto muito mais dramático e emocional, que também serve como um elemento para auxiliar os personagens nessa dramaticidade.

Deberton, sem dúvidas, se prova como diretor na sua nova produção, construindo um universo visual aproveitando as paisagens do interior cearense e uma paleta de cores bastante vibrante, que contrasta diretamente com os assuntos delicados abordados pelo roteiro. É um filme muito colorido, mas que nem por isso deixa de tratar de temas difíceis, justamente porque essa escolha estética parece acompanhar a própria personalidade de Gugu, que enxerga o mundo através de uma perspectiva muito mais livre, criativa e cheia de possibilidades.

O trabalho de direção de arte e figurino, especialmente quando falamos da personagem de Teca Pereira, também é um universo à parte. Dilma é uma senhora que foge completamente da representação convencional de uma avó no cinema, já que ela gosta de se maquiar, frequenta festas de forró, namora e utiliza roupas extravagantes e extremamente bem pensadas, que ajudam a construir sua personalidade antes mesmo que ela precise dizer qualquer coisa. É uma personagem cheia de vida, que não permite que sua idade determine a maneira como deve se comportar. Essa preocupação com os detalhes também está presente na caracterização de Gugu. Um dos elementos mais interessantes é a maneira como o garoto utiliza pequenas pedrinhas adesivas para se maquiar, encontrando uma alternativa criativa para expressar sua feminilidade mesmo podendo ter acesso a produtos de maquiagem, mas os adesivos são uma ótima opção para quando ele precisa rapidamente reprimir sua identidade. Esses pequenos detalhes que ajudam a construir a identidade do personagem e demonstram o cuidado da produção em representar essa infância LGBT+ de maneira natural, sem transformá-la em uma caricatura.

E falando em naturalidade, é impossível não destacar o excelente trabalho de Yuri Gomes como protagonista. Trabalhar com crianças no cinema nem sempre é uma tarefa fácil, especialmente quando elas precisam carregar uma narrativa que exige tanto emocionalmente. Entretanto, Yuri apresenta uma atuação extremamente espontânea, fazendo com que Gugu pareça uma criança real, e não simplesmente um personagem interpretado por um ator mirim. Seus trejeitos, suas brincadeiras e a maneira como interage com os demais personagens são muito naturais, o que também demonstra o excelente trabalho de direção de elenco realizado por Allan Deberton em lidar com o núcleo infantil, composto também pelos amigos e rivais do personagem Gugu.

Mas se Yuri Gomes é uma das grandes revelações da produção, Teca Pereira é, sem dúvidas, um de seus maiores pilares. A atriz, que já possui uma carreira consolidada, entrega uma atuação excepcional como Dilma, transitando com muita facilidade entre momentos de humor, afeto e vulnerabilidade. Sua personagem é extremamente carismática, e a relação que estabelece com o neto é o verdadeiro coração do filme. É justamente por conta dessa conexão tão bonita entre os dois que os primeiros sinais de sua perda de memória criam cenas ainda mais difíceis para o espectador, trazendo uma conexão com a situação, especialmente de quem já passou por situações parecidas na família. Lázaro Ramos, por sua vez, entrega mais uma excelente atuação em sua carreira. Lázaro, vem explorando personagens moralmente questionáveis em trabalhos recentes, o que contrasta muito bem com seu carisma que é difícil de esconder.

Batista é um pai que, à sua maneira, acredita estar fazendo o melhor pelo filho, mas que, ao mesmo tempo, é incapaz de aceitar sua personalidade e sua maneira de se expressar, conseguindo construir um personagem que demonstra afeto e preocupação, mas que também provoca medo e desconforto, especialmente quando interage com Gugu. Numa performance que consegue transmitir essa ameaça sem precisar transformar Batista em um vilão exagerado, mostrando como o preconceito também pode estar presente em relações familiares que, teoricamente, deveriam ser construídas através do amor e da proteção, mas ao mesmo tempo também o humanizando quando necessário, para mostrar que ele também se preocupa com seus filhos.

Com aproximadamente uma hora e meia, Feito Pipa poderia ter aproveitado melhor seu tempo de duração. O longa apresenta diversos conflitos entre seus personagens que poderiam ter recebido um desenvolvimento maior. Não que necessariamente uma narrativa precise resolver todas as questões que apresenta, mas alguns conflitos que foram sendo antecipados desde o início da trama poderiam ter sido melhor explorados, até para transmitir uma mensagem melhor sobre preconceito e aceitação de crianças LGBT+.

Falando de tantos temas, que convergem em uma trama familiar, a escolha de Feito Pipa como representante brasileiro no Oscar de 2027 se torna tão curiosa, porém interessante.
Nos últimos anos, o cinema nacional conquistou um espaço extremamente importante na premiação, especialmente com Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, e O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho. Embora sejam produções completamente diferentes, ambas possuem em comum a utilização de períodos marcantes da história brasileira, especialmente a ditadura militar, como elementos fundamentais de suas narrativas. Ainda Estou Aqui com uma abordagem muito mais tradicional dentro daquilo que esperamos de filmes que vão agradar a Academia: Um drama histórico, com atuações de altíssimo nível e uma narrativa que resgata um período extremamente doloroso da história, algo que também encontramos em outras produções internacionais que conquistaram reconhecimento na premiação. Já O Agente Secreto utiliza esse mesmo contexto histórico de uma maneira completamente diferente. Kleber Mendonça Filho constrói uma narrativa que mistura diversos gêneros e discussões, apresentando um Brasil que vai muito além da representação histórica convencional, explorando aspectos culturais, sociais e políticos através de uma linguagem cinematográfica muito particular.

Feito Pipa, entretanto, parece seguir um caminho bastante diferente dos dois. Apesar de também abordar questões sociais importantes, o longa não está diretamente preocupado em retratar um grande acontecimento histórico ou político. Sua narrativa é muito mais universal, trazendo um intimismo concentrado nas relações familiares, no envelhecimento, na sexualidade e expressão de gênero, mas principalmente, na liberdade de ser quem se é. Nesse sentido, há de se perceber uma certa estratégia da Academia Brasileira de Cinema, por fazer uma associação com Valor Sentimental (2025), de Joachim Trier, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026. Embora sejam produções bastante distintas, ambas utilizam as relações familiares como ponto de partida para discutir sentimentos e conflitos que ultrapassam barreiras culturais e geográficas, só que agora com uma identidade profundamente brasileira, especialmente pela ambientação no interior do Ceará, mas ainda abordando questões universais, que podem fazer por públicos de diferentes países se reconhecer naqueles personagens.

Entre a liberdade de ser e o medo de perder, Feito Pipa é uma produção extremamente sensível que pode levar o Brasil novamente ao Oscar no ano que vem. Conseguindo abordar assuntos delicados sem abandonar a leveza e a criatividade presentes no olhar de seu protagonista, o longa que carece de um desenvolvimento maior em determinados aspectos do roteiro, consegue mostrar o amadurecimento do seu diretor. É impossível ignorar o cuidado de Allan Deberton em construir uma história que fala sobre amor, aceitação e o medo de perder aquilo que nos permite ser quem realmente somos, desde os mínimos detalhes de sua produção, figurino e das atuações de alto nível do seu elenco, que foi muito bem dirigido. Feito Pipa estreia oficialmente no dia 5 de novembro em todos os cinemas nacionais, mas pode ser assistido em algumas redes na semana do cinema nacional que vai do dia 29 de outubro até o dia 4 de novembro, com preços promocionais em diversas redes de cinema ao redor do Brasil.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.