Nota
3

“- Shaolin! Shaolin! Shaolin!
– Escavadeira! Escavadeira! Escavadeira!”

Dez anos depois de se tornar conhecido ao derrotar Toni Tora Pleura, Aluísio Li vive um momento de decadência. Afundado em dívidas, vendo sua academia ser demolida e ainda enfrentando o luto pela recente morte de sua mãe, ele parece ter perdido tudo aquilo que conquistou. Mas uma luz surge no fim do túnel na forma de Demóstenes, Eustáquio e Jussimara, um trio que procura o lendário “Shaolin do Sertão” para participar da Liga Chiba Kombat, um canal que pretende transmitir lutas 24 horas por dia através de um torneio televisionado. A proposta levará Aluísio a uma série de combates itinerantes pelas cidades do Nordeste, seguindo um modelo semelhante ao que Toni Tora Pleura fazia no passado e oferecendo ao lutador a oportunidade de conseguir o dinheiro necessário para pagar suas dívidas. Mas nem toda oportunidade é tão boa quanto parece, e por trás das intenções apresentadas por Demóstenes existe um plano obscuro que envolve a ardilosa Kimiko.

Em 2016 tivemos O Shaolin do Sertão, que conquistou o público com artes marciais, cearensidade e muita “fuleragem”, agora avançamos para os anos 90 e acompanhamos uma nova fase da vida de Aluísio, em uma realidade que apresenta personagens transformados, outros exatamente como os conhecemos e novas caras prontas para se juntar a essa jornada repleta de desafios, novos valentões e novos trambiques. Edmilson Filho era um coitado desacreditado no primeiro filme, mas agora encontramos um personagem que evoluiu e, apesar de ainda ser desacreditado por muitos de seus conterrâneos, carrega resquícios do prestígio que o levou à fama. É justamente nesse contexto que surge a oportunidade de ampliar o universo apresentado no primeiro filme. Sair de Quixadá representa a chance perfeita para o Shaolin reencontrar seu fogo, principalmente agora que perdeu praticamente tudo o que o prendia àquela cidade. Fiel ao antecessor, o longa novamente conta com roteiro de L.G. Bayão e direção de Halder Gomes, mas existem momentos em que o excesso de apego ao primeiro filme acaba prejudicando justamente a evolução que a sequência tenta construir.

Se no primeiro filme Aluísio era acompanhado por Jesus (Haroldo Guimarães) e Piolho (Igor Jansen), a dupla de primos agora é deixada em uma trama paralela que agrega de forma interessante ao roteiro. Mesmo afastados da jornada principal, eles surgem em momentos pontuais para contribuir com a história. Dessa vez, quem assume o papel da criança que incentiva Aluísio e o acompanha durante sua jornada é Micróbio, vivido com enorme carisma por João Pedro Frota, jovem ator e lutador de kung fu que consegue equilibrar muito bem os dois mundos e entregar uma atuação bastante carismática. Falcão retorna ao papel de China, mais uma vez assumindo a função de mentor de Aluísio e ajudando-o a se tornar um grande campeão, mas dessa vez sua presença soa desnecessária, principalmente quando Fafy Siqueira surge muito mais dentro da função de mentora. Muitas das cenas protagonizadas por Falcão poderiam, com algumas escolhas de roteiro, ser transferidas para Fafy sem qualquer prejuízo à trama, fazendo parecer que o retorno do ator acontece mais pela necessidade de manter parte do elenco original do que por uma real necessidade narrativa. O mesmo acontece com Fábio Goulart, que apesar de ser uma lenda do taekwondo, retorna como Toni Tora Pleura e acaba tendo uma participação muito mais inofensiva do que a do grande antagonista do primeiro filme. Sua presença pouco acrescenta à nova história e reforça a sensação de que o longa tem dificuldade em desapegar do passado. A comitiva ainda ganha João Pimenta, que interpreta o mecânico MZ e inicialmente parece ter uma função importante para a jornada, mas rapidamente se transforma em um acessório dispensável, contribuindo para uma equipe que poderia ser mais enxuta do ponto de vista roteirístico.

Claro que não dá para deixar de citar Aya Matsusaki, que só começa a ter mais presença de tela após a metade do longa, mas entrega um contraponto de seriedade e mistério em meio ao caos e à comédia que cercam a jornada de Aluísio Li. Ela se torna uma divertida ponte cultural entre o Ceará e o Japão, criando uma trama que incentiva Kanako Musashi a sair da aposentadoria. Kanako surge como o grande rival, quase como um chefão final da Liga Chiba Kombat, o adversário mais casca-grossa da jornada de Aluísio, e cai como uma luva nas mãos do ex-campeão do UFC Lyoto Machida, que consegue construir o personagem com naturalidade ao trazer para a atuação a filosofia e a disciplina japonesa que fizeram parte de sua própria carreira. O Shaolin do Sertão 2 enfrenta alguns tropeços justamente quando tenta ser maior do que seu antecessor, mas continua encontrando sua força na simplicidade, no carisma de seus personagens e na capacidade de transformar a cultura nordestina em entretenimento genuinamente divertido. Halder Gomes entende como poucos a importância de contar histórias que tenham sotaque, identidade e humor próprios, e mesmo quando a sequência exagera nas referências ao primeiro filme, existe uma energia contagiante que impede que a experiência se perca. Talvez o maior desejo depois dos créditos seja ver Aluísio Li tendo espaço para novas pancadas, novas trapalhadas e, principalmente, muita “fuleragem” para oferecer.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.