Nota
4

“- É daí que vem o bom karma, sabe? Atos de bondade.
– Hum, eu não ligo muito para essas coisas.
– Você se interessa por descobrir a verdade?”

Após o intenso confronto contra George Marks, Lilly Rush inicia um novo ano carregando as consequências do caso mais traumático de sua carreira. Mesmo sabendo que matou um dos serial killers mais perigosos que já enfrentou em legítima defesa, a detetive continua sendo perseguida pelas lembranças daquele confronto, enquanto tenta retomar a rotina da Divisão de Casos Arquivados. Ao mesmo tempo, a equipe passa por mudanças importantes. A chegada da detetive Josie Sutton, recém-transferida para a Divisão de Homicídios após rumores de um relacionamento com seu antigo superior, altera momentaneamente a dinâmica do grupo, mas sua permanência é curta e abre espaço para uma nova integrante: Kat Miller, policial da Divisão de Narcóticos que rapidamente demonstra sintonia com os métodos de Lilly e de John Stillman. Em meio a essa renovação, a temporada mantém sua proposta de revisitar crimes esquecidos, mas passa a concentrar boa parte de seus casos nas diferentes formas como laços familiares, amizades e relações de afeto podem ser destruídos pela violência, transformando a ideia de família no principal elo entre as investigações.

Exibida entre setembro de 2005 e maio de 2006, a terceira temporada mantém os 23 episódios de aproximadamente 45 minutos e preserva praticamente intacta a identidade visual que consolidou Cold Case como um dos dramas policiais mais singulares da televisão americana. A combinação entre flashbacks cuidadosamente reconstruídos, músicas de época e investigações conduzidas sob a ótica do presente continua funcionando com enorme eficiência, mas desta vez o roteiro demonstra maior confiança para brincar com sua própria estrutura. Episódios como “Start-Up” (3×07) retomam acontecimentos já conhecidos pelos espectadores ao sugerir novas pistas sobre o desaparecimento de Elisa, enquanto “One Night” (3×16) apresenta um dos conceitos mais marcantes da temporada ao colocar a equipe diante de um homem que confessa ter enterrado Steve Jablonski vivo vinte e seis anos antes, apenas para descobrir que a pá utilizada no crime contém terra recente, indicando que outra vítima pode ter sido enterrada décadas depois.

A season finale, “Joseph” (3×23), também planta sementes importantes para o futuro ao introduzir Joseph Shaw, personagem cuja presença promete repercutir além do encerramento da temporada. Ainda que a série continue confortável dentro de sua fórmula, ela demonstra uma disposição maior para conectar investigações e desenvolver pequenas continuidades entre episódios. Faz falta um arco narrativo mais robusto capaz de conectar a temporada como um todo. Episódios como “One Night” mostram o quanto Cold Case funciona quando se permite fugir do convencional, mas a maior parte dos casos acaba seguindo uma estrutura bastante previsível e, por isso, menos memorável do que em anos anteriores. Ainda assim, a série continua encontrando força na forma como transforma tragédias esquecidas em histórias profundamente humanas.

A terceira temporada de Cold Case representa um momento de estabilidade para a série. A identidade construída desde o primeiro ano permanece intacta, sustentada pela excelente seleção musical, pelos flashbacks sempre bem produzidos e pela sensibilidade em reconstruir diferentes épocas sem perder de vista o impacto emocional dos crimes. Ao mesmo tempo, a produção demonstra maturidade ao renovar discretamente sua equipe com a chegada de Kat Miller e ao permitir que Lilly continue carregando as consequências do confronto contra George Marks, ainda que o desenvolvimento pessoal dos investigadores continue ocupando um espaço bastante limitado. A exceção fica por conta de pequenas tramas envolvendo Nick Vera, enquanto o restante do elenco permanece quase exclusivamente a serviço das investigações. Sem grandes revoluções, a terceira temporada reafirma as qualidades que fizeram de Cold Case um dos dramas policiais mais emocionantes da televisão, mesmo deixando a sensação de que ainda existe espaço para ousar muito mais.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.