Nota
“Bem-vindos ao pior Natal de todos!”
Jason Lightstone decide passar mais uma véspera de Natal ao lado da esposa, Linda, da filha de dez anos, Gertrude (“Trudy”), e do restante da família na luxuosa mansão de sua mãe, Gertrude Lightstone, uma poderosa, fria e arrogante empresária. Também estão presentes sua irmã, Alva, o namorado dela, Morgan Steel, e seu sobrinho de dezoito anos, Bertrude (“Bert”). O que parecia ser apenas mais uma noite de constrangimentos familiares, marcada pelo casamento em crise de Jason e pelo desejo crescente de se afastar da mãe, transforma-se em um pesadelo quando um grupo de mercenários invade o Complexo Familiar GT Lightstone e faz todos de reféns. Como se isso já não fosse caótico o bastante, criminosos e vítimas logo descobrem que Papai Noel está na propriedade. Prestes a abandonar o cargo de bom velhinho, o lendário distribuidor de presentes revela um passado inesperado como um temido guerreiro viking e decide mostrar que, por trás da barba branca e do saco de presentes, ainda existe um combatente brutal disposto a transformar a noite mais mágica do ano em um verdadeiro massacre para salvar aquela família.

Escrito por Pat Casey e Josh Miller, Noite Infeliz foge completamente da proposta de um filme natalino tradicional ao misturar Esqueceram de Mim com Duro de Matar de uma forma surpreendentemente eficiente. Não à toa, a direção acabou nas mãos de Tommy Wirkola, cineasta conhecido por trabalhar com híbridos de terror, ação e sátira, que parece compreender perfeitamente o equilíbrio entre humor e violência que a proposta exige. O longa talvez não seja tão divertido quanto sua premissa faz imaginar, mas entrega um entretenimento natalino bastante competente, capaz de arrancar boas risadas enquanto conduz uma trama de ação envolvente. Seu maior mérito está justamente em equilibrar a brutalidade gráfica com o espírito natalino, transitando constantemente entre extremos. Em um momento acompanhamos Papai Noel derramando sangue, literalmente, para proteger Trudy. No outro, vemos a garota enfrentando os invasores com armadilhas que homenageiam descaradamente Esqueceram de Mim. É um filme que sabe exatamente o que pretende ser e jamais tenta parecer mais inteligente ou sofisticado do que realmente precisa.
David Harbour carrega o filme com enorme facilidade. Seu Papai Noel é uma das interpretações mais carismáticas de sua carreira, transformando uma figura tradicionalmente dócil em um guerreiro cansado, brutal e cheio de personalidade. As referências ao passado viking do personagem funcionam muito bem, assim como a maneira divertida com que ele improvisa armas utilizando tudo o que encontra pelo caminho, enquanto demonstra um completo despreparo ao tentar usar equipamentos modernos, como metralhadoras. Ao mesmo tempo, o roteiro acerta ao não transformar o protagonista em uma força invencível. A cada confronto, Harbour revela um Noel vulnerável, que sangra, se machuca e coloca a própria vida em risco, aumentando a tensão conforme a narrativa avança. Leah Brady também merece destaque ao interpretar Trudy com uma doçura contagiante. Ela funciona como a bússola moral do filme, lembrando constantemente ao protagonista e ao público que toda aquela violência só faz sentido porque existe algo puro e inocente que ainda vale a pena proteger. Beverly D’Angelo e John Leguizamo completam o elenco em posições opostas, mas igualmente eficientes. Enquanto D’Angelo transforma Gertrude Lightstone em uma mulher fria, arrogante e convencida de que dinheiro resolve qualquer problema, Leguizamo faz de Scrooge um antagonista divertido justamente por permanecer racional diante do absurdo. Ele se recusa a acreditar que está realmente enfrentando o Papai Noel e tenta explicar tudo pela lógica, mesmo quando ela claramente deixa de existir.

Poucos filmes conseguem transformar um Papai Noel esmagando mercenários com um martelo em algo estranhamente emocionante, talvez por isso o longa tenha arrecadado cerca de US$ 76,6 milhões em todo o mundo. Ele nunca ironiza o Natal, mas se diverte ironizando seus personagens, a violência e os clichês do cinema de ação, principalmente quando brinca com o fato de o bando de mercenários assumir codinomes natalinos, trazendo Scrooge acompanhado por Sino, Panetone, Pisca-Pisca, Uva-Passa, Bengala Doce, Pavê, Manjar e Biscoitinho. Noite Infeliz trata a magia natalina com uma sinceridade inesperada e é justamente isso que o diferencia de uma simples paródia violenta. Por trás de toda a carnificina existe uma história sobre acreditar nas pessoas, valorizar a família e preservar a inocência em um mundo cada vez mais cínico. Talvez o filme não seja tão inventivo quanto seu conceito faça parecer e algumas piadas não tenham a força que poderiam ter, mas Tommy Wirkola entende que o verdadeiro presente está em abraçar o absurdo sem perder o coração da história. O resultado é um blockbuster despretensioso, divertido e cheio de personalidade, que encontra espaço para se tornar uma opção recorrente entre os filmes de Natal para quem prefere trocar renas, bonecos de neve e romances açucarados por machados, marretas e litros de sangue. Afinal, poucas coisas são tão inesperadamente satisfatórias quanto ver o bom velhinho lembrar que, antes de distribuir presentes, ele já sabia muito bem como vencer uma guerra.
“- Pega esse carvão e enfia bem no meio do…
– … ânus deles!”
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.